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01/08/12
O que aconteceu com os Pediatras

O pediatra tornou-se um profissional escasso nos últimos anos. Fato que pode ser comprovado pela quantidade de posições disponíveis no mercado, pelo valor diferenciado pago pelos plantões em serviços de pronto-atendimento (inclusive em prestadores de ponta) e até mesmo pela baixa procura pelas vagas de residência médica nesta especialidade.

Seria um raciocínio simplista dizer que o principal fator causador desta situação seja a baixa remuneração nos anos que antecederam às circunstâncias atuais. Principalmente levando-se em conta que, independente da época, a recompensa financeira nunca foi o fator decisório para aqueles que escolhem a pediatria. Prevalecem, com certeza, a ideologia da especialidade, o dom de diagnosticar sem ouvir do próprio paciente os dados para compor a anamnese, a capacidade de escutar pacientemente pais aflitos e fundamentalmente o amor pelos pequeninos.

Ao se fazer uma reflexão do cenário presente do sistema de saúde, suplementar ou público, percebe-se facilmente que alguns dos principais fatores motivadores que levam à opção pela pediatria acima descritos não são passíveis de serem praticados. Como fazer uma consulta em 5 minutos, receber por ela R$ 30,00 reais e responder aos questionamentos de pais preocupados por whatsapp durante um mês inteiro, sem se quer ter conseguido olhar nos olhos do paciente e dos pais?
Com a ascensão de uma parcela maior da população à saúde suplementar, o pediatra que se propõe a ser credenciado dos planos de saúde, deve submeter-se às suas regras, adaptando sua agenda, seu tempo de consulta e até mesmo seu raciocínio diagnóstico.

Esta limitação ao exercício da medicina desilude, principalmente em uma espacialidade como a pediatria, onde ouvir e orientar são tão importantes quanto examinar e prescrever.

O desenvolvimento econômico do país contribuiu para uma alteração dos riscos epidemiológicos. A desnutrição e a falta de saneamento dividem espaço com os chamados riscos da vida moderna: stress, sedentarismo, obesidade e tabagismo. Com o aumento da expectativa de vida e consequente envelhecimento da população, a prevenção passou a ser a solução para o controle dos custos assistenciais seja na saúde pública ou privada. 

Entretanto, a maior parte dos programas voltados para a prevenção de doenças, tem como público alvo a população adulta, subdividida em indivíduos saudáveis, de risco, e doentes passiveis de prevenção de atenção terciária. Apenas iniciativas isoladas de programas bem estruturados são voltados para a infância, deixando-se assim, para segundo plano, a fase em que de fato a prevenção deve ser iniciada.

A ineficiência do sistema de atenção à infância só não é completa devido às muitas ações voltadas para a diminuição da mortalidade infantil. Entretanto, não devemos nos esquecer de que houve alteração dos ricos epidemiológicos conforme demonstra gráfico da OMS. E consequentemente, as estratégias dos sistemas público e privado de saúde devem ser repensadas.

O que fazer, por exemplo, com a epidemia de obesidade infantil? Destacando-se o fato que neste ponto já estamos tendo que lidar com crianças que já são um grupo de risco. O controle requer uma abordagem abrangente, multidisciplinar e voltada para atender a todas às classes sociais do país. Estamos nos referindo, antes de qualquer coisa, à necessidade de criação de centros inovadores de atenção à saúde na infância.

Conforme tem se defendido em vários veículos de comunicação e em eventos que reúnem os principais players da cadeia de saúde, infelizmente não sabemos prestar serviços médicos consistentes direcionados à população saudável. Não existe como disciplina na grade curricular dos cursos de medicina, não existe pós-graduação ou especialização abordando este tema assim como não existem prestadores de saúde especializados em indivíduos saudáveis. Em um momento tão economicamente desafiador, vale a pena gastar algum tempo para se pensar em soluções voltadas para a população sadia as quais  poderão possibilitar uma nova fonte de receita. Estamos, portanto, diante de um grande desafio que pode se tornar uma grande oportunidade. Para isto, é necessário “pensar fora da caixa” e ir em busca de soluções criativas e com visão de futuro. 

Artigo publicado na edição 29 da revista Diagnóstico.

Adriana Gasparian
Adriana Gasparian
Adriana Gasparian é mestre em pediatria e MBA em economia e Gestão da Saúde, diretora executiva da EY para a área de saúde e atuou na Amil e Porto Seguro na área de contas médicas.

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