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09/04/13
Família empresária. E o manual de instruções?
A família empresária está ligada a inúmeros compromissos de natureza emocional, empresarial, societária, entre outros. Até a metade do século passado, as famílias em geral conviviam com nível de complexidade menor, em vários aspectos. Os valores familiares eram mais rígidos e pairava um senso comum no desenvolvimento do núcleo familiar. Consequentemente, os negócios familiares também eram regidos por valores diferenciados, herdados dos empreendedores, membros das famílias empresárias daquela época.
 
Atualmente, a taxa de complexidade das relações entre pessoas, famílias, mercado, empresas, governo, em todo o mundo, aumentou muito. Fundadores e membros de famílias empresárias deparam-se diariamente com um cenário em que coexiste um grande número de variáveis incontroláveis. Em diversos momentos das relações comerciais, e até das relações familiares, a relação “ganha-perde” supera a tão desejada relação “ganha-ganha”. Responsabilidades familiares e riscos empresariais desconhecidos pressionam a operação e a gestão da empresa familiar. Portanto, pressionam seu futuro e o futuro do patrimônio da família empresária.
 
Para que seus membros consigam superar essas novas variáveis, é necessário raciocinar de forma inovadora sobre plataformas empresarial e societária formadas por conceitos que até então eram desnecessários e não se aplicavam ao cenário vigente. Apenas para citar dois exemplos: a relação de confiança baseada no  “fio de bigode”  é motivo de risos quando apresentada em meio a uma negociação comercial/empresarial nos dias de hoje. No entanto, nas primeiras décadas do século XX, era a base de negócios até entre grupos empresariais internacionais. A relação matrimonial baseada nos princípios da comunhão de bens, entre o casal, foi a base de 98% dos casamentos até os anos 1950. Hoje, as regras da separação total de bens entre o casal são aceitas por ambos e pela maioria das famílias empresárias.
 
Esse cenário faz com que surja a necessidade de um novo olhar sobre o arsenal de estratégias de proteção do patrimônio das famílias empresárias. Algumas delas são de natureza jurídica e não fazem parte do nosso contexto. No tocante às estratégias de relacionamento familiar visando à proteção e à perenização do patrimônio, defendo a eficácia do desenvolvimento dos instrumentos modernos de limitação do campo de atuação da família como um todo.
 
Nas palavras do grande empresário Mário Ceratti: “Boas cercas, bons vizinhos”. A família, no contexto atual, passa a necessitar de um manual de instruções para que se evitem riscos previsíveis e não se criem condições para o aparecimento de riscos imprevisíveis. O manual, comparável aos que recebemos na embalagem de um novo televisor, uma torradeira de pão, no porta-luvas do automóvel recém-adquirido, contém instruções importantes para os primeiros passos na interação com o novo gadget: não coloque os pinos na tomada antes de verificar os itens  x, y, z;  não dê partida sem antes ter lido as páginas 2 a 5; verifique a voltagem do aparelho antes da primeira utilização etc.
 
Tecnicamente, no contexto das famílias empresárias, estou me referindo ao desenvolvimento do protocolo familiar, ou acordo de família. É o documento responsável pela redução dos riscos do surgimento de conflitos entre familiares – sócios ou futuros sócios – que podem vir a colocar em xeque todo o patrimônio de uma família. Seu conteúdo, bastante rico, está voltado à atuação dos familiares-sócios e familiares-gestores da empresa da família. Apresenta, por exemplo, regras para a atuação de familiares na gestão da empresa da família (entrada e saída, ou seja, admissão e demissão); regras para distribuição dos lucros aos familiares-sócios; utilização da marca do negócio, em negócios específicos de um ou mais familiares; possibilidade (ou não) da participação de familiares-gestores da empresa familiar em entidades ou cargos políticos, sindicais, entre outros.
 
O seu conteúdo é negociado entre todos os familiares-sócios, através da utilização de metodologia específica. É importante que as famílias empresárias façam um upgrade no modelo mental que vigora hoje, no que tange aos seus negócios e patrimônio. Que procurem atuar preventivamente na busca de soluções modernizadoras e protetoras das relações e do patrimônio familiar.
 
Só assim poderá haver a certeza de que o patrimônio e as relações estarão garantidos para as próximas gerações.
Eduardo Najjar
Eduardo Najjar
Eduardo Najjar é expert brasileiro em Family Business. Consultor e palestrante associado da Empreenda, coordenador do GrandTour Family Business Internacional. É professor na ESPM e, além da Diagnóstico, é colunista do Blog do Management (Exame.com).

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