home Blogs Maisa Domenech
Voltar
09/10/13
Hipócrates, nem tudo está perdido
Há muito tinha o desejo de dedicar um desses artigos que escrevo a meu pai, Prof. Dr. Remilson Tourinho Domenech. Médico ortopedista e cirurgião, hoje aposentado, professor catedrático da Escola de Medicina da UFBA e sócio de hospital de referência em ortopedia e traumatologia na Bahia, no qual o seu nome, formação e credibilidade no mercado de saúde foram decisivos na construção de uma marca poderosa, cuja instituição e a especialidade ortopedia passaram a ser sinônimos, durante os muitos anos de sua  atuação no negócio.

Para ele, ser professor, transmitir e multiplicar seu aprendizado, suas crenças e a larga experiência obtida através da função de cuidar do outro, mais do que ser médico, trazia muito prazer. Ficava eu buscando entender o porquê de tanto prazer em lecionar, o que não foi difícil, pois desde a minha infância, e ainda até hoje, posso presenciar com frequência o orgulho demonstrado por muitos dos seus alunos – hoje profissionais de destaque na área médica – em tê-lo tido como professor. 
O meu desejo em lhe fazer esta referência, muito mais do que o enorme carinho e orgulho de filha, veio da reflexão sobre a expressão escandalizada de Hipócrates na capa da revista Diagnóstico de mar/abr de 2013 e da releitura recente das suas teses: Contribuição ao Tratamento das Fraturas Diafisárias do Úmero, em 1961, e Contribuição ao Tratamento das Fraturas Supracondilianas do Úmero na Criança, em 1973,  ambas  apresentadas à Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia. Através da primeira e concurso em agosto de 1961, obteve o título de livre docente da cadeira de Clínica Cirúrgica Infantil e Ortopédica e o título de doutor em Ciências Médico-Cirúrgicas. Com a segunda, o título de professor titular em Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia.
 
No primeiro trabalho, aparece retratado o conceito sobre o que é ser verdadeiramente médico, verdadeiramente cidadão e, sobretudo, a efetiva aplicação dos conceitos de ética, palavra esta tão verbalizada, porém pouco aplicada nos nossos dias. Na publicação em 1961, o Prof. Dr. Remilson Tourinho Domenech descreve que “indicar certo, no particular, é procurar restituir ao paciente a morfologia e a função, integralmente, com o mínimo de sacrifício de sua parte. É atender ao problema médico, não desprezando o aspecto econômico-social. É considerar, acima de tudo, o paciente em si, seguindo o que tão sabiamente já foi dito: ‘tratar o paciente e não a radiografia’. É procurar tratar mais o fraturado e menos a fratura. É tratar visando à reintegração funcional futura do fraturado, antes que a exclusiva restituição morfológica imediata. Indicar certo é procurar fazer com o paciente o mesmo que gostaríamos que fosse feito conosco”. Mais adiante, sugere o Dr. Domenech que a leitura do referido trabalho sirva para contribuir para que o tratamento, invariavelmente invasivo no tipo de fratura ali estudado, possa ser resolvido perfeitamente por meio de método mais inócuo, mais econômico e eficaz.

Embora os holofotes sobre a não conformidade na saúde brasileira sejam recentes, e nos EUA a discussão iniciada nos anos 80 (vide revista Diagnóstico ano IV Nº 20/ mar/abr 2013), vi retratada na tese aqui mencionada, escrita há mais de 50 anos, principalmente, a segurança desejada por um paciente quando em busca de uma aconselhamento médico, em busca de apoio, em busca dos devidos esclarecimentos sobre os riscos impostos pelo procedimento cirúrgico e eventuais alternativas não cirúrgicas. Vi, também, o tão procurado equilíbrio necessário para a perpetuação de um sistema de saúde, seja ele público ou suplementar.

Extrapolando tais escritos e consolidando os conceitos aludidos, por diversas vezes pude presenciar muitos pacientes com indicação de cirurgia consultarem para uma segunda opinião  aquele que era chamado durante toda a sua vida profissional de “papa da ortopedia”. A contraindicação do procedimento invasivo, quando não necessário, em prol de um tratamento conservador, ainda que indicado na sua unidade de saúde, é uma marca na sua vida profissional. Dr. Domenech diversas vezes repetiu que “algumas fraturas são operadas por falta de personalidade médica capaz de enfrentar com superioridade críticas maléficas e destrutivas oriundas de espíritos incapazes, que, deixando de lado os princípios básicos da deontologia médica e mesmo o sentido humanitário, visam, por meio de radiografias feitas antes e após o ato operatório exibidas aos pacientes, se projetar como verdadeiros solucionadores de tais casos. Pobres pacientes! Operados desnecessariamente; satisfeitos, entretanto, pelo fato de presenciarem radiologicamente o seu osso ‘encanado’. Pobres pacientes enganados”.

Não tenho qualquer dúvida de que Hipócrates, diante deste exemplo, assim como de outros, que buscam através da prática médica cuidar do outro com o mesmo cuidado e afinco que gostariam de receber, jamais estaria com o semblante de horror tal como na capa da revista Diagnóstico acima citada, mas dormindo em berço esplêndido, muito tranquilo e sereno em ter a medicina em mãos de  profissionais tais como o meu pai.

*Artigo publicado na revista Diagnóstico n° 22.
Maisa Domenech
Maisa Domenech
Engenheira Civil, pós-graduada em Administração–Hospitalar, consultora, Superintendente da AHSEB, membro do Departamento de Saúde Suplementar da Confederação Nacional de Saúde- CNS.

PUBLICIDADE

Blogs

Newsletter

Cadastre-se e receba as novidades do Diagnosticoweb em seu e-mail

agenda

facebook

© Copyright 2012, Diagnósticoweb . Todos os direitos reservados.