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26/08/13
Segurança
Apesar da evidente evolução alcançada pela área de saúde nos mais diferentes aspectos, convivemos ainda hoje com a necessidade de implementar ações, entendidas como básicas, que resultem em efetiva segurança aos pacientes. 

Todos os anos, centenas de milhares de pacientes na busca de assistência e, sobretudo, de segurança, em virtude da vulnerabilidade pela circunstância em saúde, sofrem danos muitas vezes irreversíveis devido à falta de segurança em procedimentos médicos e/ou hospitalares. Dados foram utilizados como justificativa para o Programa Nacional de Segurança do Paciente – lançado em abril/2013 pelo Ministério da Saúde e Agência Nacional de Vigilância Sanitária –, que tem como objetivo o monitoramento e a prevenção de danos na assistência à saúde, visando diminuir a ocorrência de eventos adversos em pacientes internados, tais como quedas, erros em procedimentos cirúrgicos e incorretas administrações de medicamentos. 

Tal programa prevê ainda a criação de núcleos de segurança do paciente nos serviços de saúde (públicos e privados) e a notificação de eventos adversos associados à assistência. Não poderemos esquecer, porém, que o processo que se traduz em segurança do paciente não se inicia nem se conclui durante um procedimento numa instituição hospitalar. A prevenção de danos na assistência à saúde, como sabemos, abrange outras etapas anteriores, como processos diagnósticos, e mesmo posteriores, tais como resultados adversos após a alta hospitalar. Deste modo, diversas etapas necessitam ser consideradas se a questão é segurança do paciente. Mas, se estamos falando de um sistema em que teoricamente a busca é pela saúde, como entendê-lo de forma desvinculada da segurança em saúde, se esta se constitui em pré-requisito para o alcance de resultados favoráveis? 

A cultura de segurança no sistema de saúde é ainda incipiente comparada à já praticada em outros sistemas que têm semelhante potencial de risco. Apesar da complexidade que envolve o tema saúde, alguns pontos chamam a atenção, divergindo de forma importante de outras áreas de atuação. A consciência de que qualquer resultado é proveniente de uma ação conjunta, de um somatório de diferentes habilidades e competências, de uma atuação de equipe (multidisciplinar no caso da saúde) contrasta com a “autonomia” médica, traço cultural que contribui negativamente com a segurança aqui aventada. Também a aderência a protocolos e, portanto, à disciplina técnica não se constitui, nesta cultura, em tarefa fácil, embora imprescindível. Um fator agravante é a má comunicação entre os diversos profissionais de saúde. Numa equipe, no sentido real da palavra, o objetivo é prover segurança, através da interação de todos os envolvidos direta ou indiretamente na ação, e o esclarecimento de eventuais dúvidas, a fim de garantir, através de revisão sistemática, que as tarefas sejam executadas em conformidade com o planejado e que todos façam o necessário para a obtenção do melhor resultado possível. O somatório disciplina, boa comunicação e trabalho em equipe poderá gerar resultados eficazes em saúde, tal como ocorre em outros sistemas. 

De modo mais abrangente, a forma segmentada de se processar a assistência não contribui com o resultado em saúde. O sistema de saúde no nosso país, em virtude de como está estruturado até então, também compromete o resultado em saúde. Os principais players do sistema competem com propósitos opostos, e na busca por medidas de desempenho ou resultados, o resultado em saúde não está contemplado. Assim sendo, o paciente não é prioritário na cadeia de valor. Dentro desta lógica, os custos são transferidos de parte a parte do sistema, aumentam cada vez mais, crescem à evidência de problemas de qualidade e, consequentemente, de segurança. A competição no nosso sistema de saúde não está vinculada ao resultado desta atividade, tal qual ocorre em outros sistemas, em diferentes áreas.

Embora pareça esdrúxulo, será que a solução não está em focar o sistema de saúde na saúde propriamente dita, ou seja, focar no resultado em saúde? O tipo adequado de competição, conforme o nosso guru Michael Porter, “vai exigir mudanças estratégicas e organizacionais de todos os participantes. Ao perseguirem novas estratégias e estruturas baseadas em valor e resultados, simplesmente os principais atores do sistema estabelecerão uma dinâmica de melhorias muito mais poderosa do que o ativismo de consumidores. E as novas estratégias surgirão do interesse de cada participante, em vez de emergirem de regulamentações impostas pelo governo, que nunca são a verdadeira solução”. Compreender, portanto, a magnitude do problema em saúde é, sem dúvida, o primeiro passo para a obtenção da melhoria em segurança do paciente, parte intrínseca do resultado em saúde. Competir por resultado em saúde gera diagnósticos mais precisos, menos tratamentos invasivos, menos complicações e erros, recuperações mais rápidas e menos riscos ou menor gravidade de doenças, gerenciamento de doenças e prevenção. Programas para mensuração de resultados em saúde e disponibilização para o sistema como um todo serão importantes para as mudanças necessárias e poderão contribuir para a mudança da cultura reinante no sistema e para realinhá-la em torno da sua finalidade básica – a saúde dos pacientes.

Artigo publicado na revista Diagnóstica, n° 21.
Maisa Domenech
Maisa Domenech
Engenheira Civil, pós-graduada em Administração–Hospitalar, consultora, Superintendente da AHSEB, membro do Departamento de Saúde Suplementar da Confederação Nacional de Saúde- CNS.

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