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04/04/16
Caro Gestor: os hospitais podem aprender com a crise
O sistema DRG adotado na África do Sul e a lei da terceirização em discussão no Congresso
Osvino Souza

Muitos setores da economia costumam tirar proveito da crise. Os hospitais podem também tirar um aprendizado do momento que o país atravessa? (João Valadares – RS – Porto Alegre)
Sem dúvida os hospitais podem tirar aprendizado deste momento, assim como todo tipo de organização que estiver atenta e disposta a isso. Em tempos de recursos abundantes ou suficientes, há uma tendência natural ao relaxamento no controle do uso de recursos, afinal eles estão facilmente acessíveis. Com muita facilidade somos atraídos pela propaganda de produtos e serviços que nos enchem os olhos com suas promessas de inovação e resultados superiores. Temos uma tendência a ajustar nosso padrão de vida ao que ganhamos. O mesmo acontece com as organizações, que são constituídas e dirigidas por pessoas. Mas as organizações que prosperam e se perpetuam sabem que é necessário, mesmo naqueles momentos, cuidar e direcionar criteriosamente seus gastos e investimentos, porque pensam em seu futuro, e que “o mundo dá voltas” e em um momento como o que estamos vivendo agora, de escassez de recursos, elas sobrevivem e competem muito mais facilmente com aquelas que não tiveram esta preocupação e só pensaram no curto prazo. As organizações de sucesso estão sempre investindo na máxima, muito ouvida de uns tempos para cá, de “fazer mais com menos”. Mas elas fazem isso de forma consciente, analisando o custo e o benefício, nos sentidos mais amplos desses conceitos, para investirem no que realmente vai mantê-las vivas e saudáveis ao longo dos anos. Em tempos de escassez de recursos, somos propelidos e até obrigados, sob a ameaça da não sobrevivência, a rever nosso modelo mental e os paradigmas em que se sustenta. É um bom momento para simplificarmos o desenho dos processos de trabalho, tornar as regras mais simples, mas ágeis e menos onerosas e treinar as pessoas para serem mais eficientes e eficazes em seu trabalho. É tempo de usar a criatividade e de fazer inovações. É sabido que, com o passar do tempo e com o crescimento, as organizações se tornam complexas e este é quase sempre o motivo que as leva à rigidez e à inflexibilidade que as levam à “morte”.

O sistema DRG vem sendo adotado com êxito em países como África do Sul – com realidade bem parecida com a brasileira. No país africano, os custos caíram, sem prejuízo para a qualidade de atendimento e com o plus de patrocinar um mercado mais homogêneo. É possível adotá-lo no Brasil? (Fátima Amorim – PE – Recife)
Fátima, não conheço suficientemente o Sistema DRG (Diagnosis-Related Groups) para dar um parecer sobre a viabilidade de sua adoção no Brasil e, para responder sua pergunta, pesquisei e li alguns artigos científicos e jornalísticos sobre ele. Fiz isso com prazer. Verifiquei que há iniciativas neste sentido no Brasil e que seus resultados, e de sistemas semelhantes, em países do primeiro mundo, têm sido relevantes. Você pergunta se é possível sua adoção no Brasil. Eu diria que sim, é possível, mas isso exigirá um grande esforço e muita determinação dos hospitais e das operadoras de planos de saúde, pois o modelo de remuneração atualmente adotado (fee for service) está enraizado nos seus processos e sistemas. Será necessário um grande investimento na reeducação dos operadores desses sistemas e na revisão dos contratos vigentes. A despeito de serem evidentes os malefícios que o modelo atual proporciona aos envolvidos, inclusive para os pacientes, ele ainda está aí, produzindo grandes desgastes nas relações entre as organizações envolvidas e sobretudo não correspondendo em qualidade, custo e transparência às necessidades dos pacientes. Um dos artigos que li é um estudo feito por especialistas da Organização Mundial de Saúde sobre a adoção do sistema em países de baixa renda de diversas regiões do mundo. Segundo o artigo, em 2012, 12 dos países pesquisados já adotavam o DRG e outros 17 estavam em processo de estudos e exploração para sua adoção, inclusive a Argentina, onde o sistema estava sendo usado por alguns hospitais em caráter piloto. As principais conclusões indicam que é aconselhável a realização de um projeto piloto e que são necessárias adaptações às especificidades de cada país. Em resumo, o estudo endossa minha opinião sobre a possibilidade de adoção do sistema em nosso país.

De que forma hospitais privados podem tirar proveito da lei de terceirização, em discussão no Congresso? 
Aloisio Fernandes (RJ – Rio de Janeiro)
Tive a oportunidade de vivenciar o que chamo de a primeira onda da terceirização no Brasil, no início dos anos 1990. Na oportunidade eu era gestor de uma indústria siderúrgica relevante, recém-privatizada. Como parte do corpo gerencial da empresa, naquela época víamos a terceirização como uma importante estratégia para a redução dos custos e para o tão almejado e perseguido aumento da produtividade da empresa. Mas vivi, na mesma empresa, poucos anos depois, alguns projetos de “desterceirização”, ou seja, a reversão de vários projetos que não produziram o efeito desejado ou esperado. Na mesma época tive a oportunidade de visitar algumas indústrias japonesas, para aprender o modelo japonês de gestão da qualidade total e aprendi com eles muito sobre terceirização, que lá funcionava muito bem, mas que não era vista como algo novo ou diferente, fazendo parte da cultura empresarial japonesa. Descobri que este era, e talvez ainda seja, um dos segredos da alta produtividade das indústrias daquele país e da invejável qualidade de seus produtos e serviços. Ressalto que, naquele tempo, a produtividade das indústrias japonesas era benchmark para todo o mundo. O que observei e que me surpreende até hoje foi que os funcionários terceirizados, que circulavam livremente e por toda parte nas empresas que visitei, eram tratados com igual respeito e se sentiam orgulhosos de trabalhar para suas empresas e para as empresas contratantes de suas empresas. Andavam uniformizados, revelando facilmente a que empresas “pertenciam”, utilizavam instrumentos e ferramentas com o mesmo padrão de qualidade que os funcionários das empresas contratantes e eram submetidos às mesmas regras que aqueles. Enfim, eles eram tratados com o mesmo respeito e consideração que os empregados diretos. Entendi, então, que não é o fato de ser terceirizado ou não que diferencia o empregado, mas a forma respeitosa ou não com que são vistos e tratados, tanto pela sua empresa quanto pela contratante. 

**Osvino Souza é professor associado da Fundação Dom Cabral nas áreas de Comportamento e Desenvolvimento Organizacional.

*Publicado na revista Diagnóstico n° 30.

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