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23/12/15
Resenha: Bad Faith. Quanto a fé encontra a medicina
Paul Offit aborda a recusa de tratamento médico de pais a suas crianças em nome da religião
Filipe Sousa

‘Bad Faith’ expõe os perigos do extremismo religioso ao negar cuidados médicos básicos e tratamentos que salvam as vidas dos mais vulneráveis entre nós. ‘Bad Faith’ expõe brilhantemente os danos causados por sistemas de crenças que foram distorcidos”

David Oshinsky, vencedor do Prêmio Pulitzer e diretor da Divisão de Humanidades Médicas da New York University

Quantos médicos e gestores hospitalares já não tiveram de lidar com argumentos religiosos de familiares na hora de tratar um paciente – ou de salvar sua vida? Se isso alguma vez aconteceu com você, o livro “Bad Faith” (Má Fé, em tradução livre) teria sido uma bela ajuda nessa hora. Se nunca aconteceu, o escritor Paul Offit, também professor de vacinologia e pediatria na Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia (Estados Unidos), oferece um manual sobre como lidar com uma questão tão complexa.

Na obra, que ainda não tem versão em português, Offit desbrava uma nova trilha na abordagem da relação entre religião e medicina. Ele se coloca na perspectiva do médico, mas também na daqueles que optam por dar o papel de mártires a si mesmos ou a seus filhos em nome da religião. “Bad Faith” mostra como a recusa da medicina com base na religião “não é apenas imoral e insensata, é uma rejeição do que os próprios ensinamentos religiosos têm a oferecer”, explica o autor.

Offit conta que leu diversos livros que defendiam que a religião é ilógica e potencialmente nefasta. Depois, mudou o alvo da sua atenção. Decidiu ler o Novo e o Velho Testamento e percebeu que seria fácil chegar à mesma conclusão. Mas, em vez disso, ele acabou acolhendo diversos ensinamentos religiosos. Segundo Offit, “o Velho Testamento é rico em mitzvahs, ou boas ações (literalmente, mandamentos), dizendo de forma clara que devemos honrar nossos pais, família, amigos, vizinhos e estranhos com atos de altruísmo”. O Novo Testamento, segundo ele, não é muito diferente. O problema não está em seus ensinamentos, mas na forma como as pessoas os interpretam. Paul Offit volta à época em que Jesus nasceu, quando o infanticídio era uma prática comum e legal. “As crianças não eram consideradas gente, eram propriedades, como escravos”, diz. Por isso, os pais podiam fazer com elas o que quisessem. Para Offit, é incompreensível que os pais, em nome de Jesus, ignorem os gritos de filhos com meningite, a falta de ar causada pela pneumonia ou a erosão provocada pelo câncer. Especialmente quando se leva em conta o amor de Jesus pelas crianças e suas palavras de admiração pelos médicos, falando de um Deus que abomina o sofrimento, conforta os aflitos e que nunca daria doenças a crianças como um teste de fé.

São diversos os casos verídicos relatados por Paul Offit no início de “Bad Faith” para ilustrar a interferência das crenças religiosas na medicina e as mortes causadas por quem decide preterir o tratamento clínico para apelar à intervenção divina. Alguns exemplos são os de cientistas cristãos que rezam pela cura em vez de ir ao médico, de transfusões de sangue não autorizadas por testemunhas de Jeová e de mortes de crianças pela recusa dos pais em levá-las ao hospital. A obra também ilustra como a religião pode ser um obstáculo à saúde e à medicina, como nos casos citados de contágio por herpes pelo uso de ferramentas de circuncisão contaminadas em rituais de judeus ultraortodoxos ou de surtos de tosse convulsa na Califórnia, de caxumba em Nova York e de sarampo na comunidade amish de Ohio. Offit também menciona que um aborto realizado em hospital católico fez com que o bispo local cortasse relações com a instituição, que foi proibida de realizar missas em sua capela. 

Nos Estados Unidos, crianças sofrem e morrem, todo ano, de doenças que podem ser tratadas. Na maioria dos estados norte-americanos, há um manto legal cobrindo os pais que negam tratamento aos próprios filhos por motivos religiosos. Offit centra uma boa parte do livro na análise sobre o que acontece nos Estados Unidos, não apenas no que diz respeito aos pais, mas também à lei. E ele aponta o dedo a dois cientistas cristãos presentes na administração Nixon (presidente dos Estados Unidos entre 1969 e 1974): H.R. Haldeman e John Ehrlichman. Eles ficaram famosos pelo envolvimento no escândalo Watergate, no qual a espionagem ilegal de membros da oposição fez o presidente Nixon renunciar ao cargo. 

Código de ética

O caso citado por Offit remonta a 1957, quando Lisa Sheridan, de 5 anos, morreu de pneumonia. Sua mãe, Dorothy, também cientista cristã, trocou os antibióticos pela oração. A autópsia revelou uma grande quantidade de pus no peito da criança, por isso Sheridan foi acusada de homicídio pelo Ministério Público. Condenada, recebeu a pena de cinco anos em liberdade condicional. Nesse mesmo período, surgiu a Capta (Child Abuse Protection and Treatment Act), e os anciãos da igreja dos cientistas cristãos recearam que os holofotes do caso incidissem sobre seu modo de vida. Foi aí que decidiram recorrer a Haldeman e Ehrlichman. 

O resultado foi um anexo sobre imunidade religiosa na Capta: “Nenhum pai ou tutor que de boa fé esteja fornecendo um tratamento a uma criança exclusivamente por meios espirituais – como a oração –, de acordo com os princípios e práticas de uma igreja reconhecida por meio de um profissional devidamente acreditado, pode, só por essa razão, ser considerado negligente com uma criança”. O professor universitário indica o Canadá e o Reino Unido como bons exemplos. Em ambos os países, não existem cláusulas religiosas em caso de negligência médica, e é excepcionalmente raro ocorrer uma morte infantil causada pela tentativa de curá-la pela fé. Nos Estados Unidos, Offit encontrou Rita Swan, que se dedica a desfazer o fruto da ação de Haldeman e Ehrlichman. Com o marido, ela criou a Child (Children’s Healthcare Is a Legal Duty), uma organização que, até hoje, já conseguiu que a imunidade religiosa fosse eliminada da legislação de cinco estados.

No Brasil, o Código de Ética Médica prevê que o paciente tem autonomia para decidir a qual tratamento médico se submeter, após esclarecimentos sobre seus riscos e consequências. O Código diz também que é dever do médico utilizar todos os meios possíveis para curar a enfermidade e salvar a vida de seu paciente. A Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente protegem crianças e adolescentes de qualquer situação prejudicial, sendo “dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida e à saúde (…)” e “(...) dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente”. 

O livro “Bad Faith” é mais do que uma exposição de casos e se mostra bem diferente da tradicional acusação da religião como um obstáculo à medicina. O pediatra conclui que ser religioso é ser humano. Paul Offit torna claro que os ensinamentos religiosos levaram, ao longo da história, “ao auxílio dos desfavorecidos, à ajuda dos pobres e famintos, ou a um teto para os desalojados”. Mesmo reconhecendo o papel positivo da fé no divino e da religião, ele considera necessário acabar com a figura legal que concede um estatuto de isenção religiosa à negligência médica. Offit quer, com o livro “Bad Faith”, juntar-se a pessoas como Rita Swan para alertar a população e despertar consciências.


BAD FAITH: WHEN RELIGIOUS BELIEF UNDERMINES MODERN MEDICINE: Basic Books | 272 páginas | US$ 18,99 (Kindle); US$ 20,96 (impresso) ou US$ 23,27 (audiolivro)

*Resenha publicada na edição 30 da revista Diagnóstico.

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