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21/05/12
“Vivemos um processo de transformação com foco no paciente”
Presidente da Planetree, organização especializada na humanização de unidades médico-hospitalares, Susan Frampton falou à Diagnóstico
Aline Cruz

Doutora em Antropologia Médica pela Universidade de Connecticut, nos EUA, a americana Susan Frampton é a atual presidente da Planetree – organização sem fins lucrativos especializada na humanização de unidades médico-hospitalares. Fundada em 1978, a instituição possui cerca de 500 membros e já certificou com a designação “patient-centered-care” 28 hospitais e centros médicos na Europa, EUA e América Latina, a exemplo do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. “Há uma atenção especial às necessidades dos pacientes nos hospitais brasileiros, que estão se tornando muito eficazes no que diz respeito à criação de ambientes que contribuem para a cura”, avalia Susan. A Planetree foi inspirada na experiência de sua fundadora, a também americana Angelica Thieriot, que após um longo período de internação, percebeu como os hospitais americanos estavam deficientes do ponto de vista do acolhimento e investimento em relações humanas. “A reforma em curso no sistema de saúde americano, vinda da própria crise do modelo, deve encorajar também os hospitais a se tornarem mais focados no paciente”, prevê a executiva, que preside a instituição desde 2003 – Angelica Thieriot passou a ser membro honorária da instituição em 1998. Da sede da Planetree, no estado de Connecticut, Susan falou à Diagnóstico.

 

Diagnóstico – O que mudou nas instituições americanas desde a experiência de Angelica Thieriot como paciente?

Susan Frampton – Acredito que houve um número significativo de mudanças que a experiência dela ajudou a construir. Na época, Angelica pôde perceber, como paciente, as mazelas do sistema de saúde americano do ponto das relações humanas. Os hospitais eram instituições frias, com muitas regras sobre o que talvez fosse conveniente para a equipe da instituição, mas não ajudavam a curar o paciente. De lá para cá houve avanços significativos. E uma das mudanças mais visíveis se deu na estrutura dos hospitais. As instituições construídas hoje são espaços muito mais convidativos e confortáveis do que eram há 30 anos. Não por acaso, o conceito que Angelica tinha de um ambiente realmente “curativo” era o de um local que faz o paciente sentir-se bem só por estar lá – e isso vai desde uma mobília confortável até a iluminação, passando pelo contato com a natureza. Um maior envolvimento da família no processo de cura – antes visto com pouca relevância – é outro ponto que devemos destacar. Acreditamos que a fundação da Planetree teve uma contribuição importante em todos esses avanços.

 

Diagnóstico – Quais eram as restrições mais comuns nos hospitais americanos?

Susan – As equipes acreditavam que os pacientes deveriam estar em um ambiente totalmente controlado, livre de qualquer ameaça de fora, de bactérias que poderiam vir das visitas, por exemplo. Para eles, a família era uma ameaça em potencial. A própria estrutura do hospital não era construída para comportar visitantes. Isso se justificava pela cultura de que, quando um paciente está no hospital, ele está no espaço do médico, que deve controlar tudo, incluindo quem entra e quem sai. Mas isso, felizmente, mudou.

 

Diagnóstico – Qual o perfil de uma instituição com a designação “patient- centered-care”?

Susan – Um exemplo de critério para quem busca a designação é o acesso aberto à informação. Isso significa que o paciente deve conhecer as informações sobre seu tratamento enquanto estiver sendo tratado. Assim, a postura do hospital não será a de “isto é o que faremos com você”, mas “vamos buscar a melhor maneira de realizar o tratamento, para que a nossa perspectiva e seus direitos como indivíduo sejam respeitados”. A instituição deve envolver também um responsável da família no planejamento do tratamento. E no que diz respeito à família, o envolvimento precisa ir além. A enfermaria deve trabalhar em conjunto com os familiares, para que seja possível saber coisas como a melhor maneira de tornar o quarto agradável para o paciente, por exemplo. Outra importante questão é criar um espaço que também atenda às necessidades espirituais do paciente.

 

Diagnóstico – Como a questão religiosas deve ser tratada?

Susan  – O importante é que esse espaço seja o mais democrático possível e atenda às mais diversas religiões. Nossa sugestão é que os hospitais possam ter uma capela sem denominação, com representantes não apenas da igreja católica, mas de outras religiões. É preciso prever também o acolhimento de pacientes que podem não ser religiosos, mas possuem necessidades espirituais, e isso precisa também ser respeitado.

 

Diagnóstico – A morte também precisa ser “tratada” dentro do hospital?

Susan  – Nossa crença básica é que o hospital deve criar um ambiente onde o paciente e sua família possam estar confortáveis, porque aquele é o último espaço onde a pessoa estará. Então, é preciso se assegurar de que o paciente com uma doença terminal tenha suas necessidades atendidas, mesmo as especiais, como uma comida diferente, ou se ele deseja ver todos os membros de sua família, seus animais de estimação ou ouvir algum tipo de música.

 

Diagnóstico – A permissão de animais no hospital – uma prática estimulada pela Planetre –  é criticada por médicos brasileiros, por entenderem que iniciativas deste tipo podem trazer riscos à rotina de um hospital. Pode comentar?

Susan – Existem, sim, diversas críticas a esse respeito também nos EUA. Em algumas culturas, ter um cachorro no hospital é simplesmente inaceitável. E existem outras nas quais é possível. Tentamos ser sensíveis a essas diferenças e justamente por isso a Planetree não impõe nenhuma regra que possa violar ou ofender a cultura de algum país. Encorajamos os hospitais de diferentes países a avaliarem suas crenças e perguntarem a si mesmos se existem evidências que as comprovem. Por exemplo, encontramos hospitais que já disseram que não era possível haver plantas em suas dependências porque elas poderiam ter germes. Então, questionamos a instituição sobre a existência de alguma pesquisa que valide o argumento, porque, para nós, é importante a comprovação científica dessas ideias. Outra crítica que já foi colocada é que, dependendo do nível de envolvimento da família, isso pode prejudicar o tratamento, em vez de ajudar. É um questionamento constante: como balancear as necessidades da família e do paciente com as necessidades da equipe do hospital para que o trabalho seja feito.

 

Diagnóstico – Essas nuances de alguma forma dificultam a difusão dos conceitos de “patient-centered-care” defendidos pela Planetree?

Susan – De alguma forma, sim. Mas o  maior obstáculo, certamente, é o fato de que ainda existem muitos hospitais que estão focados em outras prioridades. Nos EUA, está em curso um grande processo de transformação da atividade médica que coloca o foco no paciente como prioridade. O próprio governo americano vem estimulando essa mudança de postura, após descobrir as vantagens financeiras do investimento em humanização. Prova disso é que, para que um hospital americano consiga reembolso integral dos gastos com o paciente durante o tratamento, a instituição precisa ter atenção também à qualidade do atendimento ao paciente. Percebo que no Brasil esse processo de humanização também está ocorrendo. O governo brasileiro, ainda que de forma incipiente, está exigindo mais dos hospitais. E a contrapartida dos prestadores para que haja um modelo de humanização de atendimento é fundamental sob esse aspecto. 

 

Diagnóstico – A aceitação de uma filosofia humanista é maior ou menor a depender da cultura do país?

Susan – As diferenças culturais entre os países é algo levado em conta nas ações da Planetree, razão pela qual, por exemplo, decidimos transformar a designação em um programa internacional, com representantes de diversos países, como o Brasil. Dessa forma, os 63 critérios previstos na filosofia da Planetree acabam sendo positivamente influenciados pela visão de cada representante. Acreditamos que essa troca de experiências é fundamental para  mudar a linguagem ou as expressões desses critérios e para que pudéssemos ser sensíveis aos diferentes contatos culturais.

 

Diagnóstico – Quais os custos da adequação de um hospital aos critérios da certificação?

Susan – É difícil definir um custo fixo.Depende muito do tamanho da organização e também do que já foi feito para se criar uma cultura do foco no paciente. Dependendo do ponto em que o hospital estiver, é possível ter uma definição mais clara dos custos para uma posterior adequação aos critérios. Em geral, percebemos que a maioria das organizações que partem do zero demora pelo menos três anos para construir uma estrutura organizada de práticas com foco no paciente. Dessa forma, pode haver desembolsos envolvendo treinamento de pessoal ou dos gestores, melhorias de infraestrutura etc. Mesmo assim, essas demandas implicam custos bastante variáveis.

 

Diagnóstico – Os médicos acreditam na filosofia da Planetree?

Susan – Muitos desses profissionais passam a abraçar a nossa filosofia quando percebem os benefícios trazidos ao paciente durante o processo de cura. Mesmo assim, há muito desconhecimento, o que torna necessária a instrução dos médicos sobre os benefícios reais do “patient-centered-care”. Muitas vezes, esses profissionais acham que a filosofia afetará o modo como eles tratam o paciente, algo equivocado. Quando o paciente, por exemplo, passa a ter acesso irrestrito ao prontuário médico – um dos princípios defendidos pela Planetree –, ele passa a estar apto a decidir com mais clareza sobre as alternativas propostas de tratamento, o que, em última instância, acreditamos, é algo bom para o paciente. E, sendo assim, também para o médico.

 

Diagnóstico – Quais os principais problemas encontrados nos hospitais avaliados pela organização?

Susan – Um dos principais desafios é justamente a permissão para o acesso à informação, porque, em muitos hospitais, as informações costumam estar disponíveis apenas para os profissionais de saúde. Reverter isso é uma mudança cultural muito grande. Médicos e enfermeiras muitas vezes não se sentem à vontade com o compartilhamento da informação com o paciente. Acho até  que eles podem ter uma fobia de que os pacientes façam perguntas difíceis. Trata-se, contudo, de um desafio que vem sendo superado.

 

Diagnóstico – O selo influencia para que o hospital receba outras acreditações, como a JCI?

Susan – A JCI é um tipo de acreditação bastante técnica, voltada para a segurança do paciente, enquanto a designação Planetree é focada em humanização. Os dois selos juntos funcionam muito bem. Ambos são extremamente necessários e, com certeza, influenciam de forma positiva um ao outro.

 

Diagnóstico – Como adotar a filosofia Planetree sem onerar a operação de um hospital?

Susan – A Planetree não é um modelo que pode onerar a operação, mas um modo como o hospital usa o dinheiro que já estava direcionado para uma determinada operação. Por exemplo: todo hospital tem um orçamento para investir em formação da equipe. Então, é possível usar esse dinheiro para trabalhar uma formação voltada para a humanização. Em termos de infraestrutura, as instituições podem utilizar o orçamento que já possuem para manter a qualidade de suas instalações e, por exemplo, aumentar o bem-estar do paciente no hospital.

 

Diagnóstico – As crises das economias americana e europeia geraram impacto na busca pela certificação Planetree?

Susan – A reforma no sistema de saúde americano, vinda da própria crise do sistema, tem sido uma boa oportunidade para encorajar os hospitais a se tornarem mais focados no paciente. Isso se aplica à Europa também. Há um desejo da sociedade, das pessoas e dos governos em melhorar a qualidade da saúde, e a humanização dos hospitais é essencial na busca por esse objetivo. A decisão do governo americano de condicionar reembolso de despesas ao foco no paciente reafirma essa tendência. Isso torna a filosofia ainda mais interessante para as empresas.

 

Diagnóstico – Além do Albert Einstein, já existem outros hospitais no Brasil em busca da designação?

Susan – No momento, 40 instituições estão sendo avaliadas. Ainda não podemos revelar quais são, pois o processo de avaliação é feito visualizando os critérios, sem que os avaliadores saibam os nomes das instituições.

 

Diagnóstico – Você já teve alguma experiência como paciente em um hospital?

Susan  –  Sim, quando tive meus dois filhos. Isso foi há muito tempo atrás, mas mais recentemente minha mãe foi hospitalizada. Ela teve um infarto, e eu tive que ver a experiência do paciente da perspectiva da família. Me dei conta de que existiam duas dificuldades na instituição. Uma era a falta de espaço de acomadação para os familiares, e a outra era o acesso precário à informação. Muitas vezes, não entendíamos o que estava acontecendo e quais procedimentos seriam feitos. Não havia uma comunicação eficiente dentro do plano de cuidados do hospital. Essa é uma realidade que ainda persiste nos EUA e que nos mostra que ainda temos um longo caminho a percorrer.

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