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25/07/14
Acadêmica é personalidade mais influente em saúde digital da América Latina
Pesquisadora Magdala Novaes é um exemplo de país que parece dar certo. Não fosse por um detalhe: seu feito é quase uma subversão à política pública de TI em vigor no Brasil
Adalton dos Anjos


Doutora em Bioinformática pela Université D’Aix Marseille II, na França, pernambucana Magdala Novaes coordena o Núcleo de Telessaúde da Universidade Federal de Pernambuco (Nutes-UFPE) (Foto: Ascom/UFPe)

Eleita a personalidade mais influente em saúde digital da América Latina, a pernambucana Magdala Novaes, fundadora e coordenadora do Núcleo de Telessaúde da Universidade Federal de Pernambuco (Nutes-UFPE), precisou vencer muito mais do que os outros nove indicados à láurea concedida pela HealthXL South America Award – prêmio realizado pela HealthXL, uma aceleradora de saúde da IBM Venture Capital. Por conta do seu perfil empreendedor, amplamente reconhecido entre seus pares, ela acabou sendo uma das primeiras profissionais da área de saúde digital do país e, ao longo dos últimos 18 anos, convive diariamente com os desafios e fragilidades das políticas de produção de conhecimento em instituições públicas de saúde. “Há uma descontinuidade das ações em saúde digital porque a política de TI é baseada em práticas de governo e de Estado”, critica a doutora em Bioinformática pela Université D’Aix Marseille II, na França. “É preciso, ao contrário, privilegiar a criação de um planejamento adequado e alinhado entre as três esferas – União, estados e municípios – em detrimento de ações emergenciais”.

Não por acaso, a rotina de dedicação exclusiva à universidade e ao comando do Nutes se tornou aprendizado valioso não apenas em sua carreira, mas em como enfrentar as dificuldades na construção de um modelo de gestão pública para o setor. Um caso exemplar foram os atrasos sucessivos no desenvolvimento da Rede Rhemo – um projeto ambicioso para a colaboração a distância entre unidades públicas de hemoterapia e hematologia. “O contigenciamento ocorreu devido a processos licitatórios e a burocracia existente na gestão de recursos públicos”, lamenta Magdala. “Houve uma licitação cuja espera durou 12 meses”. Em 2012 – dois anos após o previsto –  a equipe do Nutes conseguiu  finalmente completar o ciclo de implantação da rede, com a capacitação da equipe do Sinasan e o desenvolvimento de protocolos. A Rede Rhemo atualmente é composta por 31 salas de videoconferência espalhadas por todos os estados brasileiros – integrantes da hemorrede virtual.  

Outro gargalo sensível na gestão pública da telessaúde brasileira, segundo Magdala, está relacionado à fraca estabilidade e qualificação dos funcionários das unidades de modo geral. “A alta rotatividade resulta em retrabalho e mais gastos com treinamentos e capacitações realizados pelos núcleos de telessaúde”, salienta a pesquisadora. Ao mesmo tempo, há uma carência de profissionais que dominem o uso e a manutenção dos recursos da saúde online, já que grande parte dos especialistas não foi formada neste contexto de inserção da TI. “Um dos maiores obstáculos para o avanço da saúde digital é a resistência de médicos. Temos uma geração com hábitos bem antigos”, reitera o professor Fernando Sales, doutor em cardiologia pela USP e integrante do Nutes-UFPE. 

Celeiro de profissionais – A experiência brasileira em saúde digital, no entanto, se mostra contraditória, já que, diante de todos estes problemas, a Organização Pan-Americana de Saúde reconheceu, em janeiro de 2014, o Programa de Telessaúde Brasil Redes como referência global. O projeto é o maior do mundo em execução e permite serviços como a segunda opinião de médicos e o diagnóstico com a emissão de laudos à distância. A rede também promove a interação entre cerca de 100 hospitais públicos que atuam na formação de profissionais. Somente o núcleo liderado por Magdala já desenvolveu diversas ferramentas colaborativas como o Healthnet, uma plataforma que possibilita aos médicos e enfermeiros discutir casos clínicos, e o PACS, um gerenciador de imagens médicas utilizado para emissão de laudos e implantado com uma plataforma de educação para o curso de medicina. “Temos grandes celeiros de profissionais trabalhando em TI no Brasil, mas ainda falta que estes atores constituam redes”, destaca a coordenadora do Nutes-UFPE, ao criticar a desconexão entre os setores público e privado. A corrida em paralelo entre as iniciativas é reflexo do aparato burocrático, que afasta as empresas interessadas em desenvolver e validar suas tecnologias. A legislação de modo geral não tem efeitos no incentivo sobre a produção e até mesmo na formação de centros tecnológicos que integrem a academia e as empresas, como acontece em outros países. Desta forma, as parcerias com as universidades são tão escassas que colocam os dois setores de lados opostos. 

Os pesquisadores também reclamam do tempo do setor público para que as parcerias sejam reconhecidas e o produto seja disponibilizado no mercado. São meses e dezenas de documentos e contratos solicitados. A Lei nº 8666/93, que regulamenta as normas para contratos e licitações em toda administração pública, passou por vários ajustes recentemente, mas continua afastando as empresas. “A iniciativa privada procura a universidade para executar projetos, mas esbarra nos estraves jurídicos e burocráticos”, reconhece a vice-coordenadora do Nutes-UFPE, Paula Diniz, doutora em neurociência pela USP. Sem citar nomes, a docente lembrou-se de casos em que seus colegas deixaram de ganhar royalties – e a universidade também – porque a burocracia é muito grande. “Ou damos continuidade às atividades acadêmicas, que já são muitas, ou paramos por um ano ou dois para cumprir os requisitos para registro de patentes”.

Este cenário se mostra mais desolador porque a crença na produção de pesquisas pelas universidades já foi maior, na opinião de Magdala. “Isto foi se perdendo por conta dos entraves burocráticos e da falta de segurança para a iniciativa privada”. Outro argumento apontado pela especialista como sintoma de que a solução do problema ainda está distante é o exemplo do Porto Digital, no Recife, que surgiu em 2000, e reúne mais de 200 empresas especializadas no desenvolvimento de TI. O parque tecnológico fortificou o setor, mas não aproveitou o potencial pernambucano no segmento médico-hospitalar – segundo maior polo do Brasil – para ter uma produção em saúde digital suficientemente representativa. Além disso, a UFPE, que teve um papel importante no surgimento do Porto Digital, acabou sendo colocada de escanteio com o decorrer do tempo. “Ao invés de levarmos os incentivos para a criação do empreendedorismo na universidade, tiramos isto de lá”, protesta.

A dissociação também ocorre dentro da área de saúde digital. Sem informações precisas sobre como são utilizados os recursos tecnológicos no setor, não é possível a formação de um planejamento estratégico mais sustentável. Em um tom professoral, a docente, cuja gestão é marcada por regras como a determinação de metas e prazos de cumprimento dos projetos que coordena, explica que nem mesmo as interações interministeriais acontecem de modo efetivo. “Os ministérios da Saúde, da Educação e das Comunicações precisam estar integrados para termos uma boa atuação na ponta”, critica Magdala. “A ausência de um plano em longo prazo influi inclusive na iniciativa privada, que muitas vezes não se considera SUS, mas é SUS”.

Perfil empreendedor – Mesmo com tantos entraves, o Nutes pernambucano continua “ensaiando” várias parcerias. “Temos buscado, na medida do possível, trocar ideias com o setor privado e executar algumas atividades em comum”, conta Paula, que destaca também um movimento dentro da universidade em busca de uma solução mais eficiente para atender à demanda que surge das empresas. Contudo, se alguma posição não for tomada, a detentora do título de personalidade mais influente na América Latina alerta: “Vamos começar a ver o movimento que aconteceu nos EUA. Grandes universidades privadas são protagonistas na questão da pesquisa e desenvolvimento, em detrimento das instituições públicas”.

Com o perfil empreendedor, liderança e atuação ativa – características que deveriam ser praxe no serviço público brasileiro – Magdala se dedica agora a um outro grande desafio: a implantação de um módulo de imagens médicas desenvolvido na UFPE no sistema AGHU – um aplicativo de gestão de informação hospitalar que vai operar em hospitais federais. 

Na opinião de seus pares, o reconhecimento feito pelo HealthXL South America Award, fez jus ao seu empenho de anos de dedicação em prol do avanço da TI na saúde brasileira. “Nossa formação é voltada para a pesquisa e, apesar de todos os entraves, temos sede por novos conhecimentos”, comenta Paula. 

Para o futuro próximo da telemedicina pública no Brasil, Magdala vislumbra uma integração cada vez maior entre tecnologia e saúde, que deve continuar se refletindo na redução de custos e na melhoria do atendimento, sobretudo a partir de soluções em medicina preventiva. “Sou revoltada com esta história de que servidor público não trabalha”, desabafa a pesquisadora. Divorciada,  além das inúmeras atividades acadêmicas, ela ainda encontra tempo para se desdobrar como mãe de Camile, 19 anos, candidata a uma vaga no curso de medicina da UFPE. Pelo visto, a cobrança em casa vai ser grande.

Matéria publicada na revista Diagnóstico n° 25



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