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07/10/13
Artigo: Líderes empresariais podem ensinar médicos a serem mais criativos
Para o cirurgião plástico e professor de negócios de Yale, Robert Pearl, o atual modelo de ensino médico inibe o pensamento alternativo
Robert Pearl

Robert Pearl: "O sistema hierárquico da educação médica garante que as verdades de ontem permaneçam as respostas de amanhã [...]. Os médicos do futuro precisarão de muito mais criatividade" (Ilustração: Editoria de arte / Shutterstock)

A primeira vez que pus os pés no campus da minha faculdade de medicina percebi que teria que deixar a minha criatividade na porta. Para a maioria dos estudantes de medicina e residentes em treinamento hoje, essa experiência permanece inalterada. O objetivo da educação médica é ensinar aos médicos aspirantes “o caminho certo” para prestar cuidados médicos. Para a maioria dos pacientes – e para muitos médicos – há conforto nas respostas definitivas que os médicos são ensinados a oferecer. Mas o mundo está mudando.

A criação do conhecimento está se acelerando, e os problemas de saúde estão se tornando mais complexos. Os médicos do futuro precisarão de um conjunto de habilidades diferentes e de muito mais criatividade. Para entender melhor essas necessidades, vamos comparar a educação médica com a abordagem da escola de negócios. 
Eu tenho o privilégio de ensinar tanto na Faculdade de Medicina quanto na graduação da Escola de Negócios de Stanford. Estas duas academias são muito próximas geograficamente, mas suas culturas são mundos separados. Os estudantes de medicina aprendem por repetição – memorização baseada na repetição. Mas, para os estudantes de negócios, a educação acontece através de estudo de caso, análise e discussão.

Na escola de negócios, histórias sobre uma determinada empresa ou líder forçam os estudantes a analisarem um dilema e oferecerem suas próprias soluções.  A diversidade de pensamento é valorizada, e as retomadas de discussões são comuns. Os alunos apontam para suas próprias experiências prévias e o seu conhecimento como base para as suas reivindicações. Eles são desafiados por colegas a defender suas soluções – e raramente há apenas uma solução certa.
A disciplina que eu ensino na escola de negócios, Liderando a Mudança Estratégica no Setor de Saúde, incentiva os alunos a pensar grande e sem limites. Gasto o mínimo de tempo apresentando aos alunos “os fatos” – eles podem ler sobre isso em seu próprio ritmo. Assim, mutualmente meus alunos incentivam uns aos outros a desenvolver novas ideias que poderiam transformar o setor de saúde.

Estudantes de negócios entendem que o caminho empresarial é inteiramente baseado no mérito. Só o conhecimento, trabalho e criatividade importam. O fracasso é aceito e até acolhido. As histórias heroicas são muitas vezes sobre as pessoas que fundaram várias startups que faliram antes de criar um sucesso. É assim que empresas que mudaram a indústria, como a Nike, a Sun Microsystems e a StubHubwere se formaram. A escola de medicina não poderia ser mais diferente. O processo de aprendizagem durante os primeiros dois anos envolve predominantemente memorização. Um dia, os estudantes memorizam os ossos do pulso. No dia seguinte, eles memorizam as etapas do ciclo de Krebs – série de reações químicas que ocorrem na vida da célula e seu metabolismo. Há uma razão sólida para isto. Os estudantes de medicina precisam desta informação para oferecer o melhor atendimento aos pacientes. Ninguém se sentiria confortável com um cirurgião iniciante que decidisse empregar uma nova, “criativa” abordagem cirúrgica que não tinha sido testada. Mas o foco singular deste modelo de instrução inibe o pensamento alternativo. E o sistema hierárquico da educação médica garante que as verdades de ontem permaneçam as respostas de amanhã. O fracasso não é tolerado, a criatividade é desencorajada, e os médicos aspirantes são ensinados a se proteger aceitando a sabedoria transmitida pelos seus professores. Os estudantes de medicina sabem que não podem dar errado se aderirem a “padrões da comunidade”.

“Pensar fora da caixa” – O processo pelo qual os professores ensinam a medicina sufoca a criatividade. Mesmo décadas depois de sua graduação, os médicos continuam influenciados tanto pela sua instituição como pelos avanços na sua especialidade. Pior ainda, este processo sufoca o espírito inovador necessário para transformar a saúde. Não é de admirar que poucos médicos estejam confortáveis em “pensar fora da caixa”.
Ainda que os médicos sejam as melhores pessoas para liderar mudanças na área da saúde, poucos estão na vanguarda das transformações mais influentes na prestação de assistência médica. Até agora, essas mudanças foram impulsionadas pela tecnologia moderna e lideradas por contribuintes do lado de fora olhando para dentro da medicina.

Empresas de prontuários eletrônicos dos pacientes (PEP) como a Epic e Athenahealth têm transformado a maneira como as instalações médicas operam. A Vocera, fornecedora de um sistema de comunicação mãos-livres, redefiniu a forma como milhares de enfermeiros trabalham. A HealthTap está virtualizando cuidados com uma plataforma online que permite que os pacientes façam perguntas aos médicos licenciados. 

Essas empresas foram fundadas por pessoas com formação em ciência da computação, matemática aplicada e negócios. A importância destas inovações não pode ser minimizada. Mas se o processo de inovação médica é estruturado e liderado principalmente por quem nunca praticou a medicina clínica, suas soluções não vão resolver completamente as necessidades de pacientes e médicos. E, por isso mesmo, essas respostas nunca serão eficientemente adotadas. Os médicos são uma parte crítica da equação. Se os médicos simplesmente servem como consultores ou reatores para inovações propostas, o processo de mudança irá falhar.

Precisamos repensar a educação médica e se queremos médicos que descubram e criem a próxima geração de soluções. E não vai ser uma escolha “ou/ou”. Ambos, médicos e líderes empresariais, devem trabalhar juntos. Educadores médicos precisam reter o que é necessário no currículo de hoje, enquanto promovem abordagens criativas e incentivam os alunos a desafiarem o status quo. Até que isso aconteça, as melhores soluções permanecerão ocultas e a saúde de diversas nações irá sofrer.

*Robert Pearl é médico formado pela Escola de Medicina da Universidade de Yale, com residência em cirurgia plástica e reconstrutiva na Universidade de Stanford, onde ensina estratégia, liderança e tecnologia. É colunista da revista Forbes.

**Artigo publicado na revista Diagnóstico, n° 22.



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