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13/02/12
Auditores ganham preferência para cargos-chave no mercado de saúde
Para Aderval Gomes, da Perfil Gestão Empresarial, profissionais têm habilidades como liderança qualificada e foco na rentabilidade
Mara Rocha

Procura-se administrador especialista em finanças para liderar empresa da área de saúde. Um colaborador de perfil forte, controlador de custos, focado em resultados, que tenha conhecimento do negócio, visão crítica, facilidade com números e seja muito comunicativo. Este anúncio poderia aparecer estampado nos classificados dos jornais de qualquer região do Brasil. Em um período em que o mercado da saúde se mostra sempre mais competitivo, as organizações do setor buscam a profissionalização, atribuindo o comando de seus negócios a auditores e profissionais do mercado financeiro. Nos últimos dez anos, essa procura triplicou.

 

O aumento da demanda por colaboradores provenientes da área de finanças e auditoria é uma tendência no mercado da saúde iniciada há uma década, mas que começa a crescer significativamente e a se consolidar de fato agora, principalmente nos últimos três anos. Para analistas, esse fenômeno se deve fundamentalmente à expansão das organizações do setor, seja pela verticalização – aquisição de hospitais pelas operadoras, por exemplo –, seja pela horizontalização dentro da mesma área – como laboratórios que passam a incorporar serviços de diagnóstico por imagem e vice-versa, ou hospitais que criam redes. Além, é claro, do próprio crescimento orgânico do negócio, que torna a gestão mais complexa, com novas pressões de custo e regulação. “O diretor médico nem sempre tem essa noção”, avalia o sócio e diretor da Perfil Gestão Empresarial e correspondente da PricewaterhouseCoopers, de Salvador, Aderval Gomes.

 

E é exatamente nesse contexto que ganha relevância o gestor com experiência em auditoria e finanças. “São profissionais que possuem qualidades que permitem liderar a organização, principalmente em cargos de planejamento, monitorização e avaliação dos serviços, focando no aspecto da rentabilidade”, descreve Gomes.

 

Casos como o do diretor e superintendente do Meddi, grupo baiano na área de diagnóstico por imagem, Haroldo Neri. Cerca de três anos antes de assumir o cargo na organização com 18 unidades distribuídas pela Bahia e que em 2011 faturou R$ 80 milhões, o executivo foi auditor e consultor da Deloitte. A experiência pregressa lhe rendeu um convite para integrar o alto escalão da companhia de saúde, justamente no momento em que o grupo despertou para a necessidade do controle de custos de suas empresas. Operação que já colheu os primeiros frutos: no primeiro trimestre de gestão iniciada no último mês de setembro, Neri reduziu em R$ 300 mil os gastos da organização, através de pequenas ações, como revisão das tarifas de energia e dos contratos com os fornecedores, e já prevê para 2012 a economia de mais 14%. O executivo acredita que a sua vivência em empresas de outros setores da economia lhe proporcionou uma visão mais ampla e aberta do funcionamento da organização. “Quem chega de fora vê muita coisa que quem está dentro não vê”, argumenta.

 

20 anos de delay Há oito anos, o Monte Tabor, um dos maiores do Nordeste, com faturamento de R$ 400 milhões e controlador do Hospital São Rafael, na Bahia, optou pela contratação de auditores em seus quadros de gestão. O objetivo era aperfeiçoar os sistemas de controle e profissionalizar a governança corporativa. “Na indústria e no setor bancário, cargos de alto comando sempre foram ocupados por ex-auditores independentes”, salienta Sigevaldo Santana, diretor de controle e expansão do Monte Tabor e ex-Arthur Andersen. “Na saúde, esse movimento chegou com um delay de aproximadamente 20 anos”. Segundo o executivo, a inclusão de profissionais especializados em finanças dentro da estrutura do hospital – os últimos deles contratados recentemente para as áreas de controller e auditoria interna –, vem contribuindo para reduzir as perdas da instituição, otimizar custos e garantir o equilíbrio econômico-financeiro da operação.

 

“O hospitais estão mudando o foco de concentração – antes bastante restrito à parte técnica da prestação dos serviços médicos – e investindo nos aspectos empresariais do negócio, como planejamento, controle e gestão do negócio”, avalia o auditor da Performance Auditoria, José Renato Mendonça. “Mas muito ainda precisa ser feito”. Só para efeito comparativo, as empresas americanas do setor de saúde já contratavam auditores para postos de comando pelo menos duas décadas antes do Brasil. “No mercado brasileiro, há ainda muito a visão retrógrada do ‘dono’, em que as pessoas crescem com aquelas que estão à volta e não com aquelas que de fato deveriam subir”, lamenta Enrico Vettori, sócio da área de Life Science e Healthcare da Deloitte.

 

Diante de um cenário de mudanças, ainda que incipientes, nos últimos quatros anos muitas empresas perderam seus auditores para a concorrência, disposta a pagar preço de ouro por novos talentos – as remunerações chegam a R$ 30 mil no setor da saúde. A  própria Deloitte Brasil, que em 2010 contratou cerca de 15 auditores por mês, sofre grandes ataques do mercado. Isso vem impondo a consultoria um esforço maior para a retenção de talentos. “Se não for demonstrado um plano de carreira e oportunidade de crescimento na organização, sem dúvida esses especialistas abandonam a companhia”, admite Vettori.

 

Adaptação Na outra ponta desse processo está a natural adaptação pela qual esses profissionais precisam passar para estar à frente de um negócio com as especificidades do setor de saúde. “Quando se é oriundo de um setor como o bancário, é muito natural encarar o novo desafio com a mesma ‘agressividade’”, avalia o gerente sênior de negócios do Fleury – regional Nordeste, Antônio Carlos Borba, ex-Citibank. “Você acaba descobrindo que é preciso lidar com um outro drive”. Há oito anos na operação, ele explica que sua visão por controle de custos e rentabilidade – uma verdadeira obsessão do setor financeiro – precisou se adaptar à rotina dos diversos stakeholders envolvidos no negócio saúde. “Humanização e acolhimento são itens com pouca relevância na relação entre banco e cliente. Na saúde, ao contrário, são prerrogativas obrigatórias”, exemplifica.  Mesmo assim, acredita o executivo, que teve a incumbência de focar a gestão por indicadores do Fleury no Nordeste, a chegada desses novos profissionais é fundamental na profissionalização do setor.

 

Há dois anos gerente financeiro do Hospital Espanhol, instituição baiana que em 2011 registrou um crescimento real de aproximadamente 5%, Cláudio Imperial é categórico quanto ao atual estágio de profissionalização do mercado da saúde. “O setor tem avançado em doses homeopáticas”, sentencia o administrador. Especialista em planejamento tributário e fiscal, ele critica as empresas que ainda não despertaram para a importância do capital circulante e do conhecimento profundo de seus custos. “Ainda existem Santas Casas administradas por freiras, com uma administração mais voltada para o assistencialismo”, desaprova. “É preciso saber medir para cobrar, e isso vale para qualquer empresa, filantrópica ou não”.



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