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15/09/14
Don Sinko: ser o hospital mais ético não nos torna infalíveis
Em entrevista à Diagnóstico, executivo da Cleveland Clinic, segundo maior grupo de prática médica do mundo, explica como o hospital se tornou referência mundial em ética
Da redação


Don Sinko, executivo de compliance da Cleveland Clinic: obesos e fumantes não podem trabalhar na organização (Foto: Divulgação)

A Clínica Cleveland, segundo maior grupo de prática médica do mundo, com receita anual de R$ 6,5 bilhões, cresceu à sombra de um ícone americano na área de saúde, a famosa Clínica Mayo – considerada por muitos o maior exemplo de benchmarking no segmento médico hospitalar do planeta. Fundada em 1921, por um grupo de médicos de Ohio – região nordeste dos EUA –, a organização possui, contudo, um título que a Mayo não tem: ser considerado pelo segundo ano consecutivo o hospital mais ético do mundo. Concebido anualmente pela respeitada revista americana Ethisphere, o ranking inclui participantes de todos os continentes – no Brasil, Natura e Banco do Brasil foram os últimos vencedores –, em diversas categorias. “A preservação da reputação da instituição é, para nós, algo muito importante”, sentencia o americano Don Sinko, Chief Integrity Officer da organização. “Não somos infalíveis. Mesmo assim, procuramos pautar nossa rotina de maneira correta, tratando bem nossos funcionários e servindo à comunidade”. As práticas de gestão, baseadas em controle, auditorias e condutas moral e ética do grupo hospitalar seguem uma rotina de tolerância zero. Para ser fornecedor da instituição, que está prestes a abrir sua primeira filial fora da América do Norte, em Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos), é preciso, além de todas as certificações legais, ser obrigatoriamente uma empresa com estrutura de compliance estabelecida. Além disso, é obrigatório fazer um curso para se adequar à filosofia e os preceitos éticos da Cleveland. Candidatos a uma vaga na instituição não podem ser nem fumantes, nem obesos. “Queremos praticar o que pregamos. Todos sabem que o fumo é uma das piores escolhas que o indivíduo pode fazer para a saúde. E a obesidade já é considerada uma doença endêmica em muitas nações”, resume Sinko, que se orgulha de manter na instituição um site aberto ao público com todas as informações sobre a relação de seus médicos com a indústria farmacêutica. “A intenção desta política é garantir que a primeira preocupação dos médicos seja promover o melhor para seus pacientes”, justifica o executivo. “Se essas relações partem sempre da primazia da transparência, não há o que esconder”. De Ohio, Sinko  que estará no Brasil, nos dias 5 e 6 de novembro, durante o fórum Hospitais Compliance 2015   concedeu a seguinte entrevista à Diagnóstico.  
  
Revista Diagnóstico – Por que a Cleveland Clinic venceu pelo segundo ano seguido o prêmio Ethisphere’s World’s Most Ethical Companies?
Don Sinko – Os critérios da Ethisphere focam na ética dos negócios, apoio à comunidade e sustentabilidade – três áreas em que a Cleveland Clinic leva a sério, aplicando o tone at the top. Nosso compromisso estratégico é apoiar a comunidade, reduzir gastos e o uso de energia e fazer negociações de modo correto, seguindo todas as normas e regulações federais, estaduais e locais. A preservação da reputação da instituição é, para nós, algo muito importante. Procuramos pautar nossa rotina de maneira correta, tratando bem nossos funcionários e servindo à comunidade. Em 2012, a Cleveland Clinic se beneficiou com US$ 754,2 milhões – incluindo US$ 154,6 milhões em assistências financeiras –, a partir de doações. Na área de sustentabilidade, a Cleveland Clinic foi reconhecida pela U.S. Environmental Protection Agency (EPA) como a vencedora do prêmio Energy  Star Partner of the Year – Sustained Excellence Award [mais importante premiação na área de sustentabilidade nos EUA]. Fomos, ainda, uma das únicas organizações de saúde a serem reconhecidas pelo relatório de sustentabilidade do Global Reporting Initiative.

Diagnóstico – Qual era a realidade da Cleveland Clinic antes de adotar uma estrutura de compliance em sua cultura organizacional?
Sinko – Sempre fomos uma organização compliance, mas o departamento foi formado no final dos anos 1990, como uma forma de adicionar consistência e providenciar a documentação para os nossos esforços na área de ética. Dez anos atrás, o setor de compliance foi unido ao departamento interno de auditoria, que o elevou para o C-suite, com a coordenação do Chief Integrity Officer. Com a mudança, que é incomum no setor de saúde, a Cleveland Clinic confirmou que a tomada de decisão ética é uma prioridade real. Também é importante notar que como um executivo desta categoria, reporto-me diretamente aos diretores da Cleveland Clinic e não aos administradores seniores, que ficam sob minha tutela.  Isto não apenas dá mais força e credibilidade ao setor de compliance, mas também garante que ele opere de forma independente. As pessoas da organização sabem disso e demonstram respeito.

Diagnóstico – De que forma ser membro fundador da Northeast Ohio Business Ethics Coalition (NEOBEC) – coalização de mais de 900 instituições de Ohio, cuja missão é educar e prevenir ações corruptas – influenciou a Cleveland a se tornar referência em compliance?
Sinko – A formação do Neobec veio em um momento em que nosso governo estava no meio de um grande escândalo de corrupção no setor público. O convite para integrar a entidade partiu do ministério público local, que apoiou a escolha pelo tamanho da nosso organização, escopo de atuação e, principalmente, em nossos padrões de compliance estabelecidos. Para nós, a iniciativa foi vista como uma deferência. Afinal, os requisitos para se tornar membro da Neobec são claros, concisos e encorajam as empresas a adotar o lema “negócio bom é negócio honesto”, ao mesmo tempo em que as estimulam a rejeitar a corrupção e condutas antiéticas nos negócios. É obrigatório ainda, por parte de seus associados, o compromisso contínuo  em criar um tone at the top do fazer ético como uma prioridade. Estabelecer padrões escritos para os seus empregados e parceiros comerciais, documentar incentivos e disciplina, promover uma estrutura de relatoria justa e fluida – além de agendar programas de treinamento contínuos – são outras prerrogativas obrigatórias de quem integra a Neobec. Em resumo, seus associados precisam se pautar, sempre, em fazer a coisa certa.

Diagnóstico – A lista de empresas de saúde que fazem parte da Neobec poderia ser maior?
Sinko – O setor de saúde apresenta considerações éticas especiais. Nossos “clientes”, por exemplo, são nossos pacientes, que estão depositando confiança em nós com algo da maior importância, suas vidas. Em tais circunstâncias, o compromisso com a ética é primordial. O mercado de saúde nos EUA vem avançando na propagação dos preceitos éticos em suas organizações. Prova disso é que o Neobec já possui muitos hospitais e companhias do setor de saúde em seu quadro, incluindo os maiores sistemas hospitalares de Ohio, departamentos de saúde governamentais, além de operadoras de saúde e demais prestadores de saúde.

Diagnóstico – Que papel cabe ao corpo clínico para fazer um hospital atingir um nível de excelência em ética? 
Sinko – A Cleveland Clinic é organizada como um modelo de prática de grupo, ou seja, os médicos são assalariados, trabalham sob contratos que são revistos anualmente. Em nosso hospital, os profissionais não são pagos com base no número de cirurgias que eles realizam ou testes que solicitam. Não há, portanto, interferência dessa rotina em seus ganhos. Eles fazem o que é o melhor para o paciente, não o que é melhor para suas contas bancárias. Do ponto de vista de compliance, se não existe influência monetária nas atitudes, é mais fácil tomar as decisões corretas e éticas.

*Leia a entrevista completa na edição 26 da revista Diagnóstico.




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