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26/08/13
Entrevista: Para coordenador do Insper, ainda estamos longe de Harvard
Responsável pelo curso de MBA em saúde do Instituto, Silvio Laban, fala sobre os planos de replicar nas escolas de negócios do Brasil o modelo de Harvard e Yale
Gilson Jorge


Silvio Laban, do insper: instituto tem como padrinhos os empresários Jorge Lemann, Marcel Herrmann e Carlos Alberto Sicupira, do 3G Capital (Foto: Divulgação/Insper)

As salas de aula em forma de anfiteatro e a biblioteca com uma profusão de títulos estrangeiros meticulosamente organizados, além do prestígio de seus professores – quase todos com formação no exterior –, sugerem ao visitante mais atento que o Insper foi mesmo buscar nos Estados Unidos o padrão de ensino que tornou o país a meca das escolas de negócios em todo o mundo. No caso mais específico da instituição paulistana – antigo Ibmec –, a fonte de inspiração tem nome e sobrenome: Harvard Business School. A semelhança é mais evidente ainda quando o assunto é o custo para ter impresso no currículo as seis letras do Instituto de Ensino e Pesquisa, que tem como padrinhos os empresários Jorge Lemann, Marcel Herrmann e Carlos Alberto da Viga Sicupira, além do também ex-Banco Garantia Claudio Haddad – atualmente presidente da instituição. Mesmo sem fins lucrativos, um MBA em Gestão beira os US$ 20 mil. Desde 2004, o Insper oferece ao mercado o curso de MBA Executivo, Finanças e Gestão em Saúde, em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein. “Ainda precisamos evoluir para chegar ao nível de instituições como Yale ou Harvard, que são centenárias”, reconhece o engenheiro naval Silvio Laban, coordenador do curso, que disponibiliza todos os anos um total de 50 vagas. “Há um longo caminho a ser percorrido”, complementa  o acadêmico, que entre um compromisso e outro em sua rotina no Insper – localizado em um imponente edifício na Vila Olímpia, região nobre de São Paulo – falou à Diagnóstico.

Diagnóstico – O IHF 2013, que acaba de ser realizado em Oslo (Noruega), teve como principal consenso a certeza de que a saúde enfrenta em todo o mundo três desafios: acesso, qualidade e custo. Que papel caberá aos futuros gestores diante deste cenário?
Silvio Laban – O papel do gestor é levar as organizações a navegar nesse contexto, principalmente quando você pensa na questão de acesso à inovação tecnológica, aos avanços médicos, à medicina diagnóstica, preventiva e mesmo curativa. Há uma população cada vez maior e a questão é como aumentar o acesso para que os avanços não fiquem restritos a grupos, por questões geográficas ou de desenvolvimento econômico. A qualidade hoje é um fator importante para minorar impactos a longo prazo. A população está mais longeva, e algumas situações de caráter crônico acabam prevalecendo. É importante lidar com os custos disso de forma balanceada para que as empresas sobrevivam. O papel do gestor é fazer a navegação nesse cenário, entender as demandas dos pacientes. 

Diagnóstico – Muitos dos executivos da sua geração fizeram carreira acadêmica no exterior, antes de se tornarem expoentes em suas respectivas áreas de atuação. Essa tendência ainda perdura?
Laban – É uma questão de entender onde estão os grandes centros para cada tipo de especialidade médica. Nada impediria que o Brasil fosse um centro na área de mobilidade, por exemplo. Tem o trabalho do Nicolélis (o neurocientista Miguel Nicolélis implantou um centro de pesquisa em mobilidade na Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Mas normalmente os pesquisadores vão buscar experiências fora de seu país de origem. Hoje não há como fazer um treinamento para operação de robôs cirúrgicos fora dos Estados Unidos ou de alguns países da Europa. Quem quiser se especializar vai ter que sair mesmo.

Diagnóstico – O que falta para as grandes escolas de negócios no Brasil adquirirem prestígio internacional?
Laban – O Insper e a Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), da FGV, são escolas que têm credenciamentos internacionais. Então, se credenciamento internacional é uma prova de prestígio no exterior, efetivamente a gente está nessa direção. Mas quando você compara com algumas escolas internacionais, é preciso lembrar que elas são centenárias. Um outro efeito um pouco mais complicado é a barreira linguística. Os grandes jornais de divulgação de pesquisa acadêmica são normalmente escritos em língua inglesa. O Insper, a EAESP e a Fundação Dom Cabral (FDC) são escolas de negócios de primeira de linha, que, por meio de suas parcerias, corpo docente e pesquisas, têm conseguido prestígio internacional. Agora, até esse prestígio evoluir e chegar ao nível de instituições como Yale ou Harvard, há um longo caminho a ser percorrido. Estamos fazendo uma comparação de escolas centenárias. A idade das nossas é medida em décadas

Diagnóstico – O nível de interesse por cursos de gestão nunca foi tão grande no país – assim como a abertura de escolas para atender a essa demanda. Já é possível medir os impactos desse fenômeno no desempenho dos hospitais e serviços de saúde no Brasil?
Laban – Para isso acontecer de fato é preciso aumentar muito a massa crítica dos gestores. Temos um programa de formação que está em sua décima edição, com 60 alunos em cada turma. Estamos impactando, portanto, 600 indivíduos que podem ser gestores. Apesar de entendermos que isso está sendo acelerado, ainda há muito espaço pela frente. Mas se percebe nitidamente um interesse maior dos alunos em busca de informação e conhecimento para fazer as suas práticas assistenciais mais bem sucedidas.
 
Diagnóstico – O senhor ainda acredita ser possível implementar a meritocracia na gestão da saúde pública no país? Como?
Laban – A questão de implementar a meritocracia no setor público não é apenas um objetivo da área médica. Isso se aplica a qualquer área da gestão pública. Nesse sentido, é importante entender os desafios. O problema aqui é a discussão sobre o que e como se vai medir a meritocracia no setor público. E a gestão de saúde vai seguir na mesma direção. O problema é que, quando se fala em mérito, como se vai avaliar o que é uma boa gestão? A que mata mais, mata menos, tem taxa de fatalidade maior ou menor? Qual o critério que vai ser utilizado? Acho que é um longo processo a ser percorrido e que possui muitas variáveis, como a forma de se pensar a coisa pública – uma questão que está um pouco longe da nossa realidade no momento. 

Diagnóstico – Por que os hospitais estão contratando cada vez mais gestores com passagem pelo mercado financeiro para compor seus quadros?
Laban – Porque é um cara que entende de números, em princípio há um paradigma de que os médicos não podem olhar os números porque a assistência não pode depender disso. O profissional de finanças é uma pessoa que tem noções mais claras de custos, questiona determinados procedimentos, vê se os recursos estão sendo alocados da melhor forma possível. Muitas empresas preferem uma ênfase maior em finanças. Não é um processo exclusivo dos hospitais, mas chama mais a atenção porque é uma mudança mais substancial em relação ao caminho que se seguia antes.

Diagnóstico – Qual o perfil acadêmico dos candidatos a pós-graduação no Insper?
Laban – Sessenta por cento do nosso público é feminino.  A maioria é formada por médicos que já assumiram a administração nas suas organizações, mas ainda não têm uma formação acadêmica na área de negócios. Depois, vêm profissionais de enfermagem e do resto do sistema de saúde, gente de laboratórios, equipamentos, administração e da própria indústria farmacêutica. 

Diagnóstico – O MBA ainda é visto como uma forma de conseguir melhores salários no mercado de trabalho. É uma boa aposta?
Laban – Qualquer programa de pós-graduação está associado, além, obviamente, do conhecimento adquirido, à aplicação que o indivíduo vai fazer disso em seu desenvolvimento profissional. Não por acaso, é natural que o reconhecimento de um bom programa de pós-graduação venha através de uma melhor remuneração. O último Censo Demográfico do IBGE, datado de 2010, só comprovou a correlação entre anos de estudo e aumento da renda do brasileiro. 

Diagnóstico – Por que os programas de trainees no mercado de saúde ainda são tão incipientes?
Laban – Depende de qual pedaço do sistema de saúde a gente está olhando. Quando a gente pensa em seguradoras, bancos, fontes pagadoras, grandes laboratórios e a indústria de equipamentos, todas elas mantêm programas de trainee. Já nas empresas de saúde propriamente ditas, o foco maior continua sendo desenvolver a atividade-fim, que é a assistência. Mesmo assim, já há avanços, como o próprio Albert Einstein, que ocupa parte das vagas do programa para os próprios profissionais da instituição, através da oferta de bolsas. Nesse caso, incluem-se não apenas médicos, mas também enfermeiros e funcionários dos setores administrativos.

Entrevista publicada na revista Diagnóstico nº 21.



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