home notícias Gestão
Voltar Voltar
18/03/13
A metáfora da montanha: desastre serve de aprendizado no mundo dos negócios
Nando Parrado, uruguaio conhecido como o herói da tragédia dos Andes, ensina empresários a superar seus limites 40 anos após o episódio
Gilson Jorge

(Foto: Divulgação)
Parrado e outros 16 sobreviventes tiveram que comer carne humana para continuar vivos: 60 quilômetros caminhando na neve em busca de ajuda (Foto: Divulgação)

Se gestores e empresários dizem que ser proativo é fundamental para obter sucesso na vida, no caso de Fernando Parrado, ter iniciativa foi efetivamente uma questão de continuar vivo. Herói no famoso desastre aéreo do voo 571, que bateu na Cordilheira dos Andes, em outubro de 1972, Parrado viu de perto a morte gradual de 29 passageiros e tripulantes do voo que iria do Uruguai ao Chile, incluindo sua mãe e a sua irmã, de 17 anos. O grupo, composto por atletas do Old Christians Club, de Montevidéu, e seus familiares, ia participar de um torneio de rugby em Santiago. Parrado e os outros sobreviventes da tragédia – que acaba de completar 40 anos – permaneceram por 72 dias à espera de socorro em uma montanha a 3,5 km de altura, sob temperaturas que oscilavam entre -25ºC e -42ºC. Não havia roupa adequada para enfrentar o frio ou provisão de alimentos, o que obrigou os sobreviventes a ingerir carne humana para continuar vivos. 

Quando a fuselagem do Fokker  F277 da Força Aérea Uruguaia estacionou sobre a neve minutos depois que uma das asas se chocou contra o pico de uma montanha, 12 pessoas já estavam sem vida – havia 40 passageiros a bordo e cinco tripulantes. Nando, como é conhecido, também havia sido dado como morto pelos companheiros, devido à sua imobilidade e à aparente gravidade dos ferimentos em seu rosto. Três dias após o acidente, contudo, ele assombraria o grupo pela primeira vez naquela épica aventura ao se mover e abrir os olhos. Era o começo de uma história que, quatro décadas depois, ainda desperta interesse em todo o mundo.

Poucos minutos após ser informado pelos amigos da morte de sua mãe e do estado agonizante de sua irmã, Nando passaria a protagonizar uma série de eventos que seriam determinantes para que o grupo conseguisse o improvável resgate. Parte do que experimentou nos dois meses mais difíceis de sua vida serve agora como inspiração para as concorridas palestras para empresários que Parrado faz mundo afora. “Às vezes é preciso tomar em 12 horas uma decisão que pode mudar o rumo de uma empresa. É algo que não se aprende em Harvard. Nos Andes, sim”, declarou à Diagnóstico o empresário, que, em meados do ano passado, esteve no Brasil para falar a uma plateia de empreendedores.

Responsável direto pela salvação dos sobreviventes, quando resolveu caminhar pelos Andes até encontrar quem pudesse ajudar o grupo, o uruguaio se tornou uma referência mundial em liderança em situações de crise e, há anos, é convidado para motivar funcionários de multinacionais como IBM, Coca-Cola, Dell e Banco do Brasil. 

São pelo menos 12 apresentações por ano, em que normalmente o ex-atleta fala sobre temas como liderança efetiva e trabalho em equipe. Entre os motivos do seu sucesso como palestrante está uma elogiada oratória, que o fez figurar em 2010 como o melhor palestrante do mundo, pelo World Business Forum, de Nova Iorque. Gente que está sempre ávida por conhecer detalhes da trajetória de Parrado. “Eu tenho falado tanto para grupos com 2 mil pessoas quanto para pequenas empresas”, afirma o uruguaio, para quem histórias como a da tragédia dos Andes e o naufrágio do Titanic só fazem aumentar o interesse das pessoas à medida que o tempo passa.
 
Assunto para ilustrar as suas falas não falta. Em 72 dias no inferno gelado, Parrado  viu a sua irmã morrer debilitada em seus braços sem poder socorrê-la, perdeu outros cinco companheiros de viagem que não resistiram aos 34 graus negativos da primeira noite nas montanhas e negociou com os demais sobreviventes os termos de conduta, como a decisão de se alimentar com a carne dos passageiros mortos e a saída em busca de ajuda, da qual seria o grande mentor.

(Foto: Divulgação)
Parte do que restou da fuselagem do fokker se tornou abrigo para os sobreviventes: permanecer ‘seguros’ ou arriscar tudo e buscar ajuda? (Foto: Divulgação)

Cadáveres da mãe e irmã – Ingerir a carne fresca de pessoas com as quais se estava convivendo foi a decisão mais difícil a ser tomada. Com a fome castigando o grupo e sem a menor possibilidade de encontrar algo comestível na aridez das montanhas, os sobreviventes começaram a especular discretamente a possibilidade de praticar a antropofagia, ainda que não houvesse consenso. Até que Parrado anunciou explicitamente a sua intenção de se alimentar com partes do corpo do piloto. Houve alguma relutância e até a defesa do ato com menções à eucaristia, em que católicos se alimentam simbolicamente do corpo de Cristo. Por fim, o instinto de sobrevivência prevaleceu. A etapa seguinte foi improvisar facas com material arrancado da fuselagem para cortar a carne dos mortos e comê-la. Os cadáveres da mãe e da irmã de Nando, entretanto, não foram mutilados. 

A ingestão de proteína animal deu vigor ao grupo para continuar a luta pela vida, mas a natureza ainda se encarregaria de influenciar o destino dos sobreviventes. A situação, que já era desesperadora, ficou ainda mais dramática quando uma avalanche soterrou o grupo, que dormia dentro da fuselagem.  Oito pessoas, de um total de 24, morreram asfixiadas pelo gelo durante esse tempo. Mas curiosamente alguns sobreviventes avaliaram que, sem a avalanche, todos teriam morrido depois, já que os novos cadáveres passaram a garantir mais um mês de suprimentos. 

As esperanças foram perdidas cerca de 60 dias depois da queda do avião, quando, pelo rádio da aeronave – que continuava funcionando, apesar do choque –, as autoridades informaram que as buscas haviam sido encerradas. A apatia tomou conta do grupo. Menos de Parrado, o único que tomou a decisão de buscar ajuda, mesmo que isso significasse uma caminhada pelos Andes sob condições extremas. Com o abrigo da fuselagem e um novo estoque de carne, a maioria optou por permanecer onde estava ao invés de se arriscar em uma caminhada sem destino.

Mas Parrado estava determinado e anunciou o seu plano de enfrentar as montanhas. “Tive a ideia de me mobilizar e lutar pela minha vida. Não precisei de que alguém me dissesse o que fazer. A verdade é que, se eu não tivesse saído, ninguém teria ido. Acredito nisso”, afirmou ele, que, após ter perdido a mãe e a irmã na tragédia, sentia a angústia de informar a seu pai que estava vivo.

Tomada a decisão, Nando recebeu apoio verbal dos companheiros, mas apenas outros dois se dispuseram a segui-lo. Baseado em informações fornecidas pelo piloto aos passageiros durante o voo, o grupo acreditava que o vale chileno estaria à vista do alto da montanha em que estavam. Mas quando os três chegaram ao topo e olharam o horizonte, tudo o que viram foram mais montanhas. Um deles preferiu o “conforto” do grupo ao risco de padecer em meio ao deserto de gelo e voltou para a fuselagem. Mesmo profundamente decepcionado, Nando decidiu seguir. Estava determinado a morrer lutando pela sobrevivência. Ao seu lado, como companheiro, estava Roberto Canessa, que anos depois, em 1994, se tornaria candidato à presidência do Uruguai. “Via que no avião tinha muita gente incentivando a expedição, fazendo Nando pensar em sair de lá. Mas ninguém queria ir com ele”, revelou Canessa no documentário Estou Vivo: Milagre nos Andes, exibido pelo canal History Channel. “Achei uma atitude bem covarde”.

Um outro aspecto fundamental para o resgate foi a coordenação de esforços e o aproveitamento de habilidades individuais de cada sobrevivente. A estratégia,  que incluía rotinas de limpeza e retirada da neve, era garantir a vida de quem estava no acampamento, além de preencher o ócio. Na preparação da expedição que iria buscar ajuda, não foi diferente. Um dos sobreviventes, Carlitos Paez aproveitou as lições de costura na infância e ensinou os seus companheiros a fazer sacos de dormir, que seriam fundamentais para que Parrado e Canessa suportassem o frio das madrugadas andinas durante o trajeto até o Chile. O avião estava localizado no meio da fronteira com a vizinha Argentina.

Foram 10 dias de caminhada enfrentando rochas, atalhos e madrugadas geladas até que, na outra margem de um rio aos pés da cordilheira, os dois avistaram um boiadeiro. Como não era possível atravessar as águas agitadas do rio e não dava para escutá-los desde a outra margem, o pacato camponês voltou na manhã seguinte e arremessou para o outro lado uma pedra com papel e lápis para que aqueles dois jovens com aparência sofrida explicassem porque estavam ali, em meio a montanhas isoladas dos Andes. O socorro chegaria horas depois. “Ninguém acreditou quando falamos que havíamos traçado aquela rota a pé e sem equipamentos”, destaca Nando, que percorreu mais de 60 quilômetros do local do acidente até a beira do rio. 

Ninguém é insubstituível – Falar em público sobre o que aconteceu nos Andes é algo que Parrado faz, em média, uma vez por mês, quando aparece um convite. Na maior parte do tempo, ele precisa aplicar o que prega nas três empresas que preside: a serralheria familiar que herdou do pai, uma agência de publicidade e uma produtora de vídeo, todas em Montevidéu. Como chefe, Parrado acredita que é fundamental delegar responsabilidades à equipe. “Sou muito compassivo e tento fazer com que meus funcionários, mesmo errando, tomem decisões, façam coisas”, afirma. Foi trabalhando dessa forma que um funcionário de Parrado que começou como cinegrafista, há 30 anos, chegou à gerência de sua produtora de vídeo, a MRC. “Não gosto que os funcionários tenham direitos sem ter obrigações”.  

Ao explicar por que acredita na delegação de responsabilidades a quem trabalha em sua equipe, Nando faz uma comparação com as atitudes que precisou tomar nos Andes. “Aqui são decisões empresariais. Não é uma questão de vida ou morte”, defende. Para ele, na hora de decidir é preciso levar em conta três fatores: intuição, coração e informação. Um dos motivos que levam Parrado a defender vigorosamente o compartilhamento de obrigações é a certeza de que ninguém é insubstituível. Algo que também aprendeu com o acidente. “Quando voltei para casa, depois de ter sido considerado morto por mais de dois meses, percebi que todo mundo continuava a fazer o que fazia antes independentemente do fato de eu estar vivo ou não. Isso acontece com todo mundo”, reflete o empresário. “Se morrer o CEO de uma empresa, logo alguém vai assumir em seu lugar.” 

Com a experiência de quem sobreviveu a um desastre aéreo e tem “a bagagem cultural de morar em um país sul-americano”, Parrado sabe que as crises podem ser perfeitamente superadas. “Quando acontece um problema, a primeira providência é tratar de minimizá-lo”, afirma o uruguaio, para quem a convivência com o histórico de crises faz os CEOs sul-americanos serem bastante valorizados por empresas multinacionais. “Quando há uma decisão muito importante a ser tomada, o negócio é não ficar paralisado”. 

Depois de ficar em silêncio por 25 anos após o acidente, inclusive porque os sobreviventes foram acusados por parte da mídia de canibalismo, Parrado decidiu começar a fazer palestras quando um amigo o convidou a ir ao México para falar sobre sua experiência. E novamente foi criticado, dessa vez por seus colegas de voo, com quem, apesar disso, até hoje mantém uma relação de irmãos. “No início, todos me criticaram, mas quando viram o quanto era bom, resolveram fazer o mesmo. Hoje, 12 dão palestras. E a alguns deles eu salvei a vida de novo”, alfineta.

*Perfil publicado na revista Diagnóstico n° 18.



PUBLICIDADE

Mais lidas


    Warning: mysql_num_rows() expects parameter 1 to be resource, boolean given in /home/diagnosticoweb/www/noticia-interna.php on line 309

    Warning: mysql_free_result() expects parameter 1 to be resource, boolean given in /home/diagnosticoweb/www/noticia-interna.php on line 322

Newsletter

Cadastre-se e receba as novidades do Diagnosticoweb em seu e-mail

agenda

facebook

© Copyright 2012, Diagnósticoweb . Todos os direitos reservados.