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09/07/14
A redução dos custos na saúde não é uma guerra perdida
Para a Patrick Figgis, global leader for health industries da PwC, mercados importantes estão alcançando um novo despertar na saúde, com foco em soluções de sustentabilidade, sem sacrificar o acesso e a qualidade do atendimento
Adalton dos Anjos


Patrick Figgis, da PWC: tecnologias e análise de cenários são ferramentas essenciais para possibilitar mais eficiência e equilíbrio aos sistemas de saúde (Divulgação)

A fórmula mágica de um modelo de negócios rentável e que reduza os custos na saúde é um desafio possível, na opinião do global leader for health industries da PwC, Patrick Figgis. Para o executivo, que comanda uma equipe de oito mil profissionais, em 158 países,  governos e setor privado, em diversos continentes, vêm se esforçando para deter o aumento dos custos, sem sacrificar o acesso e a qualidade do atendimento.“O sistema de saúde global, no ponto em que se encontra, é simplesmente insustentável”, pondera Figgis, que fez carreira na Price, onde ingressou como consultor em 1990. “Mas não se trata de uma guerra perdida”. Um dos elos da cadeia que poderia ser aperfeiçoado, em sua opinião, é justamente o uso da tecnologia – aliado que costuma ser mal utilizado na luta contra os gastos na saúde. “Deveria ser sustentável, integrada com soluções tradicionais, além de promover benefícios em longo prazo para todos os stakeholders dentro do ecossistema de saúde”, critica o executivo. “No entanto, o retrato atual reflete atrasos nas estratégias em saúde digital das empresas e equívocos como a falta de interoperabilidade entre as soluções e o próprio overuse”. Ações simples, como a utilização de medicamentos genéricos ou o melhor uso das ambulâncias, continuam a ser a melhor receita para a diminuição das despesas, sobretudo aquelas aplicadas em nações em desenvolvimento, onde, segundo Figgis, “a necessidade é a mãe da invenção”. Altruísta – o executivo costuma participar de mobilizações para angariar recursos destinados a instituições de caridade –, Figgis acredita que os mercados maduros são arrogantes quando se negam a adotar experiências valiosas dos emergentes em cortes de custos culpando as diferenças culturais. “Temos muito a aprender com os mercados emergentes”, declara o consultor. Direto de Nova York, o number one da Pwc para a saúde concedeu a seguinte entrevista à Diagnóstico.

Revista Diagnóstico – A busca pela redução dos custos de saúde já pode ser considerada uma guerra perdida?
Patrick Figgis – Acho que existe uma maior consciência ao redor do mundo, em governos e no setor privado, de que algo deve ser feito para conter a escalada dos custos em saúde. O sistema de saúde global, no ponto em que se encontra, é simplesmente insustentável. Mas há saídas e, sob esse ponto de vista, a guerra pode ser vencida. Acredito que estamos alcançando um novo despertar na saúde, onde todos os stakeholders estão abertos para novas ações que ajudem a solucionar esta questão importante. As organizações estão reexaminando seus modelos de negócios e o governo e órgãos reguladores transformando suas políticas com a esperança de que podemos vencer a guerra contra o aumento dos custos sem sacrificar o acesso e a qualidade do atendimento.

Diagnóstico – A PwC criou o conceito “bending the cost curve” (alterando a curva de custo, em tradução literal) – uma série de simpósios globais em que os líderes compartilharam suas melhores práticas. As soluções simples continuam sendo a melhor receita? Poderia citar um exemplo?
Figgis – Existem alguns exemplos que posso citar em termos gerais. Temos visto governos locais implementar soluções práticas para melhorar os custos, por exemplo ampliando o índice de uso de medicamentos genéricos ou readequando a utilização das ambulâncias ao incentivar os pacientes a usar outros meios de transporte. Essas soluções simples não impactam na qualidade do cuidado, mas elas podem economizar milhões de dólares para os contribuintes. Algumas empresas privadas e agências do governo estão adotando o mhealth e as mídias sociais como ferramentas para proteger a cadeia de abastecimento global de produtos farmacêuticos. Em algumas nações emergentes, a falsificação de remédios é um sério problema que pode significar menos receita para as companhias e maior dano para a sociedade. Um sistema pode permitir ao paciente e aos prestadores de serviço médico checar a autenticidade dos medicamentos através da digitação de um número inscrito na embalagem de um remédio nos seus aparelhos celulares. Após o envio de um SMS gratuito ao servidor, uma resposta é encaminhada em tempo real para verificar se o produto é real ou não.

Diagnóstico – O que leva uma empresa do segmento de saúde a buscar uma consultoria atualmente? 
Figgis – As grandes tendências, aliadas ao desenvolvimento social significativo, que está modelando o mundo, revolucionam a indústria da saúde nos dias atuais. Avanços tecnológicos, mudanças demográficas e o crescimento da influência de mercados emergentes, como o Brasil, estão promovendo um tremendo impacto na maneira como os nossos clientes estão se posicionando no mercado. Aliado a tudo isso, os governos estão cada vez mais sob pressão para produzir mais valor. E é justamente a partir desse cenário que as companhias de saúde estão solicitando nossa ajuda para dar um sentido às mudanças em curso, identificar oportunidades de colaboração com organizações fora da saúde – e vice-versa – e para codesenvolver modelos de negócios e novos serviços. Estas questões tem sido predominantes, mas elas têm se tornado mais pronunciadas devido às forças econômicas e geopolíticas. Sem mencionar, é claro, a influência crescente dos consumidores, que estão tendo uma maior responsabilidade por seu cuidado.

Diagnóstico – Quais os questionamentos que os líderes de empresas do setor de saúde em países em desenvolvimento, como o Brasil, devem se fazer ao tentar definir estratégias de sustentabilidade para os seus negócios?
Figgis – Especialmente em países emergentes, os líderes precisarão se perguntar se os modelos de atendimento são suficientes para assistir às demandas das mudanças populacionais e um consumidor mais informado e exigente. Por exemplo, eles podem resolver as necessidades de cuidados primários da sua população não através do treinamento de mais médicos generalistas, mas criando um acesso aos prestadores e um cuidado através da telemedicina e mhealth. Nossos clientes em países emergentes estão buscando caminhos para melhorar a qualidade e expandir o acesso ao cuidado, tudo ao mesmo tempo e mantendo os custos sustentáveis. O emprego de tecnologias que aumentem a eficiência e o devido suporte de análise e proficiência na gestão são ferramentas essenciais para possibilitar melhoria de performance e a consequente sustentabilidade aos sistemas de saúde.

Diagnóstico – Em recente pesquisa da PwC, 86% dos CEOs da área de saúde acreditam que o avanço tecnológico transformará seus negócios nos próximos cinco anos. No entanto, há um gap entre a situação atual e o que eles querem ser – somente 33% dos entrevistados aumentaram os investimentos em tecnologia. Poderia comentar?
Figgis – O estudo mostra que uma das razões de eles não terem feito muito progresso é porque os CEOs acreditam que as funções de pesquisa e desenvolvimento em TI estavam mal preparadas para capitalizar. A tecnologia promoveu uma disrupção em muitos setores e a saúde não é uma exceção. Para ter sucesso, a tecnologia deveria ser sustentável, integrada com soluções tradicionais, além de promover benefícios em longo prazo para todos os stakeholders dentro do ecossistema de saúde. Além disso, muitas companhias do setor estão atrasadas em suas estratégias de saúde digital. As barreiras podem ser devido à falta de interoperabilidade entre soluções tecnológicas, de privacidade e de eficácia das questões sobre regulamentações e a falta de incentivos na adoção das novas ferramentas. Apesar de estas barreiras serem significantes, elas não são intransponíveis e as organizações podem trabalhar com seus pares em outros setores para aprender como eles podem aproveitar a tecnologia como uma vantagem competitiva.

Diagnóstico – O senhor é a favor do consumer-driven health care?
Figgis – O consumer-driven health care já está se tornando uma realidade. Portanto, não é uma questão de se colocar a favor ou contra esta tendência, mas de como podemos efetivamente capitalizar esta influência crescente no consumidor. Os pacientes estão se tornando mais empoderados, administrando melhor seus gastos em saúde, influenciando nos resultados devido ao uso crescente de ferramentas tecnológicas como os smartphones e mídias sociais. As organizações de saúde que colocam seus consumidores no centro do cuidado podem colher os frutos no novo mercado de saúde.

Diagnóstico – De que forma o overuse – que já compromete quase 1/3 das receitas com saúde nos EUA – vem sendo tratado na Europa?
Figgis – O overuse, o underuse (subutilização) ou misuse (uso indevido) são as três maiores variações que vemos na saúde. Eles representam uma falha na adoção de protocolos e procedimentos padrões, e não levam as preferências dos pacientes e objetivos em consideração de forma suficiente. O overuse é um fenômeno reconhecido na Europa, apesar de ser menos recorrente do que na América do Norte. Existem três abordagens amplas no sentido de minimizar a prática na Europa. O primeiro envolve órgãos nacionais, como o National Institute of Health e Clinical Excellence no Reino Unido, fazendo recomendações sobre a qualidade e o valor do cuidado. Eles geralmente usam evidências científicas e aplicam análises econômicas baseadas na efetividade e custos do desenvolvimento de suas diretrizes. Outras formas de reduzir os gastos são através do incentivo financeiro aos programas focados na redução do overuse e nas abordagens acadêmicas que conscientizam os públicos, prestadores e pagadores a entrarem em um consenso sobre o uso eficiente dos recursos de saúde.

Diagnóstico – O que os países mais ricos podem aprender com a experiência de nações emergentes, como Brasil e Índia?
Figgis – A velha máxima de “a necessidade é a mãe da invenção” é confirmada quando se trata de olhar a forma que alguns mercados emergentes resolvem seus problemas antigos nos seus respectivos sistemas de saúde. Uma vez que os mercados em crescimento não têm o mesmo nível de recursos que os países desenvolvidos, eles acabam desafiando o pensamento convencional e adotando princípios de outras indústrias para desenvolver soluções criativas que melhoram o desempenho e reduzam custos. Mercados maduros tendem a ter certa arrogância com estas práticas, citando diferenças culturais, regulações e demografia, como razões do porquê estas experiências não podem ser transferidas. Mas temos muito a aprender com mercados emergentes, principalmente com suas abordagens para a industrialização de procedimentos e aplicações no mercado de saúde.

Diagnóstico – Qual a importância estratégica do mercado brasileiro de saúde na operação global da PwC?
Figgis – O Brasil é um mercado em crescimento prioritário para a empresa. Na área de saúde, nós já estamos fazendo grandes trabalhos e a rede de oportunidades é intrigante.

Diagnóstico – Se a PwC fosse montar um ranking dos dez maiores países para se investir em saúde, incluindo todos os Brics, em qual posição estaria o Brasil?
Figgis – Normalmente não ranqueamos países, já que existe um grande número de fatores que determinam a viabilidade para o investimento. Diria que o Brasil continua sendo uma opção atrativa. O país tem um crescimento rápido entre os setores farmacêuticos e de saúde, registra um aumento do poder de compra do consumidor e possui condições demográficas favoráveis.

Diagnóstico – Ao assumir o cargo de líder global da divisão de saúde da PwC, em julho de 2013, o senhor afirmou que os clientes teriam novas oportunidades nos próximos anos. O que o senhor quis dizer com isso?
Figgis – Estamos enfrentando um grande número de desafios que ameaçam um preço acessível, a qualidade e a sustentabilidade do sistema de saúde, mas ainda acredito que estamos na vanguarda da formação de um novo sistema que serve aos clientes. Com uma crise, vêm as oportunidades. Os avanços na tecnologia fornecem ferramentas interessantes para os provedores, pagadores e o governo tornarem-se mais precisos na detecção e diagnóstico de doenças e prevendo o comportamento do paciente, permitindo assim tratamentos mais eficazes. Novos participantes comerciais – aqueles fora do mercado tradicional de saúde – estão revolucionando o setor, introduzindo novos produtos, serviços e sistemas de atendimento que promovem opções de tratamento mais convenientes e acessíveis. Finalmente, a crescente influência dos mercados emergentes e seus ganhos econômicos estão desafiando o domínio do mundo desenvolvido e nos forçando a repensar a forma como estamos servindo nossos consumidores na atualidade. Todas estas forças estão contribuindo para um modelo de saúde mais dinâmico que beneficiará tanto os negócios quanto a sociedade.

*Entrevista publicada na edição 25 da revista Diagnóstico.



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