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21/11/11
Vecina Neto: “A saúde pública precisa de inovação”
Premiado com a Medalha Oswaldo Cruz e CEO do Hospital Sírio Libanês, Gonzalo Vecina Neto não se esquiva de colocar o dedo na ferida quando o assunto é o SUS
Da redação

O médico Gonzalo Vecina Neto, superintendente corporativo do Hospital Sírio Libanês, se tornou uma referência no Brasil quando o assunto é saúde pública. Premiado em 2010 com a Medalha de Mérito Oswaldo Cruz, concedida pela Universidade de São Paulo (USP), em reconhecimento ao trabalho realizado na área de gestão hospitalar, esse paulista de conversa fluida e tranquila não se esquiva de colocar o dedo na ferida quando o assunto é o Sistema Único de Saúde. “O Estado brasileiro possui uma cultura de gerenciamento muito arcaica”, salienta Neto, que já foi diretor- presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “O poder público tem que garantir a entrega e não gerir. A iniciativa privada está melhor aparelhada para administrar de forma mais eficiente”, defende. O médico condena ainda a ideologia de alguns setores da sociedade que são contra o lucro nos serviços de assistência à saúde. “Se o padeiro da esquina pode lucrar, os donos de hospitais têm o mesmo direito”, compara.

 

Revista Diagnóstico – Qual a diferença entre ser dirigente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e ser superintendente de um hospital privado?

Gonzalo Vecina Neto – Do ponto de vista da finalidade não é diferente, embora haja particularidades na abrangência. As duas instituições atuam no setor da saúde e têm uma responsabilidade: cuidar da vida humana. O que muda é que a Anvisa é um órgão público de polícia sanitária e trabalha para evitar que ocorram danos à saúde de toda a população. Já o hospital atinge uma esfera específica de indivíduos e, por se tratar de uma empresa privada, com ou sem fins lucrativos, há uma cobrança maior por bons resultados. Por outro lado, a administração pública traz a questão de servir ao público, que não deixa de estar presente no Hospital Sírio Libanês, que é um estabelecimento que tem como característica principal a filantropia. Por isso, também neste quesito, não há tanta diferença.

 

Diagnóstico – Boa parte dos hospitais brasileiros de padrão internacional é filantrópica. A carga tributária brasileira ajuda a entender esse processo?

Vecina Neto – O que um hospital privado gasta e o que um hospital sem fins lucrativos, que não recolhe imposto, gasta são semelhantes porque a isenção da cota patronal, do PIS e do Cofins concedida a instituições filantrópicas é revertida para a sociedade em serviços. Agora, como qualquer empresário, os donos de hospitais privados são chorões. Eles reivindicam maior liberdade para mexer num mercado altamente complexo, que é o da saúde. Quando analisamos a realidade internacional, vemos que em boa parte dos países desenvolvidos, inclusive nos Estados Unidos, a maioria dos hospitais é filantrópica. No Brasil, a divisão dos leitos hospitalares é bem equilibrada: 35% em entidades privadas filantrópicas, 35% nos estabelecimentos privados com finalidade lucrativa e 30% em instituições estatais. Mesmo assim, os hospitais privados conseguem ter lucros grandes com as suas atividades. O fato de alguns deles não alcançarem os níveis de excelência obtidos por algumas entidades filantrópicas, contudo, pode ser mais por problemas de gestão do que por sua razão social. É possível vender, ter lucro e ser referência em saúde quando se tem uma boa gestão.

 

Diagnóstico – Mas há casos de hospitais filantrópicos que não repassam as isenções que recebem na forma de serviços para a população.

Vecina Neto – Há sim. Mas estes não são filantrópicos e sim pilantrópicos. Agora, cabe ao Estado fiscalizar se as isenções dadas a estas instituições serão convertidas em serviços para a população. O problema é que o poder público é ineficiente nesta tarefa. O Hospital Sírio Libanês em 2010 terá uma renúncia fiscal de cerca de 60 milhões de reais. Este valor está sendo reinvestido em projetos pré-aprovados pelo Ministério da Saúde nas áreas de transplante de fígado, cirurgia cardíaca e uma gama de cursos para capacitar Estados a realizar transplantes, através da procura e captura de órgãos. Muitos deles são da região Nordeste. 

 

Diagnóstico – O Brasil tem crescido bastante nos últimos anos em vários setores, dentre eles indústria, comércio e serviços, mas a saúde pública ainda padece.  Embora os investimentos do SUS tenham aumentado, as desigualdades entre as regiões são grandes. O que fazer para resolver o problema?

Vecina Neto – Redistribuir renda. Não há outra solução. O Brasil está saindo do estágio de subdesenvolvimento para o de país em desenvolvimento, reduzindo de forma débil as desigualdades sociais. A área da saúde é um instrumento precioso neste processo porque dá condição ao cidadão de entrar na luta pela participação da construção de uma sociedade mais justa. Mas, para que isso ocorra, é necessário superar dois desafios. O primeiro é o de investir mais recursos na saúde, que vai gerar, por sua vez, uma nação de pessoas mais sadias. O outro é a criação de soluções inovadoras para a gestão da saúde pública. Então, para interiorizar, é preciso dinheiro. Se uma região possui uma atividade econômica forte, ela atrairá mais profissionais de todas as áreas para trabalhar nela. É óbvio que um profissional de saúde não quer ter sua vida laboral em um lugar onde os riscos no atendimento sejam maiores. Ele precisa de um hospital bem aparelhado, uma equipe de auxiliares capacitada em outras especialidades, entre outras coisas. O problema da correção das desigualdades Norte-Sul, Centro-Interior só será resolvido se realizarmos distribuição de renda e, ao mesmo tempo, criarmos soluções inteligentes para levar o desenvolvimento para estes rincões do País. Tudo isso com o Estado como regulador.

 

Diagnóstico – Quais podem ser essas soluções inovadoras?

Vecina Neto – O Programa Saúde da Família (PSF) é uma delas porque conseguiu fazer um grande movimento de interiorização dos serviços do SUS. Hoje temos quase 60% da população coberta pelo programa. Na Bahia, há casos em que os municípios compram o serviço diretamente de uma instituição privada, que contrata profissionais e os aloca nas cidades do interior. Essa é uma saída inteligente.

 

Diagnóstico – A falta de recursos e a burocracia continuam sendo os principais problemas da saúde pública no Brasil?

Vecina Neto – Sim. O poder público brasileiro é notoriamente ineficiente. Nosso país tem uma cultura de gerenciamento muito arcaica. Contratar pessoas através de concurso público é muito demorado. Comprar, mesmo com o avanço das licitações eletrônicas, também leva muito tempo, além de dar oportunidade da interposição de recursos por parte dos prejudicados, o que arrasta os procedimentos por meses. A administração pública nacional, mesmo com a reforma promovida com a Emenda 19 no Governo de Fernando Henrique Cardoso, ainda repousa na legislação dos anos 40, na época da ditadura de Getúlio Vargas. Isso é desastroso.

 

Diagnóstico – Como, então, avançar?

Vecina Neto – A solução é descentralizar, modernizar e delegar a gestão dos estabelecimentos de saúde pública a instituições particulares. Isso pode ser feito através da contratação de organizações sociais ou da realização das parcerias público-privadas, a exemplo do que foi feito na Bahia. O Estado tem que garantir a entrega e não gerir. A iniciativa privada está melhor aparelhada para administrar de forma mais eficiente. Não dá para gerenciar uma organização que tem a dinâmica de um hospital sem poder demitir imotivadamente. Na administração pública, não é possível mandar ninguém embora, tem que passar por um processo institucional. Eu acho fantástico isso, mas temos que escolher: ou queremos isonomia ou queremos assistência à saúde para a população. Não dá para ter as duas coisas. Apenas os poetas, os ingênuos ou os mal intencionados creem que isso é possível.

 

Diagnóstico – Em um evento recente realizado pela nossa Revista Diagnóstico, o executivo Maurício Portugal, chefe de consultoria de infraestrutura (IFC) do Banco Mundial, afirmou que não há vontade política para implantar as parcerias público-privadas no Brasil. Pode comentar?

Vecina Neto – Temos que superar dois grandes obstáculos. O primeiro, de fato, é a vontade política. O outro é a ideologização das críticas às PPPs. Os dirigentes têm um receio de enfrentar esse debate de peito aberto e se refugiam nos seus ideais. A discussão ideológica é fundamental porque se baseia em ideias. O problema é quando se dogmatiza a ideologia. O discurso oposicionista predominante contra as PPPs é o de que não pode existir lucro com assistência à saúde. Penso diferente. Se o padeiro da esquina pode lucrar, os donos de hospitais têm o mesmo direito. Agora, o Estado precisa assegurar a entrega e atuar na regulação da atividade, do ponto de vista do risco e do acesso.

 

Diagnóstico – O corporativismo também é outro problema para a realização de mais PPPs?

Vecina Neto – Claro. As pessoas que são contra as PPPs são ignorantes tentando garantir vantagens corporativistas para determinadas categorias. Esses indivíduos são mal intencionados. Um dos grandes inimigos das PPPs é o servidor público. As corporações devem existir e conduzir a sua luta, mas o que não pode acontecer é a sociedade se ajoelhar perante elas e esquecer os seus interesses e como o Estado os porá em prática.

 

Diagnóstico – Com relação à gestão pública, há profissionais suficientemente capacitados no mercado?

Vecina Neto – Ainda não. O processo de formação de pessoas não é um processo qualquer. Ele tem que ser contínuo para estar sempre agregando informações que o campo de conhecimento específico produz. No caso da gestão, isso se desenvolve no cotidiano. Os novos gerentes têm que ter a capacidade para entender o que são as tecnologias de ponta em gestão de recursos, pacto estratégico, gestão de resíduos, entre outros. O setor de saúde brasileiro representa 8% do PIB e gera 10% dos empregos com carteira assinada. Contudo, o esforço que tem sido feito para formar administradores é muito pequeno. A maioria das universidades brasileiras não oferece cursos voltados para formação de gestores na área de saúde pública.

 

Diagnóstico – Qual o papel das empresas na formação dos gestores?

Vecina Neto – Fundamental. Há 30 anos o indivíduo podia se formar e não pôr a mão no livro nunca mais na vida. Hoje é necessário um esforço para não deixar de ser contemporâneo. Grande parte dele é a empresa que deve promover. Contudo, não pode ser uma coisa pontual. O investimento em qualificação dever ser contínuo para criar no funcionário uma cultura de estar sempre se aprimorando. Desse modo, empresa e colaboradores saem ganhando.

 

Diagnóstico – O Hospital Sírio Libanês investirá R$ 750 milhões nos próximos quatro anos na ampliação dos seus serviços, construção de novas unidades de atendimento, pesquisa e ensino a fim de se firmar como centro de excelência. Qual o caminho a ser percorrido por outras instituições que queiram alcançar tal reconhecimento?  

Vecina Neto – É necessário ter uma visão de futuro pautada em oferecer um serviço cada vez melhor. Isso implica investimento em capacitação contínua, busca por novas tecnologias e práticas de sustentabilidade. Quando falamos em sustentabilidade, nos referimos tanto ao equilíbrio financeiro, pois nenhuma instituição atuando no vermelho sobrevive quanto à preocupação ambiental.  Não por acaso, a adoção  de práticas de reaproveitamento da água, gestão adequada dos resíduos e uso da energia solar é cada vez mais obrigatória dentro do planejamento estratégico de um hospital. Além disso, é preciso compromisso com a sua comunidade, aliado aos valores do hospital: conhecimento, pioneirismo, excelência, filantropia e calor humano. 



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