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27/12/13
Articulista aborda relação entre médicos e pacientes terminais
Robert Pearl: Falar que paciente vai morrer é doloroso. Mas é preciso dizer a verdade. Com muita frequência, profissionais de saúde não conseguem admitir que há pouco a ser feito
Robert Pearl


Alguns médicos escolhem a conveniência de não falar a verdade para evitar desapontar seus pacientes. Alguns fazem isso somente para não perder o próprio tempo. Muitos se justificam prometendo o impossível, como se quisessem “preservar a esperança” (Editoria de arte/Shutterstock)

Escolhas impossíveis é o tema do último romance de Khaled Hosseni, And The Mountains Echoed, publicado no Brasil com o título O Silêncio das Montanhas, pela Editora Globo. Estudos mostram que muitos médicos se esforçam para ajudar seus pacientes em suas escolhas mais difíceis. Por mais difícil que as decisões pareçam, a pior escolha é não tomá-las. Lendo este romance, pergunto-me quantos cenários foram inspiradores a partir das experiências pessoais de Dr. Hosseini, um médico clínico. Todos os dias, nos EUA, pacientes e seus familiares são obrigados a tomar decisões médicas torturantes. A regra fundamental para estes profissionais é ajudá-los durante este processo difícil.

Algumas escolhas são doloridas, mas fáceis de tomar, como decidir sobre a retirada de um fígado canceroso para salvar a vida de uma criança. Muitas vezes, no entanto, os médicos devem apresentar opções e fazer recomendações sobre quando não há uma escolha “certa”. Médicos temem que pacientes não enfrentem a verdade. Com muita frequência, estes profissionais também não conseguem admitir que há pouco a ser feito.

Falar aos pacientes com câncer terminal que eles morrerão em pouco tempo é doloroso. Muitos médicos não fazem isto bem. Alguns chegam a esconder esta informação. De acordo com um estudo recente da New England Journal of Medicine, no mínimo dois terços dos pacientes com câncer em estado avançado acreditam que a quimioterapia os curará. Mas, exceto em tipos raros de tumor, a quimioterapia é administrada para minimizar os efeitos da metástase. Em outras palavras, não se pode curar.

Em algumas situações, um médico honesto pode desagradar um paciente. Mas a melhor medicina para todos os pacientes é a verdade. Como médicos, devemos fazer o melhor trabalho para explicar o que está acontecendo, mesmo quando as notícias são difíceis de ser ouvidas. Durante boa parte da vida, as pessoas não estão próximas da morte. Mas em algum momento a maioria de nós desenvolverá problemas de saúde. Quando a hora chega, queremos que os profissionais de saúde cuidem de nós e falem a verdade da forma que desejamos ouvir – com compaixão e respeito para as nossas decisões do fim da vida.

A verdade é que possibilita a um paciente entender a real situação. É o que o ajuda a fazer o que é necessário e importante enquanto ele tem tempo. Mas falar aos pacientes a verdade sobre os riscos e benefícios de uma terapia agressiva tem sido diferente. Informar aos pacientes com doença avançada que eles estão próximos da morte tornou-se um debate político. Alguns confundem essa situação com o racionamento ou retenção dos cuidados médicos. Não é uma coisa nem outra. Falar aos pacientes a verdade sobre os problemas de saúde é o que a maioria de nós quer ouvir, e o que todos os pacientes têm o direito de saber.

Oito em cada dez pessoas nos EUA dizem que gostariam de conversar com seus médicos sobre o tratamento no fim da vida se estivessem seriamente doentes. No entanto, menos de uma em cada dez pessoas disseram fazer isso.

A exceção está em La Crosse, no estado de Wisconsin, condado localizado no centro-oeste dos EUA, que tem sido referido como “o melhor lugar para morrer”. Há mais de duas décadas, o Gundersen Lutheran Medical Center (hoje Gundersen Health System) foi criado para sistematizar os planos de tratamento.

Se você está morrendo no condado de La Crosse hoje, você tem 90% de chances de ter seus desejos conhecidos. Você tem também 99% de chances de ter esses desejos atendidos. O termo que eles usam para isso é “respecting choises” (“respeitando escolhas”). Não cometa erros. As conversações sobre o fim da vida são muito difíceis. Elas demandam tempo. Muito mais do que os cinco ou seis minutos que os médicos gastam em média discutindo diretivas de tratamento, segundo um estudo. Alguns médicos escolhem a conveniência de não falar a verdade para evitar desapontar seus pacientes. Alguns fazem isso somente para não perder o próprio tempo. Outros lutam para confrontar seus próprios limites enquanto médicos. Muitos se justificam prometendo o impossível (ou no mínimo o improvável), como se quisessem “preservar a esperança”. 

Seria uma atitude para promover a alegria do paciente. Uma pesquisa mostra o oposto. Quando pacientes sabem a verdade sobre suas doenças – e quando eles têm a oportunidade de ter uma conversa franca sobre os objetivos do tratamento –, eles ficam mais felizes e vivem mais. Esta tendência se repete mesmo quando a escolha dos pacientes é por intervenções menos agressivas.

Setenta por cento dos pacientes querem passar seus últimos dias de vida com seus familiares em casa. A maioria deles gasta seus últimos dias em hospitais longe de onde gostariam. Alguns pacientes com doenças terminais escolhem tratamentos radicais, com a esperança de alguns dias a mais de vida ou uma em 100 chances de ser curado. Mas este não é o caso de muitos pacientes. E quando médicos não são honestos, eles desrespeitam seus próprios pacientes e a dignidade deles.

A maioria dos doentes é mais forte do que muitos médicos imaginam. Estes profissionais devem aos seus próprios pacientes a verdade, ainda mais no final de suas vidas. A despeito de todos os avanços na área de cuidados de saúde e das práticas médicas, nós, como médicos, temos muito a aprender sobre a admissão das nossas limitações. Mesmo quando há pouco a ser feito, podemos oferecer aos nossos pacientes, através do tratamento médico, duas das nossas mais poderosas ferramentas terapêuticas: a verdade e a compaixão.

Robert Pearl é médico formado pela Escola de Medicina da Universidade de Yale, com residência em cirurgia plástica e reconstrutiva na Universidade de Stanford, onde ensina Estratégia, Liderança e Tecnologia. É colunista da revista Forbes.  

*Ensaio publicado na revista Diagnóstico n° 23.



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