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10/05/13
Campinas - Polícia indicia dirigentes de clínica por mortes após ressonância
Sócios foram acusados por homicídio com dolo eventual - quando se assume-se o risco de matar - e por fraude processual. Clínica era responsável pelos exames de ressonância magnética do Hospital Vera Cruz (SP)
Estado de S. Paulo

Campinas - A Polícia Civil indiciou, nesta quinta-feira (09), dois sócios e dois administradores da clínica responsável pelas mortes em exames de ressonância magnética do Hospital Vera Cruz, em Campinas (SP). Os quatro foram acusados por homicídio com dolo eventual - quando se assume-se o risco de matar - e por fraude processual. Em Na ocasião, em 28 de janeiro, três pacientes morreram após realizarem exames no crânio. Dois filhos dos donos que dirigiam a clínica também foram indiciados. As vítimas - dois homens e uma mulher - receberam por engano, cada um, uma injeção na veia de 10ml de perfluorocarbono - substância química utilizada como isolante elétrico nas indústrias, o que provocou uma parada cardiorrespiratória logo após o procedimento.

A substância era usada na clínica para ressonâncias de próstata, mas sem contato com o organismo - é inserido no reto por balão ou por meio de bolsas plásticas sobre a barriga. O produto não poderia entrar em contato com o sangue. No entanto, no dia 28, uma auxiliar de enfermagem com 10 dias de experiência na clínica, confundiu a substância com soro fisiológico e injetou na veia dos pacientes. De acordo com o que apurou a polícia, o produto ficava em uma gaveta, sem identificação, acondicionada em bolsas plásticas de soro reutilizadas, também sem identificação.

Riscos - De acordo com o delegado José Carlos Fernandes, os indiciados assumiram os riscos das mortes ao usarem o produto de forma experimental e também atrapalharam as investigações, induzindo a polícia ao erro. O relatório do inquérito aponta que uma testemunha protegida pela Justiça declarou que a direção da empresa Ressonância Magnética Campinas (RMC), que é sócia do hospital Vera Cruz e dos médicos indiciados -, sabia o que tinha causado a morte, antes da apreensão do produto.

O perfluorocarbono foi descoberto na clínica dois meses após as mortes e depois do depoimento da testemunha. Antes disso, as investigações buscavam saber se havia alguma relação entre as mortes e a utilização do contraste (produto usado para melhorar as imagens dos exames) ou se havia algum produto tóxico injetado nas vítimas. Em depoimento, a testemunha afirma que houve uma reunião fechada no Hospital Vera Cruz e que fosse mantido sigilo, "uma espécie de juramento para que a verdade não fosse dita". Segundo ela, o solvente era reaproveitado por ordem de um superior, por ser um produto caro.

Pena - Os donos da clínica, os médicos Adílson Prando e José Luis Marins, e seus dois filhos, o médico Marcos Marins, que comandava a clínica, e Patrícia Prando, a chefe das enfermeiras, poderão pegar de 6 a 20 anos de prisão, se forem condenados por homicídio. Por fraude, a pena pode ser de até 4 anos de reclusão.

Segundo o delegado, todos sabiam e concordavam com a aplicação do produto da forma como era feita. A substância era utilizada desde 2005 no Vera Cruz. O hospital, apesar de ser sócio da clínica, não era considerado o responsável técnico por ela, apenas participava financeiramente, por isso não será responsabilizado criminalmente.

De acordo com o que os indiciados disseram à polícia, eles não sabiam dos riscos de morte do uso do produto e afirmaram que uma fita adesiva nas bolsas identificava o produto. O advogado da clínica Ralph Tórtima Stettinger, afirmou que não admite que possa ter existido crime, vontade de tirar a vida de quem quer que seja. "Na minha visão, e não tem a ver com os médicos, teria existido sim um grande erro, uma falha", disse..

Vítimas - Não foram indiciadas a técnica de enfermagem, que trabalhava há dez dias e preparou a injeção com o perfluorocarbono, nem a funcionária que aplicou o produto, ambas acreditando se tratar de soro fisiológico como procedimento padrão antes da ressonância para o uso depois do contraste durante o exame. O delegado considerou que as duas foram vítimas e induzidas ao erro, porque o produto estava armazenado sem identificação e em uma bolsa de soro.

Além disso, o fato de o produto não ter sido entregue no dia das mortes para a polícia e só ter sido descoberto na clínica dois meses depois, em uma busca e apreensão, porque uma testemunha em sigilo denunciou seu uso, foi considerado uma omissão por parte da clínica que atrapalhou as investigações. Brigina Kemp, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde de Campinas, afirmou que o produto era desconhecido do órgão que está apurando o caso e que a falha cometida pela funcionária deixou evidente a fragilidade dos procedimentos de trabalho, nos procedimentos, e no atendimento no Vera Cruz.

*As informações são do Estado de S. Paulo.

Leia mais:
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