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19/12/11
Caro Gestor: funções de médico e gestor são excludentes?
Professor Osvino Souza, da Fundação Dom Cabral, comenta as principais dúvidas e reflexões dos empresários do setor de saúde
Da redação

Sou médico e tenho incorporado cada vez mais as funções de gestão dentro dos negócios da família – todos voltados para o setor médico-hospitalar. Até quando posso conciliar as duas funções? Elas são de fato excludentes? (J.A. – Recife, PE)

Excludentes, não são. Conheço profissionais de sucesso que mantêm as duas atividades. No entanto, é uma questão frequente e não é exclusiva dos médicos. Ocorre em todas as profissões. As competências do empreendedorismo e da gestão podem existir, estar latentes ou serem desenvolvidas por profissionais de qualquer formação. Não fosse assim, não teríamos por aí tantos hospitais, clínicas, laboratórios, entre outras instituições, só para ficar na área da saúde. Foram profissionais da saúde, que em geral nunca tiveram qualquer formação em administração, mas em algum momento tiveram a boa ideia, a iniciativa e a energia para criar um “negócio”. Uso aspas porque há muito preconceito com o uso da palavra negócio quando se trata do setor de saúde. A maioria quase absoluta desses negócios continua sendo dirigida por profissionais do segmento. Sendo um negócio familiar, não deixe de ver as edições anteriores da revista em que trato deste tipo de empresa. Até quando você vai conseguir ou vai poder conciliar as funções de médico e de gestor vai depender de você e da organização. Do seu lado, você deve avaliar constantemente seu nível de felicidade no exercício de cada uma e das duas funções. Qual delas o faz mais feliz? Com qual delas você mais se identifica? Haverá altos e baixos em cada uma, fique certo. Não é o fato de ser formado em Medicina que o obriga a continuar sendo médico para o resto de sua vida. Nem é o fato de ser de uma família empreendedora que o obriga a ser gestor da instituição. Há outras soluções possíveis para esta equação. Ainda pensando do seu ponto de vista, uma questão que não pode passar em branco é sua qualidade de vida. Exercer a contento uma só função já é difícil, o que se dirá de duas e concorrentes por seu tempo e dedicação? E as outras atividades de sua vida? Que lugares ocupam em sua lista de prioridades? Além disso, em nenhuma delas é possível fazer um bom trabalho sem deixar de investir na sua atualização e desenvolvimento. Do lado da organização, você terá que apresentar resultados. Ser um bom médico e um bom gestor, gerando os resultados desejados “todo o tempo”, será cada vez mais exigido pela organização. Aí poderá chegar a hora em que você terá que decidir por uma ou por outra, ou se manter nas duas, quem sabe?

 

Muito já se falou sobre o delay entre o setor médico-hospitalar e segmentos mais “maduros” de nossa economia como indústria e grande varejo.  Trabalhei em uma grande multinacional antes de assumir o desafio de gerir um hospital de grande porte em Pernambuco. Encontrei uma gestão atrasada, com práticas e controles de 20 anos atrás. Isso é normal mesmo? (Anônimo)

É verdade. Dizer que a gestão do setor da saúde está defasada com relação à gestão de outros setores é uma fala comum atualmente. No entanto, é preciso considerar que há instituições mais e menos atrasadas neste sentido. E há instituições que estão avançadas, também, embora sejam poucas. Além disso, é preciso considerar que tudo tem seu tempo para amadurecer. Não há como forçar o amadurecimento de um setor se este não encontra condições apropriadas para isto. Até o início dos anos 1990, a grande maioria da indústria brasileira estava fortemente defasada com relação a seus correspondentes de outros países. Na indústria siderúrgica, onde trabalhei muitos anos, dizia-se que esta defasagem era de 10 a 20 anos. Na indústria da tecnologia da informação não era muito diferente. Havia muitas razões para isto, entre elas, a reserva de mercado. A abertura da economia, ocorrida então, provocou uma forte reação de capacitação das empresas brasileiras visando à sua sobrevivência no competitivo mercado global. Algumas se saíram bem e estão aí, profundamente modificadas, na maioria das vezes, outras não sobreviveram. O mesmo pode estar para acontecer no setor da saúde. Alguns sinais são visíveis. O consumidor brasileiro saiu ganhando com o aumento da competitividade, em consequência das medidas adotadas. Esperamos que o consumidor do sistema de saúde, em geral o paciente, também saia ganhando com isto. O desafio dos empresários, dos executivos e dos gestores do setor é, em primeiro lugar, despertar para isto, entender o fenômeno, com suas singularidades (por exemplo, o paciente não é um simples consumidor), e agir com a rapidez, eficiência e eficácia suficiente para se manter no “negócio”. Mas trata-se de um processo de mudança e como tal cabe ao agente da mudança identificar e respeitar as capacidades e a tolerância de cada instituição, sob o risco de ver todos os seus esforços se perderem, mesmo tendo um objetivo nobre e “inquestionável”.

 

Sou diretor médico em um hospital cuja nova gestão quer fazer com que eu atue como empreendedor. A ideia é impor metas de faturamento, resolutividade e, consequentemente, mais retorno para a empresa. Não há, contudo, uma política de bônus por desempenho. Pode dar certo? (Anônimo)

Você tem, certamente, um grande desafio pela frente. Recorrendo à resposta anterior, não há como evitar que as instituições privadas, mesmo da saúde, sejam tratadas como “negócios”. Afinal de contas, sejam elas empresas familiares ou não, pequenas, médias ou grandes, foram criadas por empreendedores, quase sempre, médicos. São cada vez mais comuns as que estão nas mãos de investidores, que não são profissionais da saúde. Como investidores, eles vão querer o retorno do capital investido. Um verdadeiro negócio. É evidente que ainda há, e tomara que continuem existindo, aqueles que o fazem por “amor à causa” da saúde. Mas todos terão que se empenhar para sobreviver num mercado cada dia mais competitivo, e isto exige uma gestão focada na eficiência, na eficácia e na efetividade da instituição. As metas que você cita são todas resultantes destes desafios. Quando outras indústrias se viram diante deste quadro, a reação foi muito intensa e muitos questionaram a força capitalista das ideias predominantes. Mas o consumidor saiu ganhando. Na saúde, o desafio é fazer esta transformação de forma que o cidadão saia ganhando, ou seja, que tenha mais saúde com menor custo. Difícil, mas não impossível. Os empresários e executivos do setor terão que se preparar para isto. Antevemos a necessidade de grandes e profundas transformações no setor, mas tudo ocorrerá a seu tempo, com algum sofrimento para aqueles que não souberem reagir a contento, infelizmente. Mas sua pergunta me desperta mais duas questões. Imposição não é a melhor forma de promover mudanças, embora muitas vezes funcione, e o pagamento por desempenho é um dos caminhos para promover o engajamento no novo sistema de trabalho, mas não o único. Neste último tópico, há que se definir com muito cuidado o que é desempenho, que desempenho se deve incentivar e como recompensá-lo. Erros nestes quesitos são frequentes e costumam levar a resultados desastrosos. “O tiro pode sair pela culatra”. Lições aprendidas de outros setores da economia.



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