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29/02/16
Cirurgião italiano causa crise em instituto ligado ao Nobel
Mortes de pacientes provocou a investigação do médico Paolo Macchiarinis, pioneiro em implante de traqueias artificiais que trabalhou em instituto ligado ao prêmio
Da redação

O médico italiano Paolo Macchiarinis se tornou famoso mundialmente após ter realizado o primeiro implante de traqueia artificial utilizando a engenharia de tecidos na história da medicina e que trabalhou no Karolinska. Macchiarinis também é o protagonista de um escandalo envolvendo o Instituto Karolinska, na Suécia, sede do comitê que concede o Prêmio Nobel de Medicina e onde ele já trabalhou. Com informaçlões da BBC. 

Macchiarini se transformou no tema de um documentário transmitido pela televisão da Suécia, sobre a morte de seis de seus pacientes e acusações envolvendo má prática médica. O médico declarou que as mortes não têm relação com os transplantes. De acordo com o próprio Instituto Karoslinska, o programa, que mostrou o sofrimento dos pacientes, chocou a comunidade científica do país e a opinião pública.

Após as revelações, o caso criou uma crise na instituição e provocou a demissão do vice-reitor, obrigaando o Karolinska a realizar uma investigação, externa e interna, para analisar as práticas do cirurgião. Macchiarini ainda não se manifestou sobre o caso e disse não querer falar com a imprensa pois está concentrado em recolher as provas necessárias para a investigação.

Para proteger a reputação do prêmio, o escândalo provocou a demissão de Urban Lendahl, secretário-geral da Assembleia do Nobel no Instituto Karolinska. Formada por 50 professores do Instituto Karolinska e nomeados por funcionários da própria universidade, a Assembleia é um corpo independente do instituto.

Acusações - Em 2008, Macchiarini realizou, em um hospital de Barcelona, Espanha, o transplante da traqueia de um homem morto para uma paciente colombiana com tuberculose. O procedimento fez com que o Instituto Karolinska contratasse Macchiarini e, em 2011, ele se transformou no primeiro médico a implantar uma traqueia artificial revestida de células-tronco do paciente com câncer.

O procedimento deu ao médico status de pioneiro no campo da medicina regenerativa e os resultados de suas pesquisas foram publicados nas mais famosas revistas científicas do mundo.

No entanto, vários colegas do médico no Instituto Karolinska levantaram dúvidas quanto aos procedimentos. Em 2014, Macchiarinifoi foi denunciado por subestimar os riscos das operações, por não ter obtido a permissão adequada e não ter informado os pacientes sobre os procedimentos.

Quatro médicos do Hospital Universitário Karolinska, que participaram do tratamento de três pacientes de Macchiarini, compararam os resultados de um dos artigos publicados pelo médico. A comparação revelou discrepâncias entre o estudo, que descrevia a primeira operação utilizando a traqueia sintética, e os históricos médicos dos pacientes.

Em novembro de 2014, a revista especializada Nature questionou Macchiarini sobre a morte de seis pacientes. Em resposta, o médico disse que nenhuma das mortes teve relação com o transplante, mas com fatores externos.

Investigações - Após as denúncias, um escândalo atingiu o Instituto Karolinska e um inquérito independente constatou más práticas de Macchiarini em sete artigos científicos publicados. Conforme o inquérito, o médico passou uma impressão falsa de sucesso em seus resultados.

Por outro lado, em agosto de 2015 o instituto concluiu que Macchiarini não teria cometido más práticas, acrescentando que as pessoas que conduziram o inquérito não tinham alcançado um nível necessário de qualidade. Uma outra acusação anterior, de um investigador da Universidade de Leuven, na Bélgica, também foi analisada pelo comitê de ética do Karolinska. Mas o médico foi novamente absolvido e o instituto prorrogou o contrato do médico, mas apenas como pesquisador.

Em 2013, ocorreu a última cirurgia realizada por Macchiarini no hospital Karolinska. Depois disso, o médico continuou operarando até 2014, na cidade russa de Krasnodar, onde possui um consultório. 

Até que, em janeiro de 2016, a revista Vanity Fair publicou um artigo afirmando que Macchiarini tinha falsificado o próprio currículo. No mesmo período, um documentário produzido pela televisão sueca relatou a situação de sofrimento de vários pacientes operados por Macchiarini e colocou em dúvida alguns métodos de seu trabalho. 

O documentário causou uma indignação pública que atingiu o Karolinska, que logo em seguida declarou que não confiava mais no médico e anunciou que não renovaria o seu contrato. Além disso, a Nature relatou que a procuradoria sueca estava investigando três operações que o cirurgião realizou enquanto trabalhava no Karolinska.

Ganhador do Nobel de medicina, o sueco Arvid Carlsson cobrou medidas radicais para o caso. De acordo com Carlsson, devido ao fato de tantas pessoas estarem envolvidas e terem atuado de forma errônea, toda a direção do instituto deveria se demitir.

Em uma entrevista para a televisão sueca, Carlsson disse ainda que trata-se de um escândalo sem igual. E acrescentou que o episódio é a pior coisa que já aconteceu na história do prêmio de medicina e, até mesmo, em toda a história do Nobel.

Para o diretor da fundação do Prêmio Nobel, Lars Heikensten, apesar da Assembleia do Nobel ser independente do Instituto Karolinska, o caso poderia afetar a forma com que o prêmio é visto. Segundo Heikensten, cada aspecto relevante do caso Macchiarini precisa ser investigado de forma rápida e determinada.



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