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29/04/14
EUA: Clínica aposta em serviços exclusivos para grandes empresários
Estratégia da Mayo é atrair clientela de altos executivos que querem seguir gerenciando seus negócios, em um ambiente de luxo e conforto, enquanto cuidam de sua saúde
Adalton Dos Anjos


KURT CARLSON, DIRETOR-MÉDICO NA CLÍNICA MAYO: investimento de US$ 10 milhões para atender pacientes endinheirados de grandes companhias americanas (Foto: Divulgação)

A nação que criou Wall Street, e a tornou um ícone no mundo dos negócios, é a mesma que vem fazendo dos seus executivos um dos filões que mais crescem no bilionário mercado americano de saúde. A fórmula é a mesma usada por grandes companhias de varejo, a exemplo da saudita Emirates – eleita a melhor companhia aérea do mundo e suas salas para lá de vips –, bem como empresas de cartões de crédito premium, como a American Express e seu arsenal de mimos para clientes endinheirados. Por trás de toda a estratégia para cativar um público exclusivo, atendimento personalizado, ambiente acolhedor e até mesmo uma certa dose de glamour.

A mais bem-sucedida investida no segmento de saúde para poucos vem da quase grife Clínica Mayo, que fatura mais de US$ 8 bilhões anualmente e possui 2,5 mil leitos. Inaugurado no final do ano passado, o novo espaço – batizado de The W. Hall Wendel Jr. Center for Executive Health, localizado em Rochester, Minnesota – é totalmente planejado para atender às necessidades de executivos ocupados e exigentes. Quem escolhe a instituição para ser atendido pode usar os escritórios privados para continuar a realizar suas transações financeiras; ou até um salão de descanso para receber amigos, consumir bebidas e petiscos saudáveis, Toda a ambientação em nada lembra um ambiente hospitalar.

O novo serviço oferecido pela Mayo a milionários americanos só foi possível, ironicamente, graças à benevolência do megaempresário W. Hall Wendel Jr., presidente da Polaris Industris – fabricante de quadriciclos e snowmobiles sediada em Minnesota. Depois de doar US$ 27,5 milhões para a construção de um centro de pesquisa musculoesquelético na Mayo, em 2007, ele financiou a expansão do programa de saúde para executivos ao repassar US$ 10 milhões à instituição. A clínica vip ocupa todo o 5º andar de um clássico prédio de 18 pavimentos, erguido em 1955. São 26 salas de exames, 18 para consulta e três para coleta de sangue e outros procedimentos.

Os programas de saúde para executivos não são recentes nos EUA. Desde a década de 1970, a Mayo, fundada em 1859, oferece serviços deste tipo na Divisão de Medicina Preventiva, Ocupacional e Aeroespacial. Com o passar dos anos, este público passou a ser visto de forma mais cuidadosa e um serviço específico foi desenvolvido – o Mayo Clinic Executive Health Program – inicialmente em Rochester, Minnesota, e hoje presente em Scottsdale, no Arizona, e Jacksonville, na Flórida. “A expansão aconteceu simplesmente porque havia pacientes que esperavam para participar do programa”, contou à Diagnóstico Kurt Carlson, diretor-médico da seção de Medicina Internacional e para Executivos da instituição. Atualmente, cerca de 900 novos pacientes chegam todos os meses à Mayo em busca do serviço. 

A maioria dos executivos que procura a o serviço tem mais de 35 anos. O preço estimado para a participação em programas deste tipo varia de acordo com o sexo e a idade do paciente. Pelo checkup básico, os homens pagam entre US$ 3,6 mil e US$ 8,9 mil e as mulheres entre US$ 3,8 mil e US$ 8,8 mil. O valor pago pode ser maior se for necessária a inclusão de consultas ou exames adicionais.

Costa Leste – Desde 1998, o Florida Hospital, que possui 2,2 mil leitos, mantém o Celebration Health Assessment (CHA), uma clínica para executivos localizada a 30km de Orlando e próximo aos parques temáticos do mundo de Walt Disney. A instituição, que cobra entre US$ 3,9 mil e US$ 12 mil pelos serviços vips, está inserida em uma estrutura de 5.600m², com espaços para a práticas de esportes, lojas, uma piscina de 25 metros e cinco raias, além de saunas seca e a vapor, jardins naturais e um spa relaxante.

O serviço voltado para os gestores de empresas integra o Healthy 100, uma filosofia do Florida Hospital que visa a motivação e educação da comunidade para a prática de um estilo de vida saudável. “Ter saúde é mais do que estar livre de doenças, implica uma sensação de bem-estar”, pontuou à Diagnóstico Yuesha Chen, diretora do Instituto de Medicina para Estilo de Vida do Florida Hospital. As atividades envolvem eventos e dicas de receitas, além de descontos em restaurantes, academias e spas da região, tanto para os pacientes, quanto para a população do entorno. Os executivos que participam do programa são incentivados a levar a cultura de saúde para suas próprias organizações.


Escritórios disponibilizados pela mayo, dentro da estrutura hospitalar: executivos podem manter a rotina de negócios e reuniões, enquanto cuidam da saúde (Foto: Divulgação)

Outras instituições, como a Stanford Medicine e o Virginia Hospital Center também criaram serviços voltados aos executivos e que associam à estrutura exclusiva uma equipe de especialistas e um sistema personalizado para a realização da maioria dos exames em até dois dias. Os testes menos complicados podem ter os resultados emitidos em até 24 horas. As empresas não revelaram o faturamento obtido com os serviços vips.

Concierge – Ao agendar a data de visita, os líderes de empresas que procuram atendimento personalizado têm uma programação específica, que toma coma base uma lógica bem conhecida desse tipo de público: tempo é dinheiro. Assim, toda a rotina de procedimentos é agendada com antecedência, com horários e duração de cada etapa da assistência predefinidos. No momento da chegada à Mayo, por exemplo, o executivo-paciente e seu cônjuge são recebidos por um concierge. No Florida Hospital, este profissional é chamado de embaixador da saúde, que acompanha o cliente durante todo o seu período de permanência na instituição. A primeira avaliação, normalmente, inclui uma consulta com o cardiologista, além de exercícios de verificação da capacidade do coração e fatores de risco do desenvolvimento de cardiopatias.“Os problemas médicos que encontramos nos executivos não diferem muito do perfil médio da população americana”, comparou Carlson. Nos prontuários, os registros são quase sempre os mesmos: hipertensão, estresse, obesidade, colesterol alto, dor nas costas e câncer. A explicação, segundo a instituição, está associada ao estilo de vida americano – cada vez mais copiado por executivos do mundo inteiro: excesso de viagens a negócios, consumo abusivo de alimentos em fast-food e dietas pouco saudáveis, além da ausência de atividades físicas regulares.

“Se não fosse pela Clínica Mayo e a insistência da minha esposa em me levar à consulta, não estaria aqui hoje”, relatou o vice-presidente de uma construtora de estradas na Flórida, George Roberts. Em depoimento no site da instituição, o executivo fez questão de registrar que o programa de saúde para executivos da Mayo salvou sua vida. Muito ocupado para fazer uma visita ao médico, Roberts acabou sendo levado pela esposa, que também tinha uma consulta agendada. O empresário sofria de refluxo e azia. Ao chegar à Mayo, Roberts passou por testes iniciais, com resultados inconclusivos, mas com um indicativo de que algo estava errado percebido durante a anamnese. “Sempre ajustamos a avaliação com base no histórico e resultados prévios da triagem”, explicou Carlson. Diante de novas informações, exames mais complexos foram realizados e revelaram que 90% da principal artéria coronariana do norte-americano estava bloqueada. Uma cirurgia de emergência foi agendada e outros especialistas passaram a cuidar do caso. Em três dias, o executivo estava de volta ao trabalho.

Outro feedback importante, colhido pelo Florida Hospital, veio da presidente da Divisão Leste do McDonald’s, nos EUA, Karen King, para quem a experiência obtida por ela e eu marido na unidade foi surpreendente. A executiva fez questão de deixar um testemunho no qual destacava a presteza da instituição ao receber todas as informações sobre uma doença pulmonar detectada no esposo. Uma equipe médica exclusiva era encarregada, entre outras coisas, de enviar respostas just in time a todos os e-mails com dúvidas enviados por King. “Não tinha ideia do quão confortável ficaria”, declarou a executiva.

No Stanford Hospital, localizado em São Francisco, na Califórnia, um CEO que está na lista da Fortune 500, e preferiu não se identificar, deixou uma nota em que comparava sua experiência na clínica de executivos com suas férias. “A equipe fez eu me sentir muito relaxado e tornou meu dia muito divertido”, escreveu. 

A instituição busca explorar o potencial turístico da costa leste americana, uma das áreas mais belas do país. Os concierges também são preparados para ajudar os clientes em suas decisões turísticas, com recomendações de locais para visitar, experiências gastronômicas e hospedagem. Além disso, o site do hospital traz links com dicas de hotéis e informações sobre como chegar à cidade.

Estresse – Mas será que, com todo aparato de comodidade oferecido por essas instituições, levar escritório para o hospital não contamina o ambiente de cura? Questionada sobre os riscos desta estratégia, a Mayo acredita que não há conflito nesse modelo de atenção, tampouco prejuízo à tranquilidade do paciente e das equipes médicas. Mesmo assim, o hospital possui um programa especial para o controle de estresse, que inclui acupuntura e até massagem.

Na mesma linha, os pacientes do Celebration Health Assessment tem a sua disposição uma capela, centro fitness e restaurantes com menus específicos,  com cardápio que dispõe de legumes e hortaliças da horta orgânica mantida pelo próprio hospital. “Temos a certeza de que o corpo inteiro está sendo cuidado mentalmente, espiritualmente e fisicamente”, justifica Karen King.

Coordenador do Programa de Avaliação do Estresse do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, o psicólogo Armando Ribeiro explicou que há uma tendência mundial das instituições de saúde em investimentos para a avaliação e tratamento do estresse. Serviços como spas e programações que proporcionem um relaxamento e bem-estar aos pacientes são cada vez mais comuns. Porém, ao mesmo tempo, o especialista minimizou os riscos da realização de tarefas laborais no decurso de um dia de checkups – possibilidade também oferecida no hospital paulista. “Se eles não estão recebendo tratamento, e sim passando por um protocolo de exames, nada impede a continuidade de alguma atividade de cunho laboral no ambiente médico-hospitalar”, pondera.

Oportunidade – Os serviços médicos para os executivos disponíveis hoje no país estão longe de toda a estrutura montada pelos hospitais norte-americanos. Algumas empresas do segmento de medicina diagnóstica e preventiva criaram programas exclusivos para a avaliação desses tipos de pacientes, como o Fleury Check-Up Executivo (SP) e o Check-up Executivo do Hermes Pardini (MG). 

Entre os hospitais, o Israelita Albert Einstein (SP) e o Moinhos de Vento (RS) seguem a mesma tendência. Em todos os serviços, a promessa é de um atendimento médico eficiente, coordenado e ágil, para que o executivo seja devolvido ao seu ambiente de trabalho o mais rápido possível. Os exames e consultas são realizados entre quatro e seis horas e as instituições não oferecem nada mais do que acesso à internet, armários e salas privativas. Para além da diferença de estatura, o exemplo americano mostra que hospitais brasileiros estão diante de um filão em franco crescimento. À espera, quem sabe, de uma dose maior de ousadia. 

*Matéria publicada na revista Diagnóstico, n° 24.

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