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09/05/17
Com crise, provedor da Santa Casa fala em revisar contratos e cortar pessoal
Antônio Penteado Mendonça faz um balanço sobre as gestões passadas e antecipa algumas ações administrativas
Folha de São Paulo

O novo provedor da Santa Casa de São Paulo, o advogado Antônio Penteado Mendonça, 64, é a quinta geração de sua família a assumir um cargo de comando na instituição. Mas ele será o primeiro deles a enfrentar ali uma crise financeira tão aguda. Para isso, anuncia que vai manter austeridade nas contas, montar uma equipe de auditoria e, ainda, realizar novos cortes de pessoal.  "O barco está navegando? Não. O barco está boiando. A situação é muito, muito delicada", diz o provedor, que pretende promover uma grande mudança na forma de administrar o complexo hospitalar, com a formação de uma equipe executiva. Sem fazer críticas à polêmica administração de Kalil Rocha Abdalla, apontado como o gerador da dívida de R$ 700 milhões da instituição, Mendonça diz que a Santa Casa está com um deficit mensal de R$ 10 milhões e que será necessário "mexer" no recente contrato entre o hospital e a Caixa Econômica Federal, de R$ 360 milhões, por causa dos juros firmados. A Santa Casa tem 8.300 funcionários e faz 2.000 cirurgias e 90 mil atendimentos emergenciais e ambulatoriais por mês. Além do hospital central, administra mais três unidades.

RAIO-X
Nome: Antônio Penteado Mendonça, 64
Formação: advogado pela USP, com especialização em direito ambiental e seguros
Carreira: é professor na FGV e na USP; cronista e escritor, já foi presidente da Academia Paulista de Letras e da Associação de Seguros (APTS) e vice-presidente do CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola)

Folha- Que Santa Casa o sr. recebe de José Luiz Setúbal?

Antônio Penteado Mendonça - A gestão do Setúbal foi atípica, de salvação nacional. Não tinha possibilidade de plano B. Do jeito que o Kalil deixou, com o fechamento do pronto-socorro, não tinha outra alternativa: tinha que fazer o que ele fez. A Santa Casa está aberta porque ele fez, teve coragem de peitar, fechar, despedir, negociar, contar a verdade. E o hospital sofreu as consequências: essa restrição de crédito brutal, falta de financiamento maior ainda.
O Setúbal pegou naufragando e entrega um barco boiando. O barco está navegando? Não. Está boiando. A situação é muito, muito, muito, muito delicada. A dívida é monstruosa, mas o problema mais sério é o deficit mensal ao redor de R$ 10 milhões.

Esse valor era conhecido?

Não. Esse deficit pegou a gente, um pouco, de calça curta. Isso é apavorante. Mais para a frente, vamos ter que mexer no contrato com a Caixa, que tem juro pré-fixado de mais de 16% ao ano. Com a inflação de 4%, é impossível pagar. Em agosto, setembro, do ano passado tínhamos conseguido um certo equilíbrio, mas agora voltou o deficit.

Mas ainda há risco de a Santa Casa fechar as portas?

Está completamente afastado. Neste momento, a Santa Casa não fecha as portas, de jeito nenhum.

E os atrasos de pagamento de funcionários?

Nos preocupa muito. Temos uma dívida séria, representada por um 13° [salário] não pago, mais algumas outras pendência. Tem dinheiro hoje para pagar isso? Não. Na medida que alguns vão saindo, no acerto trabalhista, estão recebendo. Não consigo admitir que o bom funcionário esteja sendo prejudicado pela situação da organização que ele trabalha. É prioridade desta gestão [solucionar isso].

Há previsão é de mais cortes?

Sim, provavelmente haverá. É cedo para dizer quantos serão cortados, mas, com certeza, será muito menor do que o último corte, quando foram 1.300. Mais de 300, em hipótese nenhuma.

O que o fez aceitar a provedoria da Santa Casa?

Tem como recuperar a Santa Casa. Ela não é um beco sem saída. Vamos profissionalizar a Santa Casa. Pegar uma estrutura de 1498 e trazer para o século 21. A mesa administrativa vai virar um conselho consultivo, a provedoria vai virar um conselho de administração. Embaixo disso, uma diretoria profissional que vai fazer a gestão, de acordo com as diretrizes passadas pela provedoria, que segue o conselho de administração. Não haverá mais a possibilidade de um Kalil [Rocha Abdalla] chegar e dizer: "Fecho o pronto-socorro". O senhor não fecha nada.

Como vê a gestão do Kalil?

A gente tem que olhar a gestão do Kalil dentro da história. O Kalil foi eleito, eu participei diretamente da primeira eleição dele. E, na primeira gestão, ele foi muito bom provedor. A Santa Casa tinha uma dívida de quase R$ 400 milhões à época e essa dívida foi zerada. Rapidamente zerada e isso aconteceu por competência do pessoal. Aí, tem um segundo momento do Kalil, que a dívida voltou a crescer porque ele fez uma série de investimentos e apostas, algumas deram muito certo, mas outras não. A Santa Casa chegou a ter 39 unidades de saúde sob o controle dela. Dentro do planejamento da época, estava absolutamente correto.
Aí, o Kalil teve um momento que até hoje eu não consigo entender o que passou na cabeça dele, que foi o fechamento do pronto-socorro. Além de tudo, foi desnecessário. Ele não precisava fechar o pronto-socorro como ele fechou. Até poderia ter que fechar, mas não pondo uma placa no portão às 8h de uma terça-feira.
Então, esse fato eu não desculpo o Kalil em hipótese alguma. Porque essa crise toda é consequência disso. Então, não se pode dizer que Kalil foi um desastre para a Santa Casa. Ele cometeu um erro que foi uma tragédia para Santa Casa [Kalil sempre negou qualquer problema em sua gestão].
 
Já recuperou a imagem?

A imagem da Santa Casa já melhorou, mas meio que por inércia. Estamos conversando com duas grandes agências brasileiras projeto de "branding" [trabalhar a marca] da Santa Casa. A finalidade é buscar dinheiro de grandes empresas brasileiras. Não um investimento social. Minha ideia é ter 200 investindo todos os anos na Santa Casa.
Estamos criando também uma auditoria, ligada diretamente ao provedor, que vai ter autorização e capacidade operacional para entrar em qualquer lugar da Santa Casa, sem pedir licença para ninguém, sem hora marcada, e sem qualquer necessidade de acusação e de suspeita. A maioria dos nossos profissionais é de gente comprometida. Mas há uma minoria que pode ser muito perniciosa à instituição.

Que legado quer deixar?

Se a Santa Casa estiver funcionando bem daqui três anos, não quero mais nada. O funcionar bem pressupõe a impossibilidade uma crise, como as crises sistêmicas dela, que são crises decorrentes do excesso de poder em uma pessoa.



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