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22/04/15
Como a rede DOr se tornou a maior rede de hospitais do país
Aos 69 anos, Jorge Moll está prestes a se tornar o número 1 da lista dos bilionários no país devido ao impressionante crescimento de seu grupo de hospitais
Exame

São Paulo - O mercado de saúde brasileiro produziu uma safra de bilionários na última década, como Edson de Godoy Bueno, fundador da Amil — vendida para a americana United Health, em 2012 —, o cearense Francisco Deusmar de Queirós, dono da rede de farmácias Pague Menos, e José Seripieri Junior, fundador da empresa de gestão de planos de saúde Qualicorp. Mas nenhum é tão discreto quanto o cardiologista Jorge Moll Filho, fundador da Rede D’Or São Luiz. As informações são da Exame.

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Aos 69 anos, Moll está prestes a se tornar o número 1 da lista dos bilionários no país devido ao impressionante crescimento de seu grupo de hospitais. Em 2000, o executivo deixou de ser dono de um punhado de hospitais e de uma rede de laboratórios de imagem, a Cardiolab, para se tornar o dono da maior rede independente de hospitais privados do país. Avaliada entre R$ 15 bi e 18 bilhões, a Rede D'Or é formada por 27 hospitais distribuídos entre Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Pernambuco.

Moll possui 72% da empresa e o seu maior sócio é o banco de investimento BTG Pactual, dono de 23% da empresa. Em uma conta rápida, a fatia de Moll vale entre 11 bilhões e 13 bilhões de reais. Os números grandiosos da Rede D’Or são resultado de seu crescimento e uma recente mudança na legislação deverá ajudá-la a dar um salto ainda maior. Trata-se da da abertura do mercado de hospitais privados para investidores estrangeiros. 

Agora, quem quiser pode vender o negócio para um estrangeiro ou abrir o capital na bolsa. Durante a época do mercado fechado, a Rede D’Or aproveitou isso da melhor forma. Para tornar-se sócio de Moll, o BTG comprou debêntures conversíveis em ações, já que tem investidores estrangeiros em seus fundos. No ano da entrada do BTG, Moll aproveitou a ausência de concorrentes para ir às compras, a partir em 2010. Foram 11 aquisições em cinco anos. Em janeiro, com o império já montado, a limitação aos estrangeiros no mercado de hospitais foi derrubada pelo governo.

Atualmente, o fundo de private equity americano Carlyle, disposto a pagar entre 1,5 bi e 1,8 bilhão de reais, negocia a compra de 10% na rede. Daí a avaliação da empresa em até R$ 18 bilhões. O negócio está tão encaminhado que, no final de março, as duas partes fizeram um coquetel de confraternização, no Rio de Janeiro. Mas ainda falta acertar alguns detalhes. Os executivos do Carlyle têm pedido garantias de resultados, que Moll reluta em dar e isso só deve ser resolvido em abril.

É provável que o dinheiro da venda dessa pequena participação seja utilizado pela Rede D’Or para reduzir a dívida - que hoje equivale a duas vezes e meia a geração de caixa — e financiar o plano de dobrar o número de leitos em cinco anos. 

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Aos 69 anos, Jorge Moll Filho leva uma vida classe média-alta. Vive em um apartamento alugado na zona sul do Rio de Janeiro e não compra imóveis, segundo diz a amigos, porque prefere investir na empresa. E tem sido assim desde o início.

A Rede D’Or nasceu de uma tragédia. Em 1994, aos 49, quando Moll completava 17 anos no controle do grupo de clínicas de diagnóstico Cardiolab, ele Tinha dinheiro suficiente para se aposentar, mas decidiu arriscar. 

O imigrante português Gaspar D’Orey, dono de um hotel quatro estrelas no bairro de Copacabana, o Copa D’Or, estava doente e precisava voltar para Portugal. Antes, precisava saldar uma dívida com o amigo e sócio Jacob Barata, e o português entregou o hotel como parte do pagamento. Parte da dívida foi assumida por Moll, a quem D’Orey tinha emprestado dinheiro para a expansão da Cardiolab.

Para pagar as dívidas, Moll passou a se encontrar mensalmente com um dos filhos de Barata, Daniel. Nesses encontros, o cardiologista convenceu Daniel de que transformar o hotel Copa D’Or em hospital seria um grande negócio. Daniel se entusiasmou, mas o pai. Em dezembro daquele ano, Daniel foi sequestrado e, em janeiro de 1995, morto. Jacob Barata decidiu, então, realizar o desejo do filho e levar à frente a sociedade com Moll.

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A ideia de abrir um hospital surgiu da constatação de que os moradores da zona sul carioca eram mal atendidos. O Rio de janeiro possuía poucos bons hospitais particulares, como Samaritano, PróCardíaco, Clínica São José, e cada um deles tinha menos de 100 leitos.

Cerca de um terço dos pacientes do Albert Einstein (SP), chegava pela ponte aérea. Ao mesmo tempo que buscava licenças para o Copa D’Or — o que durou quatro anos —, Moll foi convidado a se tornar cotista de um hospital em construção na Barra da Tijuca, o futuro Barra D’Or, e acabou comprando a participação dos outros médicos com empréstimos de Jacob Barata.

Em 2001, quando inaugurou o Quinta D’Or, em São Cristóvão, Moll já tinha 10% dos 8.200 leitos da cidade. Em 2007, Barata saiu da sociedade e é hoje um dos maiores operadores de ônibus urbanos do Brasil e de Portugal. 

Além da capacidade financeira, o sucesso da Rede D’Or aconteceu devido à ação de juntar equipamentos modernos com serviços de hotelaria. Os primeiros hospitais tinham chef de cozinha, cabeleireiro e manicure, por exemplo. 

Logo que começou a investir em hospitais, Moll foi conhecer a clínica Mayo, em Rochester, Minnesota, nos Estados Unidos, referência mundial no setor. Ele anotou praticamente tudo, desde o circuito de atendimento dos pacientes, passando pela arquitetura, até o conceito de emergência aberta — qualquer um que chegasse seria atendido, independentemente de ter plano de saúde, e cobrado futuramente. 

O momento de início de um ciclo de expansão inédito para o mercado de saúde privado no país também ajudou. Desde 2004, o país gerou cerca de 15 milhões de empregos formais, o que multiplicou o número de pessoas com planos de saúde: de 35 milhões, em 2004, para 51 milhões, no ano passado. 

Além disso, os brasileiros deixaram para trás os hospitais públicos sucateados e passaram a usar mais a rede privados. De 2009 para cá, o faturamento do setor triplicou, para 17 bilhões de reais. Em 2010, a Rede D’Or já era o maior grupo de hospitais independentes do país, com 13 unidades. 

No mesmo ano, Moll recebeu a injeção de dinheiro do BTG Pactual, o que o fez deixar a concorrência definitivamente para trás. Um fundo criado pelo banco investiu 600 milhões de reais na rede. Capitalizada, a Rede D’Or inaugurou três hospitais no Rio e comprou outros 11, sendo nove no estado de São Paulo (entre eles o São Luiz, na zona sul da capital). 

Atualmente, são Paulo é o maior mercado da empresa, com 1.800 leitos, mais do que os 1.400 do Rio, e desde então o faturamento da rede triplicou, para 5 bilhões de reais. Já o lucro aumentou cinco vezes, para 320 milhões.

Agora, a participação do BTG vale mais de R$ 3 bilhões e, além do dinheiro, o banco transferiu também a cultura de gestão dos bancos de investimento. Os 20 diretores da Rede D’Or passaram a ter metas agressivas e a receber bônus. Em 2013, Moll contratou Heráclito Brito, ex-presidente da Qualicorp, para tocar a empresa.

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Até aqui, tamanho era uma vantagem para a D’Or porque, nesse mercado, a escala reduz os custos da compra de insumos e dá poder de fogo na negociação com planos de saúde. Mas, daqui para a frente, a Rede D’Or precisará gerir problemas relacionados com o gigantismo. A dificuldade para crescer é o mais óbvio deles.

Até hoje, a empresa investiu principalmente no eixo Rio-São Paulo. A rede está construindo um hospital em Copacabana, voltado para a classe A, com 150 leitos, e outro em São Caetano, São Paulo, com 160 leitos. A rede também estuda a possibilidade de comprar os hospitais Santa Helena, em Brasília, e o Unimed-Rio, na Barra da Tijuca, avaliado em 500 milhões de reais.

Mas, como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) tem dado sinais de que vai analisar e melhor as novas aquisições, para atingir a meta de dobrar em cinco anos a companhia precisará chegar a novas cidades. Em 2013, a compra do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, foi condicionada à venda de outro hospital da rede, o Santa Luzia. Mas a aquisição acabou cancelada.

Em 2012, a rede D'OR teve de se comprometer a não construir nada em um raio de 10 quilômetros do hospital São Marcos, em Recife, comprado no mesmo ano. Agora, será necessário crescer para novas cidades e isso tornará a gestão do grupo ainda mais complexa. 

O foco são as cidades com maior número de clientes dos principais planos de saúde da rede: Bradesco, SulAmérica. Em Salvador, a rede D'Or já negocia com o hospital Aliança.

Outro desafio para cumprir a meta de crescimento vendida a investidores será aumentar a concorrência. Outros hospitais tradicionais estão em meio a um ciclo de expansão, principalmente os que são voltados para a alta renda, que é o mesmo foco da Rede D’Or. O paulistano Sírio-Libanês já está dobrando sua capacidade e pretende construir a primeira unidade no Rio de Janeiro, com 200 leitos, em 2016.

Na Barra da Tijuca, a Amil inaugurou, em 2014, o complexo de hospitais Americas Medical City, com 600 milhões de reais de investimento e dois hospitais do grupo, o Vitória e o Samaritano. Edson Bueno também está ampliando sua rede de hospitais, a Impar, que já possui oito unidades.

Além disso, redes americanas e europeias, algumas com mais de 100 hospitais e com crescentes investimentos em países emergentes, podem dificultar os planos de Moll, já que estão liberadas para investir no país.

As informações são da revista Exame.



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