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15/04/13
Entrevista: os desafios da certificação de instituições de saúde em todo o mundo
Para Paula Wilson, presidente da JCI, países do BRIC - Brasil, Índia e China - são uma parte-chave na estratégia de expansão da JCI. Gestora americana falou com exclusividade à Diagnóstico
Da Redação


A americana Paula Wilson, presidente da Joint Commission international (JCI): crescimento de 50% no Brasil nos últimos três anos (Foto: Divulgação)

A americana Paula Wilson definitivamente não é um gestora de gabinete, como o mundo dos negócios gosta de se referir a executivos que fazem do escritório um QG para exercer o comando de suas empresas. Natural de Chicago, Wilson corre o mundo todos os anos visitando países e hospitais dos cinco continentes filiados à Joint Commission International (JCI) – entidade presidida por ela e considerada uma das mais prestigiadas certificadoras do planeta. Formada em Serviços de Assistência Social pela Universidade Estadual de Nova Iorque e com mais de 30 anos de experiência na área assistência médica, a executiva, aliás, nunca viajou tanto desde que assumiu o comando da entidade, em agosto de 2011. De feiras na Ásia, como a Arab Health, a palestras no Brasil, China e Rússia, seu maior desafio tem sido difundir os preceitos da boa segurança do paciente e, claro, fincar a bandeira da JCI em um número cada vez maior de instituições e países. Somente no Brasil,  a certificação está presente em 26 hospitais, com crescimento de 50% nos últimos três anos. No mundo, quase 500 hospitais exibem com orgulho o selo dourado da JCI em suas fachadas e websites. “Os países do BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – são uma parte-chave na estratégia de expansão da Joint Commission International (JCI)”, revela Paula. Segundo ela, a escalada de hospitais em busca de estabelecer padrões de segurança na assistência é cada vez mais crescente, no mundo inteiro. Uma tendência que não garante, contudo, a eliminação do erros na prestação de serviços médico-hospitalares. “Uma assistência segura exige um compromisso implacável com a melhoria da performance”, defende a executiva, em tom professoral. Sobre as estratégias de mercado por trás da certificação ela admite que, mesmo nos EUA e Europa, operadoras ainda não praticam preços diferenciados para instituições que possuem JCI. Para quem pretende utilizar a certificação exclusivamente para fins comerciais, a executiva, ao melhor estilo americano, aconselha: “Usar a JCI só para lucrar com turismo médico é um erro”, afirma a mandatária. Em um dos intervalos de sua rotina entre a sede da JCI, no estado de Illinois – meio-oeste americano –, e aeroportos do mundo inteiro, Paula Wilson concedeu a seguinte entrevista à Diagnóstico.

Diagnóstico – A JCI é líder mundial em acreditação. Mesmo assim, tem presença irrisória em grandes nações da Europa, como França (nenhum hospital) e Alemanha (três). Há barreiras culturais a serem transpostas? 
Paula Wilson  A JCI tem tido uma presença ativa na Comunidade Europeia desde que começamos a acreditar instituições de assistência médica, em 1994. Temos uma presença robusta em muitos países, incluindo Itália, Irlanda, Dinamarca e Turquia. O governo francês tem um forte sistema nacional de acreditação que tem sido, até o momento, suficiente para os hospitais e outros provedores de assistência médica na França. A JCI tem uma presença modesta na Alemanha, mas nós esperamos crescer lá no futuro. Também estamos  crescendo em lugares como a Holanda e a Bélgica. Então, estamos otimistas quanto a oportunidades futuras nessa parte do mundo. Como uma organização internacional de acreditação, sempre temos que ser atentos e respeitosos em relação às normas culturais de todos os países onde trabalhamos. Acredito que temos sido muito exitosos a esse respeito. 

Diagnóstico – Desde a primeira acreditação na China, em 2003, mais de 20 hospitais receberam o respaldo da JCI naquele país. Como a senhora avalia a evolução da sua instituição no maior mercado emergente do mundo? 
Paula – Estamos extremamente orgulhosos pelo sucesso que atingimos até agora na China. Enquanto ainda estamos nos estágios iniciais de impactação da qualidade da assistência médica nesse importante país, reconhecemos o enorme potencial que há lá. Nossos planos atuais são expandir substancialmente a presença da JCI na China, não apenas os serviços de acreditação, mas também como um educador-chave para os trabalhadores de assistência médica chineses. Preciso dizer que, apesar de sermos mais conhecidos pelos serviços de acreditação, também oferecemos uma quantidade substancial de treinamento e educação para melhoria da qualidade do sistema de assistência médica. Acreditamos que nossos serviços educacionais vão ajudar a melhorar a saúde na China. 

Diagnóstico – Apesar do foco da JCI na segurança do paciente, erros médicos ainda ocorrem em hospitais certificados pela JCI nos Estados Unidos e na Europa. A senhora tem um diagnóstico para essa questão?
Paula – Essa é uma boa pergunta. Acreditação não é uma garantia de perfeição na prestação da assistência médica. A acreditação JCI fornece a uma organização o marco para criar sistemas de assistência seguros. E também fornece uma metodologia para mensurar constantemente e monitorar a sua performance. Então, um passo básico para prevenir erros é obedecer os nossos padrões. O caminho para evitar erros depende do fator humano na organização de assistência médica. Uma assistência segura requer um compromisso implacável com a melhoria da performance. Isso exige que os líderes entendam a cultura da segurança e sejam levados por avaliações, métrica e autorreflexão. Acreditamos que a JCI fornece aos profissionais de assistência médica a arquitetura necessária para alcançar melhores padrões de qualidade e segurança. 

Diagnóstico – A Joint Commission surgiu em 1951 com o objetivo de ser um padrão de referência para o setor de saúde nos Estados Unidos. O que mudou desde então na realidade dos hospitais americanos que passaram a ter um selo de referência internacional? 
Paula – A ideia de inspecionar e avaliar o desempenho de hospitais antecede a criação da Joint Commission em seus 33 anos de existência. Em 1918, o Colégio Americano de Cirurgiões propôs que o desempenho dos hospitais deveria ser avaliado. Isso levou à criação da Joint Commission, em 1951. Tanto  a assistência médica quanto a Joint Commission experimentaram enormes mudanças nos últimos 62 anos. Mesmo assim, prestar serviços de saúde é muito mais difícil atualmente, devido à complexidade da medicina e da assistência médica, do que no passado. Por outro lado, há muito mais opções para tratar os pacientes. E isso é uma coisa boa. Mas as chances de erros na prestação da assistência também aumentaram em larga medida.

Diagnóstico – Muitas instituições buscam a JCI como estratégia negocial para se inserir no mercado de turismo médico. Trata-se de uma boa razão para um hospital ser certificado?
Paula – Sabemos que turismo médico ou viagens médicas são, muitas vezes, parte da análise racional que uma organização faz ao buscar a acreditação da JCI. Se atrair o turismo médico é a única razão pela qual uma organização     busca a acreditação da JCI, isso não vai funcionar bem para essa organização. Nossos padrões e processos de pesquisa são extremamente rigorosos e desafiadores. Eles se destinam a conduzir aos mais altos níveis de qualidade e segurança  no atendimento aos pacientes. Organizações de assistência médica devem estar comprometidas com a segurança do paciente e com a qualidade da assistência médica para serem exitosas no processo da JCI. 


Albert Einstein, de São Paulo: outros 25 hospitais brasileiros possuem a acreditação da Joint Commission International (JCI) (Foto: Divulgação)

Diagnóstico – No Brasil, as operadoras de saúde não costumam bonificar os hospitais que possuem acreditação internacional. Como é essa realidade em outros países?
Paula – Seguradoras de saúde em outras nações já “reconhecem” a acreditação internacional e costumam direcionar pacientes com casos complexos e caros para as unidades acreditadas. A recompensa para a organização – e isso é recorrente em todo o mundo – é um aumento no número de pacientes  segurados. 

Diagnóstico – A senhora representou a JCI na Arab Health, realizada em Dubai, em janeiro passado. Qual a importância da Ásia no processo de expansão da instituição?
Paula – Esta região é muito importante para a JCI e é aquela em que veremos a taxa mais rápida de crescimento. Países como os Emirados Árabes Unidos e o Reino da Arábia Saudita estão expandindo seus sistemas de saúde e estão empenhados em melhorar a qualidade do atendimento nesses sistemas. Assim, a combinação de crescimento mais o compromisso com o atendimento de alta qualidade torna esta uma região fértil para nós.

Diagnóstico – Qual o papel dos BRICs na estratégia de expansão da JCI?
Paula – Os países do BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – são uma parte-chave na estratégia de expansão da JCI. Fazemos negócios atualmente em cada um desses países e vemos todos eles como uma grande oportunidade de crescimento. 

Diagnóstico – A JCI desenvolveu, juntamente com a International Finance Corporation (IFC), um guia de autoavaliação, que pode ser baixado na internet, para os hospitais que desejam. Que impacto isso terá na rotina dos hospitais?
Paula – O guia IFC destina-se ao uso como uma “qualidade due diligence”, juntamente com “saúde financeira due diligence”. Assim, os bancos e outros investidores na área da saúde têm uma ferramenta para uso em uma avaliação equilibrada de uma organização – uma taxa de retorno que abrange ambas as questões: financeira e de qualidade.

Diagnóstico – Este ano vai ser publicada a quinta edição dos Padrões Internacionais para Hospitais e Centros Médicos Acadêmicos. O que esse documento traz de mais novo para as instituições credenciadas?
Paula – Ele vai dar ênfase ao papel dos líderes das organizações em determinar as prioridades para a melhoria. Os novos padrões vão fortalecer ainda o papel dos líderes na condução da melhoria de performance. Servirão, por exemplo, para avaliar como os líderes usam os dados na compra e em outras decisões sobre a rede de fornecimento dos hospitais, para evitar a aquisição de equipamentos, medicamentos e outros itens falsificados.  

Diagnóstico – Em agosto, o Brasil sediará o II Congresso Internacional de Acreditação, cujo tema será O Presente e o Futuro da Segurança do Paciente. Qual a sua expectativa?
Paula – O Brasil tem uma economia em expansão, com o crescimento do setor privado de saúde. O turismo, a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 vão trazer milhares de visitantes, pressionando o sistema de saúde. É, portanto, necessário aumentar rapidamente a capacidade de os hospitais públicos e privados oferecerem atendimento de alta qualidade, seguro e eficiente aos visitantes e cidadãos no futuro. A JCI está ansiosa para ser um parceiro nessa empreitada. A JCI também está ansiosa para participar do Fórum 2013 Internacional sobre Qualidade e Segurança em Cuidados de Saúde, a se realizar em Londres. Estaremos lá.

*Entrevista publicada na revista Diagnóstico n° 19.



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