home notícias Gestão
Voltar Voltar
28/08/12
Para Paul Terry, empresas devem investir na saúde dos empregados
Executivo da StayWell fala com exclusividade ao Portal Diagnósticoweb e compara programas de saúde do Brasil e Estados Unidos
Danielle Villela | Tradução: Marcel Bane

Atração internacional em diversos congressos com temáticas relacionadas à promoção de saúde e qualidade de vida no ambiente de trabalho, Paul Terry, CEO da StayWell Health Management, empresa líder em gestão de saúde nos Estados Unidos, concede entrevista exclusiva ao Portal Diagnósticoweb. Terry, que também atua como editor do American Journal of Health Promotion, discorre sobre como grandes empresas têm investido na promoção de saúde do trabalhador, além de comparar os programas de saúde brasileiro e norte-americano. Confira abaixo algumas de suas ideias!

Diagnósticoweb – Qual a sua avaliação sobre a saúde do trabalhador americano?
Paul Terry – Este é um dos trabalhos desenvolvidos pela StayWell Health Management, na qual atuamos todos os dias na tentativa de melhorar a saúde do empregado nos Estados Unidos. Nosso trabalho se estende não apenas à redução dos riscos para a saúde, mas também à proteção das pessoas consideradas em situação de alto e baixo risco. Considero que o trabalhador americano está em uma era de sorte. Digo isto porque os empregadores estão cada vez mais interessados em investir na melhoria da saúde do empregado. Essa é a boa notícia. A má notícia é que a população norte-americana está envelhecendo rápido e está sofrendo uma contínua e alarmante epidemia de obesidade. É por isto, que, pela primeira vez, uma parcela dos jovens está sofrendo com vários tipos de diabetes. Estamos descobrindo que o aumento das doenças crônicas no nosso país explica, juntamente com outros fatores, a crescente preocupação dos empregadores com os custos relativos a este tipo de problema.

Diagnósticoweb – É possível estimar um percentual mínimo de investimento de uma empresa com a saúde dos seus trabalhadores?
Terry – O custo ainda é muito variável entre as empresas. Estima-se que um investimento mínimo seria algo entre U$ 75 e U$ 100 anuais por funcionário. Estes valores podem chegar a U$ 300 e U$ 400. A explicação mais plausível para o crescente interesse das empresas neste investimento está no retorno positivo resultante desta ação. A maioria das pesquisas demonstra claramente que para cada dólar investido o retorno é de cerca de três dólares na conta dos custos com saúde. Na verdade, as pesquisas mostram que esses programas estão se pagando. Não podemos deixar de salientar que os mesmos são capazes de ter um impacto na produtividade, na retenção dos empregados e também sobre questões de recrutamento.

Diagnósticoweb – Ao mesmo tempo em que grandes empresas investem na promoção de saúde do trabalhador, países como Brasil e China ainda enfrentam situações análogas à escravidão. Qual o papel dos programas de gestão de saúde neste cenário?
Terry – Há limites para quão eficaz um programa de melhoria da saúde do empregado pode ser, se todos os seus propósitos não forem empregados nas possibilidades do indivíduo, nas mudanças de comportamento individuais e nas mudanças nos processos de saúde. As mudanças de comportamento, no que diz respeito à saúde, sempre foram extraordinariamente influenciadas pela cultura e pelo ambiente. Um programa de saúde do trabalhador se torna muito menos eficaz se este empregado vive e trabalha todos os dias em um ambiente que torna difícil a opção por escolhas saudáveis, se ele não tem acesso à comida decente, se não tem intervalos razoáveis de trabalho ou se tem um ambiente de alta tensão. Não adianta introduzir um programa de saúde do empregado sem adotar métodos progressistas para a melhoria do ambiente de trabalho. 

Diagnósticoweb – O Brasil vem enfrentando problemas de saúde graves gerados no ambiente de trabalho, como doenças relacionadas ao estresse e às Lesões por Esforço Repetitivo (LER). Como as empresas podem ajudar seus funcionários diante desta situação?
Terry – O estresse continua a ser uma preocupação crescente nos Estados Unidos. Devido ao fato de não termos nos recuperado totalmente da recessão, continuamos presenciando pessoas tentando manter seus empregos e conciliando diferentes tarefas. Para gerenciar esta situação, sugiro a aplicação de duas abordagens eficazes. A primeira diz respeito ao emprego de técnicas e métodos de redução do estresse através de programas educativos tais como yoga, massagem progressiva de relaxamento ou health coaching. Estes métodos, que são oriundos dos conceitos de gestão do estresse, chamam a atenção para o fato de a empresa investir na formação dos seus supervisores, que devem estar preparados para reconhecer se os funcionários estão com sintomas relacionados à depressão ou estresse. Já a segunda abordagem versa sobre as políticas que a empresa deve adotar, com flexibilização de horários e manutenção de um canal aberto e honesto de comunicação com os funcionários. O ideal é criar um ambiente onde os empregados sejam reconhecidos e recompensados pelo bom trabalho desempenhado, onde há senso de equidade, justiça, equilíbrio e autêntica preocupação com o bem-estar. O segredo do sucesso está na combinação entre oferta de aprendizado e mudança na cultura da empresa, sempre com vistas à melhoria do ambiente de trabalho.

Diagnósticoweb – Em seu artigo, o senhor diz que o Brasil tem a chance de passar ao largo de alguns aspectos da inovação nos cuidados de saúde, aprendendo com as tentativas e erros das reformas de saúde nos EUA. Quais erros devem ser evitados?
Terry – Bem, eu descreveria esses erros em três categorias. A primeira se refere ao financiamento da saúde. Nos Estados Unidos, ficamos por muito tempo com uma tradição de modelo de reembolso de taxa por serviço prestado, que funciona bem para motivos de cuidados com doentes, em termos de dar apoio a pessoas que já têm doenças, mas é menos propício à concentração na prevenção. A segunda categoria se refere à medição, integração, monitoramento automatizado e vigilância dos dados da saúde. Neste momento, existem múltiplos e diferentes sistemas de informações. Não há uma medida padrão entre as várias condições de saúde que nós tratamos e tentamos acompanhar. Por isso, temos que fazer tudo de novo. É preciso entrar em um acordo o mais rápido possível sobre as medidas-padrão a serem utilizadas e melhorar o quesito transparência. A terceira categoria diz respeito à melhoria dos processos de atendimento. É preciso deixar de gastar tempo à procura de defeitos e tentando descobrir como corrigir problemas que ocorreram no atendimento. Acredito que a maioria das pessoas deve concordar que esse ponto ainda precisa de reformas e vamos ter que nos concentrar nisso mais cedo ou mais tarde. Se tivermos uma estrutura de reembolso que nos torne responsáveis por uma população maior, então, provavelmente, estaríamos mais motivados para ser melhores na medição das doenças e ter um sistema melhor de monitoramento da saúde da população.

Diagnósticoweb – O senhor também reconhece que foi o maior beneficiário dos ensinamentos dos líderes no Brasil. O que os Estados Unidos podem aprender com os programas de saúde brasileiros?
Terry – Conheci o Dr. Ricardo De Marchi [presidente da CPH], pude ver de perto seu trabalho e estou muito impressionado com sua habilidade e com a importância da sua visão para o movimento de saúde da população em São Paulo e no Brasil. Ele também me apresentou a alguns de seus colegas que trabalham na indústria farmacêutica, em outras empresas e no desenvolvimento de liderança. O que eu aprendi é que eles parecem ter uma grande capacidade de cooperar e coordenar entre os vários setores. Vi líderes bem posicionados, realizados e muito talentosos trabalhando em projetos comunitários de saúde para a população mais pobre e, no dia seguinte, eles estavam em seus escritórios executivos, trabalhando em modelos de negócios para melhorar o acesso aos medicamentos e aos serviços médicos. 

Diagnósticoweb – A expectativa de vida da população está aumentando e, com isso, os trabalhadores têm passado mais tempo no mercado de trabalho. Como os gestores de saúde corporativa devem se preparar para enfrentar os desafios dessa nova configuração?
Terry – Essa é uma consideração muito importante, especialmente no que se refere à forma como as empresas organizam, comunicam e promovem seus programas, porque o que aprendemos na nossa pesquisa é que um programa de tamanho único não cabe em todas as empresas da mesma maneira. Observamos que em programas que têm uma concentração maior de mulheres, por exemplo, o engajamento dos homens pode ser mais difícil. Em um local de trabalho que tem uma maior concentração de jovens, pode ser mais difícil para os idosos participar. Assim, os programas de promoção da saúde realmente têm que ser conscienciosos a respeito dos diferentes aspectos demográficos, com segmentação para as diferentes faixas etárias e sexos. Alguns dos atributos do programa precisam ser diferentes, tem que haver uma maneira diferente de comunicação e um tipo diferente de oferta de educação.

Diagnósticoweb – Muitos especialistas do setor acusam os planos de saúde brasileiros de serem fortemente centralizados na doença. Qual a sua opinião a respeito?
Terry – Essa questão também é um entrave nos Estados Unidos. Precisamos compreender as origens do problema de saúde, entender o porquê de as pessoas adotarem práticas menos saudáveis. Com estas respostas em mãos teremos subsídios necessários para evitar o surgimento das doenças. Uma das soluções possíveis é investir em educação para a saúde nas escolas e concentrar os esforços na juventude, tornando-a mais familiarizada com uma dieta saudável, oferecendo atividade física e material educativo sobre os malefícios do fumo, dentre outros.

Diagnósticoweb – É possível um sistema de cuidados de saúde que seja bom para pacientes e que interesse ao mercado?
Terry – Em qualquer parte do mundo há a necessidade de continuar a fornecer serviços de maneira eficiente e justa, mas ao mesmo tempo, espera-se certo nível de prestação de contas e responsabilidade por parte daquelas pessoas que estão se beneficiando com este serviço. Em geral, porém, as organizações mais bem sucedidas são as que encontram o verdadeiro alinhamento saudável entre as necessidades dos funcionários e da missão e visão do local de trabalho. Sempre que temos um bom alinhamento, onde os líderes de uma organização entendem que o investimento na saúde dos empregados será sempre bom para os negócios, será sempre um ponto positivo em benefício do crescimento do negócio e melhor serviço para os clientes. Esta é a visão que eu acho que a maioria dos líderes progressistas deve buscar.

Diagnósticoweb – O trabalhador da saúde, a exemplo de médicos e enfermeiros, vivenciam rotinas de trabalho no Brasil cada vez mais estafantes. Os hospitais são ambientes perversos, nesses aspectos?
Terry – Este também é um paradoxo na realidade dos Estados Unidos. Fiz um estudo comparativo entre profissionais da área de saúde e trabalhadores de outros segmentos e as taxas de risco foram maiores entre os trabalhadores de saúde. Também foi menor a receptividade desses profissionais em participar dos programas de melhoria de saúde. Eu tenho duas teorias que conspiram para essa situação. Uma delas é que os profissionais de saúde estão realmente focados em seu trabalho e tendem a acreditar que estão lá para cuidar dos outros. Eles sacrificam sua própria saúde para tratar de outras pessoas. Outra teoria é que os profissionais de saúde, por trabalharem com doenças todos os dias, tendem a acreditar que não estão tão mal quanto poderiam estar.

Diagnósticoweb – Posso perguntar quantas horas você trabalha por dia? Como é a sua gestão da saúde?
Terry – Acho que, pessoalmente, tenho uma vida de trabalho muito boa. Houve momentos na minha carreira nos quais fiz muitas horas-extras, mas por trabalhar nesta empresa, sou muito cuidadoso na tentativa de equilibrar minhas próprias práticas de saúde com as práticas de trabalho. A vantagem real é que eu amo o meu trabalho, de forma que os dias nos quais eu trabalho demais são escolhidos por minha conta. Eu os escolho porque estou muito engajado e muito animado sobre o que estou trabalhando. Isso é diferente de alguém que está trabalhando demais porque sente que precisa fazê-lo ou porque precisa se dedicar. O stress é diferente se há controle sobre isso. Temos de estar muito mais preocupados com os trabalhadores que estão trabalhando demais, mas não podem ter controle sobre isso.



PUBLICIDADE

Mais lidas


    Warning: mysql_num_rows() expects parameter 1 to be resource, boolean given in /home/diagnosticoweb/www/noticia-interna.php on line 309

    Warning: mysql_free_result() expects parameter 1 to be resource, boolean given in /home/diagnosticoweb/www/noticia-interna.php on line 322

Newsletter

Cadastre-se e receba as novidades do Diagnosticoweb em seu e-mail

agenda

facebook

© Copyright 2012, Diagnósticoweb . Todos os direitos reservados.