home notícias Gestão
Voltar Voltar
02/10/13
Entrevista: Pedagoga defende gestão menos verticalizada e decisões colegiadas
Diretora da Escola Técnica de Saúde de Brasília (Etesb), Ena de Araújo critica o excesso de poder dos médicos na rotina dos hospitais
Gilson Jorge


A pedagoga Ena de Araújo: no ambiente da saúde, há os que pensam e os que executam (Foto: Alan Sampaio)

Como a invisibilidade dos profissionais técnicos de saúde pode ser percebida?
Ena de Araújo –  Ela existe, é real e percebida de forma mais contundente na divisão e fragmentação das ações por eles exercidas, além dos salários – de forma mais evidente. No ambiente da saúde, há os que pensam e os que executam. 

Há situações em que essa realidade se transforma em assédio moral?
Ena – Isso é uma coisa muito delicada de se falar, mas as evidências existem – inclusive com uso de expressões do tipo “faça o que eu mando, mas não faça o que faço”. Só que as pessoas têm medo de falar para não perder o emprego, a gratificação. Elas falam aquilo que os gestores, os seus superiores gostam de ouvir. É uma coisa muito velada, como não é claro o assédio moral em lugar nenhum.

Na Europa, enfermeiros e técnicos exercem atividades que no Brasil são prerrogativas exclusivas dos médicos. A Lei do Ato Médico é atrasada sob esse aspecto?
Ena – A Lei do Ato Médico foi alvo de críticas por diversas categorias, e muitas ponderações, que acabavam restringindo a atuação dos médicos, acabaram sendo vetadas pelo Executivo. Lembro de um caso em que uma enfermeira docente foi levada à justiça porque estava ensinando consulta de enfermagem – uma prerrogativa prevista na Lei 7.498/86, que regulamenta o exercício da profissão. É como se o termo consulta, em toda a sua acepção, fosse de propriedade exclusiva dos médicos. A gente consulta a cartomante, o dicionário, a bula do remédio.  Não é possível haver um dono para o termo.

Há muito corporativismo e classismo entre os médicos?
Ena – Há uma divisão de classes clara. E um histórico das profissões que justifica esse status. Afinal, os alunos de medicina saem, com raras exceções, de uma classe social mais alta, de famílias que têm poderes de vocalização e aquisitivo muito evidente. Assim, o processo de trabalho em saúde é deflagrado por essa hierarquia. É o médico que prescreve a alimentação do paciente e o nutricionista cumpre. A enfermagem aplica a medicação. A farmácia fornece o remédio. De certa forma há uma “predominância”  do médico sobre as demais categorias. Tanto é assim que quando há uma “insurgência” para se democratizar essas ações, como a participação colegiada, discussão do processo de trabalho e gestão compartilhada, o movimento é visto como uma ameaça.  

É possível medir o impacto dessa invisibilidade no desempenho desses profissionais?
Ena – Não há dados estatísticos sobre a questão. Há, por outro lado, uma especificidade, que é a divisão técnica do trabalho. Há um superior, que supervisiona, e o técnico, que executa. Trata-se de um modelo usado em linha de montagem de uma fábrica, que é trazido para a área social. O setor, aliás, tem uma forte regulamentação.  A Lei do Exercício da Enfermagem, por exemplo, define todas as nuances da prática da enfermagem – inclusive  as ações de supervisão e ensino. Cabe ao auxiliar, contudo, as ações repetitivas, como se eles não pensassem. Sempre lutei contra esse status, porque se trata de trabalhadores que cuidam da vida de pessoas. Desde a época do DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público, criado em 1938), porém, esses profissionais são definidos como auxiliares de serviços diversos. Algo que perdura até hoje. Essas pessoas não têm identidade profissional e não são sindicalizadas. Compõem uma massa de manobra para executar tarefas que não exijam grandes preparos. Mas na área da saúde até a limpeza requer conhecimento científico, já que uma ação mal executada pode disseminar uma infecção hospitalar em toda a unidade.  

Como essa invisibilidade se manifesta no SUS?
Ena – O que eu vejo no SUS de forma mais clara é que, primeiro, o sistema de saúde ainda hoje é centrado na doença,  no hospital e no lugar individual. Nesse ambiente, são requeridos, predominantemente, profissionais de nível superior – por disporem de um melhor aparato para resolver os problemas. Eles assumem o comando e gerem os processos de trabalho dos profissionais técnicos. Para o nível médio, é muito recorrente o trabalho em procedimentos do tipo “faça isso, arruma assim”. Eles vão repetindo o trabalho de forma acrítica, sem autonomia. Há pouco tempo, em um hospital público de Brasília, ocorreu um episódio evitável de falha na assistência, devidamente alertado por um auxiliar, à médica responsável. Ela o interpelou e fez questão de “restabelecer a hierarquia”. O desdém diante da “intromissão”, contudo, fez com que o paciente – uma criança – viesse a óbito. Um exemplo desastroso da organização do trabalho no ambiente médico hospitalar brasileiro, fortemente marcada pelo verticalismo. 

Como superar essa barreira?
Ena – Implementando políticas que levem a decisões colegiadas, trabalho em equipe e valorização do profissional – tanto no que se refere aos salários, quanto aos processos de educação permanente, autonomia e avaliação constante de desempenho. Ações que devem redundar em motivação financeira e meritocracia. Vale lembrar que estamos falando de enfermeiros, técnicos e auxiliares, que correspondem a quase 60% da força de trabalho da saúde no nosso país. 

Publicado na revista Diagnóstico, n° 22.



PUBLICIDADE

Mais lidas


    Warning: mysql_num_rows() expects parameter 1 to be resource, boolean given in /home/diagnosticoweb/www/noticia-interna.php on line 309

    Warning: mysql_free_result() expects parameter 1 to be resource, boolean given in /home/diagnosticoweb/www/noticia-interna.php on line 322

Newsletter

Cadastre-se e receba as novidades do Diagnosticoweb em seu e-mail

agenda

facebook

© Copyright 2012, Diagnósticoweb . Todos os direitos reservados.