home notícias Gestão
Voltar Voltar
03/01/13
Entrevista: Qualiss é a aposta da ANS para estimular a competição entre os hospitais
Para Bruno Sobral, diretor de Desenvolvimento Setorial da agência, programa será um estímulo para que hospitais de pequeno porte também se qualifiquem
Rebeca Bastos


Bruno Sobral, da ANS: O grande ganho para o usuário (com o Qualiss) é interagir com os parâmetros de desempenho dos hospitais de uma maneira mais fácil e simples (Foto: Divulgação)

Além da preferência, o paciente vai poder escolher seu hospital também por categoria. Quanto mais ícones que atestem a sua eficiência, melhor para quem precisa de atendimento. É dessa forma, inspirado em exemplos de guias de varejo, que vão de restaurantes a hotéis, que a ANS pretende estimular a eficiência da rede hospitalar no Brasil. Com um atraso de mais de seis meses, o Qualiss (Programa de Monitoramento da Qualidade dos Prestadores de Serviços na Saúde Suplementar) estreia em janeiro de 2013, com um grupo de 33 instituições voluntárias de todas as regiões, que serão submetidas a análises mensais. “Desejamos que os prestadores e operadoras que tiverem mais qualidade possam gerar um volume maior de negócio e até cobrar mais pelos seus diferenciais”, salienta Bruno Sobral, diretor de Desenvolvimento Setorial da ANS. A agência vai avaliar 26 indicadores de qualidade, divididos em seis áreas (efetividade, eficiência, equidade, acesso, centralidade e segurança). Os que apresentarem bom desempenho ganharão um selo de qualidade, identificado pela letra “Q”. A distinção, que foi buscar seu correlato na França – considerado o país com modelo de categorização mais racional –, vai estar presente, obrigatoriamente, no livro de convênio das operadoras a partir de 2014. “No jogo competitivo do Qualiss, quem tiver mais qualidade ganha”, aposta Sobral, a quem vem cabendo a implantação do programa. “E o mais importante é que o consumidor estará inserido nessa ‘competição’ com um instrumento eficaz e balizado para fazer a melhor escolha – o melhor plano, em última instância – e saber pelo que está pagando”.  Envolto com os últimos detalhes da estreia do Qualiss, Sobral  abriu espaço em sua agenda e falou à Diagnóstico.

Revista Diagnóstico – Como vai funcionar o Qualiss? 
Sobral – A ANS vai analisar 26 indicadores de qualidade, divididos em seis áreas (efetividade, eficiência, equidade, acesso, centralidade e segurança), e os que apresentarem bom desempenho ganharão um selo de qualidade da agência, identificado pela letra “Q”, que deverá ficar ao lado do nome do hospital na lista de prestadores que fazem parte dos livros e portais das operadoras. 

Diagnóstico – A resolução normativa do Qualiss foi lançada há mais de um ano (agosto de 2011), e a previsão era que a execução do programa começasse no segundo semestre de 2012. O programa deve estrear somente em janeiro do ano que vem. Por que o atraso? 
Bruno Sobral – A nossa previsão inicial era que o programa já estivesse em funcionamento a partir do meio deste ano, e depois em novembro, mas os planos tiveram que ser alterados por conta da complexidade de construção das fichas técnicas, já que estamos construindo esse material em conjunto com as prestadoras e com toda a sociedade. Além das dificuldades estruturais, os atrasos também foram motivados pela greve dos servidores. 

Diagnóstico – Em que fase o programa se encontra atualmente?
Sobral – Já demos início à fase de testes dos indicadores de qualidade dos hospitais com um grupo de 33 instituições voluntárias de todas as regiões, que serão submetidas a análises mensais. Essa é a fase de avaliação controlada, em que a ANS recebe os dados para apreciação.  Também em janeiro, começa o programa de ação interna na agência, que consiste em uma auditoria dos dados. A partir de julho do próximo ano, com o fim da fase de testes, a avaliação passa a ser obrigatória para os hospitais das redes próprias das operadoras de planos de saúde e opcional para os demais estabelecimentos. O passo seguinte é fazer a divulgação dos referencias obtidos. Assim que tivermos segurança da confiabilidade desses índices, iremos fazer a divulgação no início de 2014.  

Diagnóstico – Qual será a periodicidade dessa avaliação?  
Sobral – O Qualiss foi planejado para ter avaliações em períodos curtos, com o objetivo de enrijecer os padrões de qualidade atuais. Por isso, a coleta e divulgação dos dados vai ocorrer trimestralmente. Quem participar do programa e tiver os padrões mínimos de qualidade, que ainda serão definidos, receberá o selo do Qualiss. Aliás, o programa também prevê que as operadoras façam a divulgação não apenas do programa da ANS, mas também de selos e índices de outras entidades reconhecidas. Deve ficar claro, por exemplo, quais são os hospitais que têm acreditação, com a identificação da entidade acreditadora, quais possuem o selo do Notificações em Vigilância Sanitária (Notivisa). Iremos dar o perfil de qualidade de cada prestador, e isso vai estimular todos a buscarem melhores níveis de qualificação.  

Diagnóstico – De que forma o selo irá traduzir o desempenho do hospital?
Sobral – Vamos citar o exemplo de um hospital “X”, que pode ser acreditado e participar do Notivisa, mas pode não estar enviando dados para a ANS de qualidade. Então, ele vai ter “A”, que significa Acreditação e o selo “N”, que significa Notivisa, mas não vai ter o “Q” do Qualiss. É como se fosse o Guia Quatro Rodas, que tem ícone para especificar os itens presentes em um hotel. Não é um paralelo com as estrelas de hotel, pois vamos apenas apresentar o que o prestador tem. A atribuição de valor vai ficar por conta dos usuários. A estratégia é fazer com que as prestadoras divulguem esse material, e a agência dê transparência a essas informações através de campanhas que expliquem para a população como o Qualiss funciona. O grande ganho para os usuários é interagir com os parâmetros de desempenho dos hospitais de uma maneira mais fácil e simples. 

Diagnóstico – O usuário comum do sistema saúde sabe a importância de uma acreditação? 
Sobral – O usuário comum não tem a exata dimensão do que é uma acreditação, e qual é a relevância disso para uma instituição. A ideia do Qualiss é justamente abrir o debate e esclarecer a população sobre a importância desses indicadores. Iremos facilitar esse acesso, mas o melhor veículo será mesmo o livro de convênio das operadoras, que serão obrigadas a disponibilizar essas informações.

Diagnóstico – Quais são as principais diferenças entre o Qualiss e o Programa de Qualificação da Saúde Suplementar, desenvolvido pela ANS desde 2004?
Sobral – O Qualiss veio para aperfeiçoar outras ferramentas que a ANS tinha, como o Índice de Desenvolvimento de Saúde Suplementar (IDSS), que era um programa para as operadoras. Já o Qualiss é um programa para as prestadoras, que definimos em duas vertentes: indicadores e divulgação. A diferença entre os dois é que o Qualiss Indicadores trabalha sobre índices objetivos de qualidade dos hospitais, como taxas de mortalidade, de infecção, entre outros. O programa vai da preparação das fichas técnicas, até a divulgação desses dados para sociedade. 

Diagnóstico – Com vai funcionar o Qualiss Divulgação? 
Sobral – O prestador que quiser vai solicitar à operadora que inclua os seus atributos. Por exemplo, um hospital que é acreditado e participa do Qualiss Indicadores vai apresentar os certificados que ele possui, Acreditação e Notivisa, por exemplo, e pedir que a operadora divulue as suas qualificações. Como são índices positivos, acreditamos que o Qualiss Divulgação terá uma boa adesão. Só o fato de participar já dá uma demonstração de que o prestador confia em seus dados a ponto de abrir para a sociedade e mostrar seus resultados. Isso é positivo também como ferramenta de marketing. Para o prestador e para a operadora, inclusive, que pode usar isso na sua estratégia de venda.


Qualiss quer colocar o paciente no centro das decisões sobre a escolha do hospital (Foto: Banco de imagens)

Diagnóstico – Qualiss é um programa com padrões de análise internacionais. Qual é a principal referência para a metodologia? 
Sobral – O Qualiss Indicadores já tem algumas experiências correlatas bem sucedidas na Inglaterra e na França.  A experiência inglesa possui bastante informações e muitos indicadores, mas peca pelo excesso, uma vez que o usuário não consegue absorver tudo. Já a experiência francesa foi a que mais nos inspirou por ser mais sucinta. Queremos produzir uma versão mais acessível possível para o usuário. Afinal, não adianta dizer para o leigo que o índice de infecção por cateter venoso central da UTI pediátrica é 4%, ou 3%, porque ele não vai entender. 

Diagnóstico – A pontuação de todos os escores será divulgada ou apenas a avaliação final? 
Sobral – Todos os dados serão divulgados no começo de 2014, após serem analisados e atestados pela ANS. Mas além de divulgar os índices, que podem não representar muita coisa para o usuário leigo, a agência projeta fazer uma graduação também por cores. A intenção é propiciar uma visualização mais rápida e permitir que o usuário possa usar esses dados como uma ferramenta de escolha  a partir dos índices de qualidade dos hospitais conveniados pelo seu plano. 

Diagnóstico – De acordo com os dados da própria ANS, a rede hospitalar brasileira apresenta grande heterogeneidade, com um número grande de instituições de pequeno porte e outras, maiores, com padrão internacional. Sob esse aspecto, o Qualiss não poderia provocar um desequilíbrio no mercado? 
Sobral – Acredito que não; pelo contrário. O Qualiss será um estímulo para os hospitais de pequeno porte se qualificarem também. A heterogeneidade é, de fato, muito grande em termos de qualidade, e quem aponta isso é um mapa dos hospitais que foi feito pelo Banco Mundial, entre  2007 e 2011, e publicado pelo Instituto Brasileiro para Estudos e Desenvolvimento do Setor de Saúde (Ibedess). Mas isso não impede que os hospitais pequenos não alcancem índices elevados de qualidade. O que a ANS pretende com o Qualiss é justamente fomentar uma competição positiva do setor. E que essa busca seja motivada pela qualidade. Desejamos ainda que os prestadores e operadoras que tiverem mais qualidade possam gerar um volume maior de negócio a até cobrar mais pelos seus diferenciais. No “jogo” competitivo do Qualiss, quem tiver mais qualidade ganha. E o mais importante é que o consumidor estará inserido nessa “competição” com um instrumento eficaz e balizado para fazer a melhor escolha –  o melhor plano, em última instância – e saber pelo que está pagando.

Diagnóstico – Em maio deste ano, a ANS anunciou a publicação de uma cartilha com direitos e deveres dos prestadores. Esse tipo de informação ainda não está claro para o mercado?  
Sobral – Trata-se de um assunto que ainda é motivo de dúvida por parte dos prestadores. A cartilha, que será publicada ainda esse ano, vai atualizar o mercado sobre as últimas normatizações da ANS, com um capítulo especial sobre a Instrução Normativa 49 (IN 49). Trata-se de um instrumento importante, que estabelece os critérios de reajustes dos honorários médicos e que teve o seu prazo de execução adiado para maio de 2013.

Diagnóstico – O Judiciário brasileiro possui cerca de 200 mil processos na área de saúde, grande parte movida por usuários insatisfeitos com seus planos. A que se deve esse número de processos?  Isso foi levado em conta na formulação do Qualiss?
Sobral – A ANS tem tentado qualificar essa relação, e a gente entende que ainda há um nível alto de insatisfação dos usuários em determinados momentos. A busca pelo Judiciário tem sido utilizada pelos clientes como uma forma de garantir que operadoras cumpram o que prometeram. Outras vezes, esse grande número de demandas judiciais acaba sendo também uma consequência das interpretações dos juízes, que, na ausência de apoio técnico, acabam dando razão aos usuários na maioria das situações de emergência, o que é compreensível. Essa questão da judicialização ocorre em todos os setores, não apenas na saúde. 

Diagnóstico – O que cabe à ANS dentro desse contexto?
Sobral – Antes de mais nada, esclarecer os usuários sobre seus direitos. As reclamações têm aumentado, muito por conta do crescimento do mercado, mas também por uma exposição maior da própria ANS na mídia. Um bom exemplo foi a pressão exercida pela agência sobre  as operadoras com relação ao cumprimento dos prazos de atendimento. Os usuários se alinharam à causa e começaram a perceber como a ANS pode ser um canal eficaz de reclamação. E isso acaba gerando um movimento que se alimenta: quanto mais usuários utilizam a mídia como canal de reclamações, mais exigem qualidade. Algo, inclusive, mais interessante e positivo do que recorrer ao Judiciário. A ANS acaba também usando as reclamações para punir as operadoras que não cumprem a legislação. Com isso, o usuário percebe que tem voz e que pode contar com a agência para resolver seus problemas. É bom lembrar, no entanto, que a grande maioria dos atendimentos no nosso call center não é de reclamações, mas de dúvidas e, muitas vezes, sugestões dos usuários.

*Entrevista publicada na revista Diagnóstico, n°17.



PUBLICIDADE

Mais lidas


    Warning: mysql_num_rows() expects parameter 1 to be resource, boolean given in /home/diagnosticoweb/www/noticia-interna.php on line 309

    Warning: mysql_free_result() expects parameter 1 to be resource, boolean given in /home/diagnosticoweb/www/noticia-interna.php on line 322

Newsletter

Cadastre-se e receba as novidades do Diagnosticoweb em seu e-mail

agenda

facebook

© Copyright 2012, Diagnósticoweb . Todos os direitos reservados.