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06/05/13
Pesquisadores do MIT desenvolve projeto de telemedicina social em zonas carentes
Estudantes de pós-doutorado do renomado Massachusetts Institute of Technology (MIT), em boston, criaram aplicativo que facilita diagnóstico através de smartphones
Gilson Jorge


Alunos do MIT, na “sede” do Sana, em Boston: trabalho de voluntários, a exemplo do pesquisador brasileiro Ikaro Silva – sentado, de óculos –, ganhou prêmio internacional (Foto: Divulgação)

Um projeto de telemedicina desenvolvido por jovens pesquisadores, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, vai ajudar a resolver um grande problema de saúde no Brasil. Apesar de ser obrigatório em todo o território nacional, desde 2007, o teste da orelhinha, que detecta problemas de audição em bebês, ainda é uma raridade nas zonas rurais do país por causa da dificuldade de acesso a clínicas e hospitais.

Agora, com um telefone celular e o Sana Audiopulse, um software produzido por doutores do MIT, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, será possível enviar desde os locais mais isolados do país informações sobre os ouvidos de um paciente para um audiologista. De seu consultório, o médico analisa os resultados obtidos e as respostas de um pequeno questionário e pode detectar, à distância, uma possível deficiência auditiva. O problema afeta cinco entre 1 mil recém-nascidos e, se não for diagnosticado em tempo hábil, pode causar a surdez permanente. 

O Sana Audiopulse é uma das inúmeras iniciativas de aplicativos sociais que surgiram dentro do campus do MIT, um centro de excelência em ciência e tecnologia, que normalmente ganha espaço na mídia por suas preciosas contribuições para a indústria e para o mundo dos negócios. A conversão aos temas de interesse social tem muito a ver com a chegada ao instituto do médico filipino Leo Anthony Celi, especialista em doenças infecciosas. 

Ao ingressar no mestrado em informática biomédica, oferecido pela Universidade de Harvard em parceria com o MIT, Celi começou a se inquietar. Ele enxergava a necessidade de aliar o acesso aos estudos de ponta com a aplicação da tecnologia em favor de pacientes carentes, especialmente em países em desenvolvimento, como a sua própria terra natal. Após conversar com colegas de diferentes países que também demonstraram interesse em fazer trabalho social, Celi fundou o Sana. O nome do instituto significa o feminino de saudável em espanhol e italiano, e esperança em tagalo, idioma mais falado nas Filipinas.

Um dos mais entusiasmados voluntários do Sana é o engenheiro brasileiro Ikaro Silva, 36 anos, que em 2000 deixou Salvador para começar uma carreira acadêmica no MIT, onde acabou de concluir seu pós-doutorado na Divisão de Ciências da Saúde e Tecnologia da Harvard/MIT. “Quando conheci Leo, me interessei pelo projeto, pois já pensava em fazer trabalhos sociais”, afirmou.

Pesquisador assistente do MIT, Ikaro tem uma longa experiência em desenvolvimento científico. Apesar da pouca idade, já trabalhou em projetos importantes. O pesquisador ajudou, por exemplo, a desenhar, implementar e analisar experimentos que se concentram na melhoria da audição para ouvintes com implante coclear e a projetar e desenvolver um sistema que permitiu a aquisição simultânea de emissões otoacústicas evocadas e audiometria de tronco encefálico. 

Entre os colaboradores de primeira hora estão dois americanos, o doutor Kenneth Paik, que tem doutorado em Informática Biomédica pela Harvard Medical School e que atualmente é diretor de operações do Sana, e o físico Eric Winkler, um entusiasta da aplicação da tecnologia em favor da assistência médica a pessoas carentes, que hoje é o chefe de desenvolvimento de softwares do Sana.

Atrair cérebros que colocassem a tecnologia a serviço da medicina social era fundamental e o grupo começou a crescer com voluntários que trabalham dentro do campus do MIT, em instalações improvisadas, e também em seus próprios países de origem. Atualmente, cerca de 40 voluntários trabalham diretamente no projeto, metade em Massachusetts, na costa leste americana. 

Mas nem todos os envolvidos com o Sana são experts em tecnologia. “Percebemos que era importante ter pessoas que entendessem de aplicação de formulários e de aspectos fisiológicos”, afirmou Celi, ao explicar a adesão de profissionais da saúde ao projeto.

Foi preciso, por exemplo, a participação de enfermeiros que coletem os dados sobre a saúde da pessoa e os transfiram para o computador do médico, através do programa do Sana. Depois de analisar as informações recebidas, o médico dá o diagnóstico ao enfermeiro por meio do programa. A depender do resultado, o paciente é notificado de que vai precisar se deslocar para uma cidade onde possa iniciar o tratamento.


Interface entre o paciente e o médico: software instalado em smartphone é usado na disseminação do teste da orelhinha no Nordeste brasileiro (Foto: Divulgação)

Sons do bebê – O projeto Sana, que envolve diferentes softwares específicos para cada enfermidade, está presente em 22 países, incluindo as Filipinas, Moçambique, Haiti e o Brasil, e ajuda a descobrir, sem a presença de um médico, quem precisa de tratamento para doenças infecciosas, diabetes e problemas bucais, por exemplo.
No caso do Audiopulse, por exemplo, o enfermeiro ou técnico de saúde escolhe inicialmente se quer fazer o teste de emissões otoacústicas evocadas – produto de distorção (EOAPD) – ou o e exame de emissões otoacústicas transientes (EOAT). 

O primeiro passo é a colocação de um captador de sons no ouvido do bebê, que é capaz de registrar frequências sonoras sem que haja a necessidade de uma reação do bebê a qualquer estímulo. Captados os sinais, o enfermeiro aciona o programa instalado em um telefone celular e opta por um dos dois testes. Feita a escolha, informa-se a idade exata do bebê, o sexo e fatores de risco, como histórico familiar, tempo de permanência na maternidade, infecções intrauterinas e síndromes relacionadas à perda de audição.

Com base nas informações fornecidas, o sistema gera um relatório gráfico de risco para identificação preliminar de alguma eventual anormalidade. Em seu computador, o médico avalia os dados e dá o seu diagnóstico. 
 
A criação do Audiopulse, especificamente, tem DNA brasileiro. Quando a professora Ana Maria Guerreiro, do Departamento de Engenharia de Biomedicina da UFRN, foi a Boston, em 2010, entrou em contato com os doutores Leo Anthony Celi e Ikaro Silva, do Sana. A professora falou aos dois sobre a lei aprovada no Congresso Nacional, em 2007, que tornou obrigatória a realização do “teste da orelha” em todo o território nacional. 

Com a impossibilidade física de realizar esses exames em localidades no interior do país que não contam com hospitais e nem mesmo estradas e transporte fácil para a cidade, eles começaram a trabalhar juntos no projeto de telemedicina que unisse a expertise do Sana com as necessidades do grupo liderado pela professora Ana Guerreiro.   

Desenvolvido em duas frentes, uma no MIT e outra no Grupo de Sistemas Inteligentes da UFRN, o projeto do Sana Audiopulse ganhou uma bolsa da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Centro Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em 2011. No ano passado, o projeto venceu o GSMA Mobile Health University Challenge, na África do Sul, prêmio que destaca soluções inovadoras para o uso de tecnologia na saúde.

No próximo mês de maio, o Audiopulse vai ser colocado à prova durante exames feitos no Boston Children’s Hospital, com a presença de uma equipe da UFRN. “Logo depois, na volta ao Brasil, o aparelho começa a ser usado em cidades do interior do Rio Grande do Norte”, afirmou à Diagnóstico a professora Ana Guerreiro. 


Projeto Sana já está presente em 22 países, incluíndo Filipinas, Moçambique e Haiti (Foto: Divulgação)

Rockefeller foundation – Totalmente desenvolvido e dirigido por pesquisadores e alunos, o Sana não dispõe de instalações fixas e as reuniões podem acontecer em qualquer sala do MIT que esteja desocupada no momento. Mas isso não quer dizer que o instituto seja alheio ao processo. Além de oferecer as instalações físicas e equipamentos, o instituto banca as viagens internacionais relacionadas às atividades de campo.

Outra fonte de recurso do Sana é o patrocínio de três instituições:  The Rockefeller Foundation, Vodafone Americas Foundation e  National College Inventors and Innovators Alliance (NCIIA), uma entidade americana que congrega inventores e empreendedores inovadores.   

Além de custear passagens áreas e hospedagem, o MIT oferece, juntamente com o Sana, a Harvard Medical School e outros parceiros, um curso para estudantes de qualquer área do conhecimento, desde ciências políticas até engenharia, desde que o interessado more na região de Boston, onde fica a maioria dessas instituições. O objetivo do curso é estudar o progresso do uso de sistemas de informação, e da tecnologia em geral, na melhoria dos resultados da assistência médica em áreas pobres de países em desenvolvimento. 

O próximo curso, que acontece de fevereiro a junho deste ano, pode incluir uma viagem ao Brasil, a depender do programa em que o estudante se inscreveu. “Ao contrário do que se imagina, o Sana é uma prova de que o MIT é um centro de pesquisas que atua também em temas de interesse social”, avalia Celi, o fundador do programa, que vê em Boston um cenário ideal para o desenvolvimento de trabalhos na área de saúde global. “Aqui estão pesquisadores de todo o mundo, com muita capacidade intelectual, mas que em seus países de origem talvez não tivessem tanto acesso ao conhecimento”, afirma. 

Ele se refere ao fato de a maior cidade de Massachusetts reunir na sua área metropolitana instituições como a Harvard, o MIT, o Harvard Medical School e várias outras prestigiosas entidades de ensino, com suas imensas bibliotecas e avançado desenvolvimento acadêmico.

Sem dúvida, o trabalho voluntário articulado pelo Sana ao redor do planeta ajuda a dar uma roupagem de engajamento social a uma instituição que, como o MIT, está profundamente ligada à geração de conhecimento para a produção de riquezas. Para não deixar totalmente de lado a calculadora, aqui vai, então, um número. A professora da UFRN estima que, para cada criança que tem uma deficiência auditiva diagnosticada a tempo, o país economiza até R$ 2 milhões em tratamentos. 

*Matéria publicada na revista Diagnóstico n°19.



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