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02/05/16
Hospitais brasileiros não estão preparados para o capital estrangeiro
Marcos Boscolo: sócio da KPMG no Brasil e líder para o setor de saúde: As PPPs são uma tendência mundial e com resultados comprovados
Da redação


Marcos Boscolo, sócio da KPMG, aprova as PPPs, mas acha que o investimento estrangeiro traz mais fôlego para quem quer expandir (Foto: Divulgação)

Investir mais em PPPs é a melhor maneira de melhorar a qualidade do setor de saúde no Brasil, aponta uma pesquisa feita pela KPMG que ouviu a opinião de 200 executivos brasileiros. Para um terço dos gestores, a parceria entre governos e empresas é uma saída ainda mais eficiente do que a redução de tributos ou a injeção de mais dinheiro no setor, seja pela entrada de capital estrangeiro, seja por aumento do investimento público. “O setor não busca mais dinheiro, e sim ter mais eficiência no gasto desses recursos”, afirma Marcos Boscolo, sócio da KPMG no Brasil e líder para o setor de saúde. “As PPPs são uma tendência mundial, com resultados comprovados” Em entrevista à Diagnóstico, ele analisa a preferência pelo modelo de PPPs e explica por que ele – e 60% dos entrevistados na pesquisa – acha que os hospitais brasileiros ainda não estão preparados para a abertura do setor ao capital estrangeiro.

Diagnóstico – Por que os gestores preferem mais PPPs a menos impostos ou mais dinheiro do governo?
Marcos Boscolo – Quando discutimos o modelo de PPPs com os executivos no congresso em que a pesquisa foi realizada, a percepção geral foi a de que a parcela do PIB que nosso governo gasta com saúde não é muito diferente da de outros países. O problema é que não se faz uma boa gestão desses recursos, então o dinheiro é mal empregado. Por isso, os profissionais acham que, se essa verba fosse gerida por empresas privadas com foco em resultados, seria melhor utilizada. E que administrar com essa mentalidade é melhor do que tentar captar mais dinheiro, o que é difícil, porque depende do crescimento do PIB ou da volta da CPMF. Há um limite para a captação de mais recursos. Além disso, ter mais dinheiro não significa que o atendimento vá melhorar. O caminho é usar o dinheiro de modo mais eficiente, algo que o governo não sabe fazer.

Diagnóstico – Quais são os principais entraves a novas PPPs?
Boscolo – O principal desafio ainda é político. Não é fácil convencer o ente público a mudar o modelo. Quando se transferem recursos para a PPP, teoricamente há um enxugamento da máquina pública. Isso vai contra o interesse dos políticos de manter sua estrutura administrativa intocada. O atendimento primário é o setor que mais carece de PPPs, pois há muitas pessoas que dependem do sistema público e não têm acesso a ele nem encontram a qualidade desejada. Em São Paulo, o [Hospital Israelita] Albert Einstein, o Sírio-Libanês e o Santa Catarina já participam de PPPs para gerir hospitais públicos. Essas iniciativas têm de ser massificadas. O Hospital Santa Catarina, de São Paulo, por exemplo, tem uma OSS [organização social de saúde] para cada hospital público que gere, com centros de custo separados, sem confundir a atuação privada com a pública. Os recursos recebidos do governo têm feito as contas fecharem no zero a zero, sem prejuízo para a empresa. A PPP mostra que cumprem também uma missão social na saúde, com ações de cuidados focadas na parcela mais carente da população. Isso é muito positivo para a imagem dessas empresas.

Diagnóstico – Por que os gestores acham PPPs melhores do que receber investimento de fundos?
Boscolo – Eles entendem que, apesar de todos os desafios enfrentados na relação com o governo, já aprenderam as regras desse jogo. Mesmo assim, sabem muito pouco sobre como é se relacionar com um fundo ou uma empresa estrangeira. As PPPs melhoram a gestão dos serviços públicos, mas têm um entrave: há um limite na capacidade de atendimento e no valor dos repasses. Sem essa limitação financeira, estabelecida por contrato, o sistema poderia estar atendendo a um número maior de usuários. Nesse sentido, é bem melhor trabalhar com investidores estrangeiros, que vão focar na expansão.

Diagnóstico – A pesquisa mostra que o setor não se considera preparado para a abertura ao capital estrangeiro. Por quê?
Boscolo – Os gestores sentem que falta uma interface, um elo especializado em falar a mesma língua de um parceiro estrangeiro. Quando um fundo entra como sócio, tem uma forma de trabalhar que exige precisão e agilidade para tomar decisões financeiras. A gestão dos hospitais brasileiros em geral é boa, mas eles precisam evoluir muito na parte tecnológica. A injeção de capital estrangeiro na área da saúde, contudo, deve continuar existindo no horizonte 

Diagnóstico – Os fundos estão interessados em hospitais brasileiros?
Boscolo – Sim. Quando se olha o mercado brasileiro, vários setores já foram trabalhados, menos o de saúde, que tem muito o que melhorar em gestão e rentabilidade. Em breve, fundos vão comprar hospitais que não estão bem e, com gestão de recursos em escala, essas instituições conseguirão atender mais e com custo menor. Os gestores hospitalares vão precisar, cada vez mais, melhorar a gestão para fazer frente à concorrência. 

Entrevista publicada na revista Diagnóstico nº 30.



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