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25/06/13
Entrevista: Hospitais mantidos pelo Médicos Sem Fronteiras precisam de administradores voluntários
Mauro Nunes, presidente no Brasil da entidade: quase uma centena de brasileiros, a maioria mulheres, atuam em missões do MSF em diferentes partes do mundo
Reinaldo Braga


Mauro Nunes, do MSF: entidade mantém inúmeros hospitais em diferentes países e eles precisam de bons gestores, como qualquer outro tipo de hospital (Foto: Leogump Carvalho)

Diagnóstico – Qual o perfil do profissional de saúde que costuma se candidatar a voluntário do MSF?
Mauro Nunes – É preciso ter, antes de mais nada, vontade de trabalhar com ajuda humanitária. A grande maioria dos profissionais que postulam atuar com a organização – mesmo aqueles que não são recrutados porque não atendem às exigências da organização – é motivada por esse desejo de ajudar. Possuímos em nossos quadros desde pessoas muito jovens até senhores e senhoras com muita experiência, que fecham suas clínicas ou pedem licença de seus trabalhos para se dedicar por um tempo ao MSF. Para muitos, o trabalho humanitário é uma opção de carreira. Atualmente, cerca de 100 brasileiros trabalham com Médicos Sem Fronteiras em diferentes partes do mundo. A maioria é mulher e da área médica – médicos e profissionais, como enfermeiros, psicólogos e farmacêuticos. Mas para fazer os cuidados com a saúde chegarem até os nossos pacientes também precisamos de profissionais de outras áreas, como logísticos, administradores, economistas etc. Entre os brasileiros, cerca de 20% têm esse tipo de formação. A idade média dos nossos profissionais é 38 anos.

Diagnóstico – Por que o MSF está à procura de gestores?
Nunes – Médicos Sem Fronteiras mantém inúmeros hospitais em diferentes países e eles precisam de bons gestores, como qualquer outro tipo de hospital. Para trabalhar na organização, além da formação tradicional desse profissional, que é bem específica, e de falar inglês ou francês fluentemente, ele deve ter pelo menos dois anos de experiência profissional. É preciso ainda ter disponibilidade para morar em países que enfrentam crises causadas por conflitos armados, epidemias, fome e desastres naturais. Um profissional que vai trabalhar com o MSF pela primeira vez recebe entre 700 e 1.040 euros por mês. Ou seja, é um trabalho com muitos desafios. 
 
Diagnóstico – De onde vêm os recursos para manter as ações do MSF?
Nunes – Fundamentalmente de pessoas físicas, porque isso garante a independência e a neutralidade fundamentais para o nosso trabalho. Essa prerrogativa  possibilita que a organização trabalhe em situações de conflito, nas quais, muitas vezes, outras instituições não conseguem atuar por conta de seus vínculos políticos e econômicos. O trabalho do MSF é pautado exclusivamente pela necessidade dos beneficiários, nunca por interesses políticos, religiosos ou econômicos. 
 
Diagnóstico – Trabalhar no MSF continua sendo uma atividade de risco?
Nunes – Médicos Sem Fronteiras tem rigorosos protocolos de segurança para evitar que incidentes aconteçam, mas não podemos dizer que não existem riscos. Os países onde o MSF mantém seus projetos, em geral, vivem um contexto de crise que, mesmo quando não causa um conflito armado, pode estar associado a um aumento da violência. 
 
Diagnóstico – O que é mais grave na ajuda humanitária atualmente: os conflitos étnicos e políticos ou o acesso escasso a estruturas de saúde nos rincões do planeta?
Nunes – Não gosto de apontar essa ou outra crise como a mais grave porque não é possível escalonar o sofrimento humano. No momento, o nosso grande desafio é levar ajuda humanitária para a população síria. O governo não está permitindo a entrada de ajuda humanitária no país e também não permite um cessar-fogo para a retirada dos pacientes feridos para um dos campos de refugiados dos países fronteiriços onde o MSF mantém equipes médicas. Nossas equipes estão trabalhando no país há dois anos, em três hospitais montados em casas que foram adaptadas para receber feridos. Atuando dessa maneira, não conseguimos levar ajuda suficiente para atender às necessidades da população afetada pela guerra. Nesse tempo todo, estamos conversando com o governo para tentar a autorização para podermos ampliar o nosso trabalho na Síria, mas até agora não tivemos uma resposta positiva. 
 
Diagnóstico – Nesses 20 anos de organização, qual a imagem que mais marcou a sua atuação como voluntário?
Nunes – Guardo algumas muito tristes, como a de dezenas de pessoas catando míseros grãos de milho que caíam dos sacos que se rompiam durante seu desembarque do avião para se alimentar, no período da guerra em Angola. Mas nem tudo é tristeza. Temos momentos muito emocionantes que dão sentido ao que fazemos. Alguns anos depois da guerra, voltei para Angola. Uma jovem me parou e me deu um abraço supercaloroso. Eu não a reconheci, mas ela disse que havia sido minha paciente quando pequena. Contou que eu tinha cuidado dela em um de nossos centros nutricionais e começou a cantar uma música que as recreadoras ensinavam para as crianças na época. Foi uma felicidade reencontrar uma paciente tão bem de saúde, com a vida reconstruída e um filho no colo. Ela me apresentou o menino e disse que o nome dele era Mauro, como eu. Fiquei muito emocionado. São  histórias como essas que me mantêm no MSF há 22 anos.

*Entrevsta publicada na revista Diagnóstico n° 20.



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