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18/10/13
Hospitais precisam admitir quando erram
Irlandesa Tracey Cooper, do International Society for Quality in Health Care, defende a divulgação aberta de eventos adversos aos pacientes. Uma iniciativa que já se tornou lei em muitos países
Da redação


A irlandesa Tracey Cooper, presidente do ISQua: pacientes devem se “sentir ouvidos” em casos de erro médico (Foto: André Telles)

De seu escritório em Dublin, na Irlanda, a International Society for Quality in Health Care (ISQua), conhecida como “a acreditadora das acreditadoras”, tem o papel único de fornecer reconhecimento global para as organizações que se dedicam a estabelecer os mais altos padrões de segurança ao paciente, através do Programa de Acreditação Internacional (IAP, na sigla em inglês). Até outubro deste ano, essa missão está nominalmente a cargo da irlandesa Tracey Cooper, uma cirurgiã por formação que depois de atuar como médica em diversas cidades do Reino Unido retornou ao seu país natal, onde curiosamente nunca exerceu a medicina. “Somos pessoas que simplesmente querem aprender umas com as outras e partilhar os seus conhecimentos”, define Tracey, cujo cargo de presidente da ISQua ela diz exercer de forma colegiada. Em conversa com a Diagnóstico, Tracey falou sobre um tema que continua sendo tabu no segmento de saúde: admitir que o médico e o seu hospital cometeram um erro médico. “Cada vez mais, os países estão tentando melhorar a cultura que existe entre os profissionais de saúde e gestores para promover a ‘divulgação aberta’ de eventos adversos aos pacientes”, defende ela. “O hospital precisa admitir quando erra”. A convite do Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA), Tracey esteve no Brasil para participar do II Congresso Internacional de Acreditação, realizado no Rio de Janeiro, em agosto passado. Entre um compromisso e outro, a executiva deu a seguinte entrevista à Diagnóstico.

Diagnóstico – A segurança do paciente é o lema da 30ª Conferência Internacional da ISQua, em Edimburgo. Qual é atualmente a maior preocupação com o bem-estar de quem está internado em um hospital?
Tracey Cooper – Há um certo número de riscos para a segurança do paciente em todo o mundo, embora existam obviamente desafios adicionais, em regiões específicas, que lutam para prover os recursos básicos para os pacientes. De forma recorrente, entretanto, as infecções de saúde associadas, erros de medicação, ambiente errado para cirurgias e falhas no fornecimento das noções básicas de cuidados e de avaliação continuam sendo os maiores desafios para a segurança do paciente. Para as pessoas mais velhas e mais vulneráveis, proporcionar nutrição e hidratação adequada também são fatores-chave que precisam ser geridos de forma a reduzir o risco de danos às pessoas que estão internadas em um hospital.

Diagnóstico – Em todo o mundo, os pacientes têm dificuldade em provar em tribunal que foram vítimas de negligência médica. Nesses casos, é comum hospitais e médicos sendo acusados de não querer colaborar com as investigações. Admitir erros ainda é um tabu na relação entre prestadores de serviços de saúde e consumidores?
Tracey – Este é definitivamente um desafio em muitas nações. Cada vez mais, os países estão tentando melhorar a cultura que existe entre os profissionais de saúde e gestores para promover a “divulgação aberta” de eventos adversos aos pacientes. O hospital precisa admitir quando erra. Em algumas nações, isso é exigido por lei. A forma como os profissionais de saúde respondem aos pacientes e seus familiares quando as coisas vão mal faz uma diferença significativa na maneira como esses pacientes se sentem envolvidos com a instituição. Assim, é preciso fazer com que os pacientes se sintam ouvidos e tenham confiança de que o profissional de saúde, a equipe clínica, o gerente e o hospital tenham aprendido com o incidente, a fim de reduzir a chance de que isso aconteça novamente.

Diagnóstico – Em sua atuação como cirurgiã, a senhora presenciou muitos erros médicos? 
Tracey – Testemunhei um procedimento cirúrgico incorreto, realizado na sala ao lado de onde eu e minha equipe estávamos operando. O episódio envolveu um paciente idoso durante uma cirurgia para o que se pensava fosse uma massa em seu ceco (parte do intestino). Mas, na verdade, tratava-se de anomalia no rim direito do paciente, que estava significativamente distendido. Isso ocorreu devido à documentação incorreta no prontuário do paciente. A equipe médica não repassou as informações ou realizou uma avaliação incompleta antes da cirurgia. 

Diagnóstico – Como tirar proveito de casos como esse?
Tracey – Quando se está ciente de incidentes dessa natureza, a consciência deve ficar em alerta sobre as falhas que ocorreram relacionadas aos procedimentos. Se espera que a falha sensibilize as equipe a tal ponto que novos erros não se  repitam.  

Diagnóstico – Há uma abundância de casos de negligência que estavam ligados a padrões inadequados de comportamento por parte de médicos e enfermeiros, como a falta de humildade, a dificuldade em trabalhar em equipe e vaidade. Estes são atributos que podem efetivamente interferir na segurança do paciente?
Tracey – Isto é bastante verdadeiro. Os “fatores humanos” dos elementos de uma assistência médica segura são fundamentais. E para se evitar entraves decorrentes desse desvio de comportamento, é preciso que haja uma comunicação eficaz entre as pessoas (pacientes e funcionários do hospital e entre os próprios profissionais de saúde); relações eficazes entre profissionais de saúde e as equipes, com a vigência de equipe de trabalho (estudos têm demonstrado que onde as equipes clínicas não funcionam eficazmente, em seguida, os serviços são mais propensos a ser inseguros); e, por fim, o comportamento eficaz entre os profissionais de saúde e entre os profissionais de saúde e pacientes. No coração desses fatores está a necessidade de uma liderança forte, eficaz e uma positiva e aberta cultura de aprendizagem.

Diagnóstico – Que desafios devem ser superados pelos hospitais para atender com mais segurança o aumento da participação dos idosos no sistema de saúde?
Tracey – Há uma série de demandas a serem supridas, que incluem a compreensão das alterações fisiológicas e físicas das pessoas à medida que envelhecem e a necessidade de nutrição e hidratação adequadas. O entendimento de que as pessoas mais velhas podem ter problemas com a viabilidade de sua pele e podem ser menos móveis e, portanto, ter maior risco de desenvolver úlceras de pressão é um ponto pacífico a ser perseguido pelas equipes médicas. Há outros pontos relevantes, como a necessidade de que as pessoas sejam mantidas tão móveis quanto possível, bem como garantir que os pacientes idosos não estejam usando mais medicação do que necessitariam. Esses também são fatores importantes que devem ser levados em conta.  

Diagnóstico – A senhora veio ao Brasil a convite do CBA. O que sabe sobre o sistema de saúde nacional?
Tracey – Estou familiarizada apenas com as informações que tenho colhido de colegas no Brasil e da minha compreensão sobre os desafios que o país enfrenta, que são semelhantes aos de muitas outras nações

Diagnóstico – O ex-secretário do Tesouro dos EUA, Paul O’Neill, defendeu em um artigo publicado no Journal of JCI, que hospitais apliquem métodos de organização da indústria, como a resolução de problemas na hora em que eles ocorrem. O que mais o setor hospitalar pode aprender de outros ramos da economia?
Tracey – Acho que o segmento de saúde, de forma geral, pode aprender, de fato, como outros setores industriais gerenciam os seus negócios. E isso já vem ocorrendo. Por exemplo, usando princípios de gestão da qualidade, controle estatístico de processo e redesign. Esse legado se estende também às indústrias de alta confiabilidade, que são especialistas em reduzir a variações e eliminar o risco de erros repetidos. Outra referência importante vem da gestão dos recursos humanos do setor aéreo, que resulta em menos acidentes e um desempenho focado no trabalho de equipe e baseado em uma cultura de comunicação aberta.

Diagnóstico – A senhora esteve em Gana neste ano, verificando o uso das tecnologias de baixo custo na área da saúde, tais como o uso de aplicações móveis que orientam grávidas em áreas remotas sobre o nascimento e os primeiros meses de vida da criança. Fale sobre a importância dessas tecnologias em comunidades pobres.
Tracey – Sim, estivemos em Gana, em fevereiro, com colegas de 17 países em toda a África e da OMS e Usaid. Ouvimos excelentes exemplos de progressos significativos que estavam sendo feitos em alguns países para reduzir a mortalidade materna, as mortes de crianças menores de 5 anos de idade e a ocorrência de HIV/Aids, tuberculose e malária. Uma série de excelentes exemplos envolveu o uso de tecnologia de telefonia móvel para lembrar as mulheres sobre a importância de se manter fiéis às consultas clínicas de pré-natal e pós-natal, além do uso de aplicativos para fornecer acesso a aconselhamento clínico e orientações dos profissionais de saúde nos lugares mais remotos.

Diagnóstico – A senhora declarou recentemente ter ficado constrangida pelo fato de que os países ricos “não fazem o melhor uso da tecnologia de que dispõem”, em comparação, por exemplo, a países africanos com poucos recursos, onde há experiências simples, mas entusiasmadas de medicina. São diferentes lógicas de atenção médica? 
Tracey – Em Gana, ouvimos exemplos surpreendentes e bastante impressionantes de melhorias tangíveis em qualidade e segurança, com o uso de recursos limitados. Ao retornar da África, um relatório sobre as mortes evitáveis de pacientes em um hospital na Inglaterra foi publicado –  o inquérito sobre o Mid Staffordshire Hospital Foundation Trust. Era um contraste sobre algo que ocorreu em um país rico e desenvolvido, em comparação com o que havia testemunhado na África em termos de paixão, comprometimento e melhorias mensuráveis na qualidade e segurança do paciente. Minha conclusão foi a de que muito mais poderia ser alcançado, na África, com os recursos disponíveis em países desenvolvidos.

Diagnóstico – O relatório citado pela senhora, divulgado em fevereiro deste ano, mostrou que mais de 1.200 pacientes morreram no Mid Staffordshire Hospital entre 2005 e 2008, por causas relacionadas à negligência. Que tipo de impacto uma experiência traumática como essa causou nos padrões de segurança hospitalar do Reino Unido?
Tracey – Repercutiu enormemente nas discussões sobre a questão, não apenas no Reino Unido, mas em diversas outras nações. Principalmente no que se referiu à essência mais fundamental dos cuidados e da liderança nas organizações de saúde, além das organizações nacionais que supervisionam, gerem o desempenho e regulamentam os profissionais de saúde. Isso resultou em uma revisão dos tipos de informações coletadas como indicadores de qualidade, segurança e um compromisso de alinhar as prioridades para se concentrar nos elementos importantes do cuidado, bem-estar, respeito e deveres básicos dos profissionais de saúde. Além disso, foram reforçados os fundamentos de uma liderança forte, com coragem necessária para garantir que as instalações de saúde tenham uma cultura justa e aberta, que sejam totalmente dedicadas ao fornecimento de um atendimento seguro e de alta qualidade para os pacientes e não se distraiam deste objetivo.

Diagnóstico – No próximo ano, a Conferência Internacional da ISQua acontece no Rio de Janeiro. Como está o processo de organização?
Tracey – Progredindo excelentemente. Será uma excelente oportunidade para mostrar o trabalho emocionante que está acontecendo na área de qualidade e segurança no Brasil e na América do Sul.

*Entrevista publicada na revista Diagnóstico n° 22.



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