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29/04/13
Sistema público de saúde inglês procura cortar gastos com ações sustentáveis
Somente com um dos projetos, estima-se uma contenção de gastos de aproximadamente R$ 20 milhões por ano, segundo cálculos do Departamento de Nefrologia Nacional
Mara Rocha, de Oxford


Sede do Serviço Nacional de Saúde, na Inglaterra: ações de sustentabilidade geram economia para um sistema que não é unanimidade entre os britânicos (Fotos: Divulgação)

Na Inglaterra, o Serviço Nacional de Saúde (NHS) parece ter encontrado nos investimentos em ações eco-sustentáveis o caminho para o corte de custo nas finanças. Assessoradas por uma entidade independente e sem fins lucrativos – o Centro para Saúde Sustentável (Centre for Sustainable Healthcare) –, diversas instituições do sistema público de saúde britânico vêm realizando pequenas ações a favor do meio ambiente que resultam em grande economia para o Estado. Somente com um dos projetos, o Nefrologia Verde (Green Nephrology), estima-se uma contenção de gastos de quase R$ 20 milhões por ano, segundo cálculos do Departamento de Nefrologia Nacional. “Esse valor pode chegar a £ 1 bilhão (cerca R$ 3 bilhões), caso o NHS implemente as nossas ações nos demais serviços do sistema”, disse à  Diagnóstico o diretor clínico do departamento, Dal O’Donoghue.

Economia que vem em boa hora. Segundo informações do Economist Intelligence Unit, relatório publicado no final de 2009 acerca da saúde pública inglesa, o NHS precisa repensar os seus gastos e encontrar uma forma racional de investir recursos, mantendo ou melhorando a qualidade do atendimento. Desafio nada pequeno para quem gasta anualmente mais de R$ 300 bilhões na assistência de 60 milhões de segurados e, ainda assim, tem a aprovação de menos de 1/3 dos britânicos. Neste ponto, os programas do Centro para Saúde Sustentável caem como uma luva, à medida em que ajudam a poupar capital e, ao mesmo tempo, melhoram a imagem da entidade. Afinal, segundo estimativas britânicas, o passivo ambiental do serviço nacional de saúde já responde por 25% da emissão de carbono na atmosfera da Inglaterra.
 
Diversamente dos trabalhos em sustentabilidade que costumam abordar aspectos como arquitetura e energia sustentável, os projetos do centro em parceria com o NHS contemplam iniciativas ainda pouco exploradas no país e que, normalmente, requerem baixos investimentos. São ações como revisão de procedimentos e de utilização de material ou, simplesmente, o contato com o paciente e estímulo à medicina preventiva. O Nefrologia Verde, por exemplo, consiste no estudo de 20 casos de instituições do setor e é baseado na reutilização de água, instalação de máquinas de empacotamento para reciclagem de plástico e papelão, além da entrega centralizada de ácido para hemodiálise. Para a implementação do programa em seis dos casos analisados foi necessário um investimento de cerca R$ 360 mil, mas que resultou em uma economia anual de mais de R$ 170 mil. Para o meio ambiente, o saldo tem sido menos 84 toneladas de gases de efeito estufa lançados na atmosfera e 12 milhões de litros de água poupados, segundo relatório do centro.

Sétima dimensão – Até o momento, aproximadamente 80% das entidades inglesas dedicadas ao cuidado do rim aderiram ao Nefrologia Verde. O projeto foi criado em 2009, a partir de uma reunião entre profissionais de saúde, fornecedores e executivos do setor médico-hospitalar nacional em prol de uma nova estratégia de desenvolvimento sustentável para a saúde pública inglesa. “Sustentabilidade é a sétima dimensão da qualidade do atendimento, além da segurança, pontualidade, eficácia, eficiência, equidade e experiência do paciente”, define o presidente da Associação Renal, Charlie Tomson, parceiro do projeto. “É importante perceber que o trabalho para melhorar a sustentabilidade raramente vai estar em conflito com as outras dimensões da economia, em particular a da saúde, uma vez que proporciona uma melhor racionalização dos recursos e a conscientização dos doentes”.

Em Truro, cidade com menos de 20 mil habitantes e a 427 km de Londres, a unidade renal do Royal Cornwall Hospital (RCHT) tem obtido bons resultados desde a implantação, em 2009, de um dos programas do centro, o Planejamento de Ações Sustentáveis (SAP). Estruturado com o objetivo de apoiar equipes clínicas na tomada de decisões mais “verdes”, o SAP é baseado em princípios como saúde preventiva, racionalização de recursos e sistemas eficientes, além da prestação de tratamentos e escolha por tecnologias com menor impacto ambiental. Os benefícios gerados pelo programa não têm sido somente em dinheiro – R$ 173.100 economizados por ano. A instituição também conseguiu reduzir em 50% o tempo de espera dos pacientes pelos atendimentos, devido à eficientização dos seus processos de rotina. “A implementação do SAP é uma maneira excelente para economizar, proporcionando um funcionamento eficaz, melhorando a qualidade dos serviços e tornando a saúde mais sustentável em provedores locais”, define o diretor da Saúde Pública de Cornwall, Felicity Owen. 

A partir do envolvimento de toda a equipe do Royal Cornwall, capacitada através de workshops, foi possível promover a conscientização dos funcionários em prol das ações do plano. Por exemplo, o hospital conseguiu eliminar as viagens de ambulância desnecessárias e acabar com o desperdício de material descartável, poupando R$ 93 mil por ano. Além disso, segundo relatório do centro, o engajamento dos funcionários ajudou a fortalecer o sentimento de equipe entre os colaboradores, que passaram a se orgulhar mais do trabalho desenvolvido e a se empenhar mais em suas funções. “Temos avançado com esse projeto e cuidado das nossas questões ambientais, o que torna o  nosso trabalho mais satisfatório”, confirma a coordenadora de Serviços Gerais da Unidade Renal do RCHT, Katherine Hope.

No total, 52,3 toneladas de CO2 deixaram de ser emitidas por ano pelo Royal Cornwall Hospital. Para o administrador da Unidade Renal do RCHT, Simeon Edwards, ainda é possível fazer mais. “O ideal seria poder investir o dinheiro economizado com a implantação do  SAP em mais ações para reduzir a emissão de carbono na atmosfera”, sentencia o executivo. 


Raquel Stancliffe, diretora do Centro para Saúde Sustentável, com sede em Oxford: empresas apoiadoras querem salvar o planeta, mas também seus negócios (Fotos: Divulgação)

Centro – Nefrologia Verde e SAP são dois dos programas de maior destaque do Centro para Saúde Sustentável, mas não os únicos. A entidade, sediada em Oxford, acompanha atualmente cerca de 100 projetos verdes em aproximadamente 30 especialidades, espalhadas pelas instituições de saúde de diversas regiões da Inglaterra. “Pode parecer um grande número, mas ainda é pouco”, afirmou à Diagnóstico a diretora e cofundadora do centro Rachel Stancliffe, que não determinou quanto capital tem sido economizado nessas organizações. Segundo ela, há ainda muita demanda nos serviços do NHS, mas que dependem da solicitação dos próprios gestores de hospitais e casas de saúde. 

Além do NHS, centros de pesquisa locais e associações britânicas ligadas à medicina, a entidade conta ainda com importantes parceiros da indústria, como GE, GSK, Johnson e Johnson, Philips, Fresenius, Chiesi e BD. A parceria com as empresas produtoras de equipamentos e medicamentos permite ao centro propor modelos de adaptação de produtos para uma linha mais sustentável e, por que não, mais rentável. A colaboração dos parceiros, conta Rachel, é garantida. “Eles (indústria) não são estúpidos. Sabem que, quando pensam no futuro do planeta, salvam também os seus negócios”, pondera. 

É que atender às solicitações do centro pode ser também uma forma de assegurar uma fatia de mercado na Inglaterra, uma vez que somente os gastos do serviço público com medicamentos equivalem a 10% do capital investido na saúde do país, segundo dados do Economist Intelligence Unit. “Um exemplo de como os produtos podem ser melhorados sem aumento de custo são as bombinhas contra asma”, cita Rachel, explicando que o medicamento é um dos que mais poluem o meio ambiente. “As bombinhas respondem por 7% das emissões de carbono no planeta, por isso a indústria já desenvolveu uma droga com a mesma função terapêutica, mas em pó”, diz a diretora.  

Rachel fala com a propriedade de quem ajudou a criar a primeira e única instituição britânica especializada no desenvolvimento de projetos em sustentabilidade especificamente para o campo da saúde. Graduada em Ciências Humanas pela Universidade de Oxford e com mestrado em Demografia e Epidemiologia pela Escola de Economia de Londres, a gestora trabalhou em iniciativas de saúde pública no Reino Unido, Geórgia e Cazaquistão antes de receber o convite de um antigo professor da faculdade para a criação do centro. O trabalho teve início em 2008 como Campanha para Saúde Mais Verde (Campaign for Greener Healthcare), até ganhar o status de centro em 2011. 

A estrutura ainda é pequena – cerca de dez colaboradores fixos –, mas envolve mais de 400 profissionais de diversas localidades, em programas baseados no engajamento de pessoas e partilha de conhecimento e transformação. “O trabalho desenvolvido pelo Centro para Saúde Sustentável engaja as organizações e os trabalhadores do NHS para que entendam os benefícios que derivam do fato de agir sustentavelmente, economizando dinheiro e melhorando a qualidade da saúde”, elogia o diretor do Departamento de Desenvolvimento Sustentável do NHS, David Pencheon. Os projetos duram, em média, dois anos, mas podem variar conforme as necessidades de cada instituição. 

O mesmo vale para o custo do trabalho, que costuma ser cobrado em diárias de cerca R$ 1.500. O centro também vive de doações, que podem ser feitas através do próprio site da instituição. A ideia já ultrapassou as fronteiras da ilha britânica e tem inspirado iniciativas parecidas em outros cantos do mundo. “Recebemos visitas de delegações da Austrália e Nova Zelândia interessadas em replicar as ações do centro em seus países”, relata, orgulhosa, Rachel, que revela um sonho: “Ver trabalhos como os nossos se multiplicando em muitas nações para, juntos, fazermos a diferença”. Até lá, a economia da Inglaterra agradece.

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OXFORD VAI SER A CAPITAL MUNDIAL DA SUSTENTABILIDADE
com o tema caminhos para a saúde sustentável, encontro tem como foco o cumprimento das metas para reduzir a emissão de c02 no setor em 80%, até 2050


Raquel Stancliffe, diretora do centro para saúde sustentável, com sede em oxford: empresas apoiadoras querem salvar o planeta, mas também seus negócios (Fotos: Divulgação)

Entre os dias 17 e 19 do próximo mês de setembro, todos os holofotes do campo da sustentabilidade na saúde se voltarão para Oxford. Pela primeira vez, a cidade inglesa sediará a CleanMed Europe, mais importante conferência do setor na Europa e uma das maiores do segmento no mundo. E será o próprio Centro para Saúde Sustentável o responsável por promover esta que já é a quarta edição do evento no continente. 

Com o tema Caminhos para a saúde sustentável, aproximadamente 60 speakers de diversas partes do mundo vão conduzir um mix de palestras, fóruns de discussão, apresentação de cases, oficinas e sessões interativas. Na ocasião também serão lançadas novas campanhas de fomento à sustentabilidade no setor. “A organização de um encontro deste porte está sendo o nosso maior desafio até agora, pois seremos observados por profissionais e instituições em todo o planeta”, disse à Diagnóstico a coordenadora do evento no centro, Mary Zacaroli. Neste ano, a conferência tem como foco os debates sobre o cumprimento das metas para reduzir a emissão de carbono em 80% até 2050, ao mesmo tempo em que deverá se manter ou melhorar a qualidade do atendimento nas instituições. 

Bom para o planeta, melhor para os negócios. No encontro de Oxford, o centro prevê a participação de cerca 450 congressistas provenientes de 45 países diferentes, entre líderes políticos, executivos do segmento médico-hospitalar, pesquisadores e ambientalistas. “A CleanMed é uma ótima oportunidade para conhecer as ações e novidades de outros hospitais e fornecedores, além de proporcionar um interessante networking”, avalia o gerente de Sustentabilidade do Hospital Israelita Albert Einstein, Marcos Tucherman, que  no ano passado participou da conferência em Malmo, na Suécia. “É provável, inclusive, que apresentemos em Oxford um tema de Lean 6 Sigma e seus impactos na sustentabilidade”, informa Tucherman, referindo-se à LSS, metodologia voltada à melhoria contínua de processos. “O assunto tem ligação intrínseca com a sustentabilidade, na medida em que racionaliza processos, custos e pessoas, através do enfoque direto em gargalos e outras questões de qualidade, como giro de leitos ou processo de internação”, explica. A inscrição para o evento custa £ 450 (cerca de R$ 1.400) e pode ser realizada no site http://www.cleanmedeurope.org/.

História – A CleanMed teve origem em Boston, nos Estados Unidos, em 2001, promovida pela organização sem fins lucrativos Health Care Without Harm. O evento, que vem acontecendo anualmente em diversas localidades do país, neste ano também ocorrerá entre os dias 24 e 26 de abril, em sua cidade natal, nos EUA. Somente em 2004 a iniciativa norte-americana ganhou uma versão europeia, com a conferência em Viena, na Áustria. Nascia assim a CleanMed Europe, que desde então tem ocorrido esporadicamente no velho continente – Estocolmo (2006), Malmo (2012) e Oxford (2013). 

Seja nos EUA ou nos países europeus, a conferência acerca da sustentabilidade na saúde serve como um indicador de tendências, tanto para instituições de saúde, como indústria farmacêutica, de equipamentos e energética, à medida que discute também demandas de produtos ecossustentáveis em cada mercado. Apesar de às vezes acontecer em dois momentos no ano e em nações diferentes, a adesão de participantes tem crescido a cada edição do evento: na Europa, o público mais que duplicou desde 2004, quando participaram 200 pessoas provenientes de 28 países. “Outros continentes, como a América Latina, podem criar também uma CleanMed local. Seria uma ótima ideia”, sugere a diretora do Centro para Sustentabilidade na Saúde, Rachel Stancliffe. 

*Matéria publicado na revista Diagnóstico n°19.



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