home notícias Gestão
Voltar Voltar
02/05/14
Médico cria rede de hospitais inspirada na indústria automobilística
O indiano Devi Shetty inaugurou um modelo de prática médica que chamou a atenção do mundo inteiro ao adaptar a rotina de um hospital a linha de montagem da indústria automobilística. O resultado: baixo custo e um boa dose de polêmica
Adalton dos Anjos


O indiano Devi Shetty é especialista em cardiologia e dono de uma rede de 23 hospitais na índia: cirurgias cardíacas por até R$ 1.900 (Foto: Divulgação)

A saga do cardiologista indiano Devi Shetty em ampliar o acesso a saúde na Índia –  e seus 1,2 bilhão de habitantes – é repleta de curiosidade, desconfiança e alento para aqueles que acreditam que os custos crescentes na saúde podem ser domados. Médico pessoal nos últimos cinco anos de vida de Madre Tereza de Calcutá – a quem considera sua grande inspiração – Shetty consegue realizar cirurgias cardíacas invasivas por até R$ 1,9 mil, enquanto o valor médio do procedimento em hospitais brasileiros ultrapassa os R$ 40 mil. Ao mesmo tempo, registra uma receita total de US$ 141,5 milhões (2013), em sua rede de 23 hospitais, localizados em 14 cidades – o Narayana Hrudayalaya Group of Hospitals. A estandardização é a essência desta companhia, que em fevereiro de 2014 tornou-se a primeira empresa indiana a ter uma unidade no Ocidente, – nas Ilhas Cayman –, aproximando sua expertise do mercado norte-americano. Os planos ambiciosos do médico, conhecido como o Henry Ford das cirurgias do coração, incluem a ampliação do número de leitos dos atuais 6,2 mil para 30 mil até 2017 e o aumento da fatia dos pacientes internacionais, que atualmente é de 5%.

Shetty é um típico mercador indiano que soube aproveitar bem as regras do capitalismo para criar um negócio rentável e acessível. Como em uma linha de montagem, o cardiologista organizou o sistema de atendimento e o processo de intervenções cirúrgicas de forma que ele consiga atender 70 e às vezes até 100 pacientes diários, durante cada um dos seis dias da semana em que está no hospital. “Não preciso gastar muito tempo com cada paciente porque eles já foram avaliados por cardiologistas seniores e juniores”, explica o médico, que utiliza seu precioso tempo livre, apenas aos domingos, para estar com a família ou lendo livros. 

A atuação do cardiologista, reconhecido em todo o mundo como um dos melhores em sua especialidade, funciona quase como o checklist final da consulta. Nos casos de cirurgias, ele entra na sala apenas no momento mais importante da operação e não permanece no local por mais de uma hora. O modelo fez com que o Narayana Hrudayalaya de Bangalore, um dos hospitais da rede, fosse o recordista em número de cirurgias cardíacas no mundo, com 30 operações diárias em 2012. O volume mensal em toda a rede é de cerca de 700 procedimentos deste tipo. Todos os meses, cerca de 80 mil pacientes passam pelos hospitais da rede indiana. A soma diária dos exames laboratoriais chega a 13,2 mil. Com números tão consistentes, Shetty usa seu poder de barganha para negociar com os fornecedores de suprimentos e de equipamentos médicos. Assim como as montadoras de automóveis, o Narayana Hrudayalaya terceirizou algumas etapas de sua produção para reduzir os custos dos testes. Um fabricante de suprimentos usados para exames de gasometria arterial, por exemplo, foi convencido de que em vez de vender as máquinas que produzem os reagentes, deveria montar os equipamentos nas dependências do hospital, sem pagar nada por isso, e fornecer os produtos. A estratégia foi a mesma usada por um outro fornecedor de suprimentos para cateterismo. O resultado: menores custos, ganho sob demanda em toda a cadeia produtiva e mais pacientes atendidos.


Unidade do Narayana HruDdayalaya, localizadaa em Bangalore: hospital sustenta o recorde mundial de 30 cirurgias cardíacas realizadas diariamente (Foto: Divulgação)

Walmartização da Saúde – A economia em escala, não por acaso, é uma estratégia bastante utilizada pelo Narayana Hrudayalaya para reduzir seus preços. Não é à toa que um estudo da Harvard Business School se refere ao modelo da rede indiana como a “Walmartização da saúde”, em referência à companhia Walmart, maior varejista do mundo. Contêineres inteiros repletos de suprimentos médicos já foram comprados sem intermediários, diretamente de fábricas de países vizinhos, como a Malásia. Ações deste tipo geram reduções no preço final de até 40%. Produtos de baixo valor agregado – a exemplo de vestuário cirúrgico, suturas e até cortinas usadas em biombos – são comprados no próprio país, a um custo compatível com a vizinha China.

O estoque administrado é o mínimo possível e a negociação de contratos com os fornecedores tem sempre prazos curtos. Na área de imagem, a palavra de ordem é produtividade. Enquanto países como EUA ou Brasil, utilizam estas máquinas por cerca de oito horas todos os dias, a rede indiana reduziu o tempo de ociosidade e as utiliza por 14 horas em cada jornada. Nos horários menos procurados, geralmente pela noite, os pacientes mais pobres são atendidos. Desta forma, o Narayana Hrudayalaya Group of Hospitals consegue aumentar o volume de exames e, naturalmente, reduzir custos.

Qualidade – Para combater qualquer desconfiança quanto à qualidade do tratamento oferecido aos seus pacientes por conta dos preços baixos, a rede indiana buscou a certificação internacional em saúde da JCI – a mais respeitada do mundo – com dois hospitais acreditados, nas cidades de Bangalore e Jaipur. “Poucos hospitais na Ásia têm essa qualificação”, vangloria-se o executivo, que tem, além das prerrogativas de bom cirurgião, a fama de ser bastante carismático entre a população mais pobre do país. Outras quatro unidades da rede possuem acreditação pela National Accreditation Board for Hospitals & Healthcare Providers (NABH) – versão indiana da ONA. Além disso, as taxas de mortalidade, abaixo dos 2%, e os índices de infecção hospitalar, comparáveis aos melhores hospitais do mundo – alcançando a marca dos 2,8 por mil dias de UTI – também são dados que mostram para o mundo a capacidade da companhia.


Shetty, Durante atendimento a pacientes de baixa renda: trabalho assistencial inspirado em Madre Tereza de Calcutá (Foto: Divulgação)

Shetty garantiu à Diagnóstico que o investimento em equipamentos, próteses e drogas não sofre impactos das suas estratégias para redução brutal das despesas. A economia começa desde a estrutura dos hospitais, que custam o equivalente a 1% (US$ 6 milhões) dos gastos da construção de uma unidade em Nova Iorque. Para reduzir o consumo de energia elétrica, os aparelhos de ar-condicionado funcionam apenas nas UTIs e laboratórios, enquanto as amplas janelas dispensam o uso de luzes durante o dia. O número de enfermeiros também é contido, já que os familiares são treinados por quatro horas para realizar os cuidados básicos pós-cirúrgicos. “Tentamos cortar custos apenas com itens supérfluos, que não vão influenciar nos resultados”, reforça o cardiologista. “A maioria dos nossos pacientes é pobre e não procura confortos como cozinha internacional, climatização ou piso de mármore”. 

Mais de 60% dos pacientes operados na rede Narayana Hrudayalaya Hospitals é formada por trabalhadores de classe baixa que não têm condições de pagar por serviços de saúde. Doações de filantropos e subsídios do governo, junto com as taxas pagas por 40% dos atendimentos, equilibram as contas.

“A  Índia se tornará o primeiro país do mundo a dissociar a oferta dos serviços de saúde da geração de riqueza para seus agentes provedores”, reflete Shetty. Questionado pela reportagem se tinha enriquecido, o médico, que mantém em seu escritório duas fotos de Madre Teresa de Calcutá e Mahatma Gandhi, preferiu um discurso espiritualista. “A riqueza não faz diferença no que faço”. Segundo informações de uma auditoria financeira indiana, em 2009 o humanitário recebeu cerca de US$ 500 mil a título de rendimentos.

Regime ortodoxo – Assim como no Brasil, as margens de lucro dos hospitais indianos, inclusive os da rede Narayana Hrudayalaya, não são maiores do que 10%. Quanto à parcela de participação da mão de obra na operação, o custo é de aproximadamente 30%, com previsão de redução gradual para 20% na medida em que os procedimentos e a receita ampliem. Atualmente, 1.302 médicos se dedicam exclusivamente à companhia, que conta com outros 11.359 colaboradores. Eles têm salários fixos e compatíveis com o custo de vida da Índia, segundo Shetty, além de trabalhar entre 14 e 15 horas por dia. O presidente da Narayana Hrudayalaya Group não acredita, contudo, que a qualidade do atendimento possa ser impactada por um regime de trabalho tão ortodoxo.

A última tacada nos negócios de Shetty foi a criação de microplanos de saúde que possuem mensalidade de apenas US$ 0,11 (6,83 rúpias). A outra parte é subsidiada pelo Estado. Em dez anos, mais de 450 mil camponeses realizaram algum tipo de cirurgia na Índia através do sistema e 66 mil fizeram cirurgias do coração em um dos 400 hospitais que participam do programa. Mas ainda há muito a ser feito. Segundo estudos da University of Maryland Medical Center e do Indian Market Research Bureau (IMRB), empresa local especializada em pesquisa de mercado, cada indiano tem três vezes mais chances de desenvolver cardiopatias, por fatores genéticos, do que os europeus. Para atender a essa demanda, todos os anos o país – cujo crescimento populacional é estimulado pelo governo – precisaria fazer 2,5 milhões de cirurgias do coração. No entanto, apenas 90 mil procedimentos são realizados. Além disso, a Índia concentra um terço da população mundial vivendo em extrema condição de pobreza; 400 milhões de pessoas sobrevivem com menos de US$ 1,25 por dia.

Preocupado com o aumento iminente dos custos em saúde no país, Shetty está tentando convencer o governo a lançar mais um plano de saúde, que deve ser pago mensalmente junto com as tarifas do celular. “Se pudermos coletar US$ 0,30 (20 rúpias) todos os meses dos 850 milhões de linhas de telefones móveis cobriremos os custos em saúde de 850 milhões de pessoas”, propõe o médico, no que poderia ser comparado a uma CPMF à moda indiana. Claro que o Brasil não é a Índia, mas há um ponto em comum, além da pobreza, que une as duas nações emergentes: a busca de um milagre da multiplicação da assistência, com custo cada vez mais acessível.

Matéria publicada na revista Diagnóstico n° 24.

Leia mais:
>> Na Índia, empresário reduz cirurgias pela metade do preço




PUBLICIDADE

Mais lidas


    Warning: mysql_num_rows() expects parameter 1 to be resource, boolean given in /home/diagnosticoweb/www/noticia-interna.php on line 309

    Warning: mysql_free_result() expects parameter 1 to be resource, boolean given in /home/diagnosticoweb/www/noticia-interna.php on line 322

Newsletter

Cadastre-se e receba as novidades do Diagnosticoweb em seu e-mail

agenda

facebook

© Copyright 2012, Diagnósticoweb . Todos os direitos reservados.