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13/05/13
Perfil: Brasileiro ensina monarquia saudita a gerir hospital em Riad
Como gestor do Sírio Libanês, Mathias Mangels, presidente do Tantum Group, chamou a atenção e agora ensina árabes a gerir o Princess Nora University Hospital, um dos maiores hospitais do Oriente Médio
Gilson Jorge


O paulistano Mathias Mangels, presidente do Tantum Group: experiência no Sírio Libanês chamou a atenção dos árabes (Fotos: Divulgação)

Passar três semanas seguidas no Brasil é um luxo para o consultor de empresas Mathias Mangels, um paulistano que, aos 58 anos, é uma das maiores referências mundiais em administração de empresas. Sua consultoria, Tantum Group, tem escritórios em dez países nas Américas, na Europa e no Oriente Médio, onde Mangels enfrenta o seu mais novo desafio: moldar o sistema administrativo do hospital-escola da Universidade Princesa Nora, na Arábia Saudita, a maior instituição de ensino exclusivamente para mulheres do mundo, com cerca de 40 mil alunas.

Do escritório da Tantum em Riad, capital da Arábia Saudita, Mangels comanda a equipe encarregada de moldar a gestão administrativa e financeira do Princess Nora University Hospital, um centro médico com 600 leitos que servirá para o atendimento à população em geral e como laboratório profissional para as alunas do curso de medicina da universidade. Uma tarefa gigantesca, que envolve muitos valores, não somente econômicos como culturais. 

A primeira grande diferença em relação às consultorias prestadas em outros países vem da fonte de recursos. Maior produtor mundial de petróleo, com produção diária de 11,2 milhões de barris, a Arábia Saudita é uma monarquia, e o dono de toda essa riqueza é o rei Abdullah. Desde 2007, o monarca tira, digamos, do seu próprio bolso cerca de US$ 100 milhões por ano para a construção da universidade desde que ela foi recriada com o nome da princesa Nora, irmã do soberano que fundou, em 1875, o Reino da Arábia Saudita.
 
O desafio de Mangels é fazer com que o dinheiro do monarca seja bem aplicado e que o hospital tenha uma administração profissional. Para isso, o consultor brasileiro está implantando na unidade o método balanced scorecard, que estabelece metas de crescimento a partir de estratégias sustentáveis e cria um indicador para cada objetivo desses. “Assim, a organização pode checar se cada funcionário ou setor está no rumo certo para atingir o alvo”, afirma.

Mas além de levar o hospital a atingir números positivos, a equipe de Mangels tem como objetivo repetir em terras árabes o mesmo sucesso gerencial que ajudou o Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, a se firmar como uma das maiores referências hospitalares do país. Ou que levou o porto-alegrense Moinhos de Vento a se credenciar como uma instituição de alcance internacional.

O sucesso da Symnetics no setor hospitalar, aliado à exposição internacional experimentada pela consultoria em outras áreas, trouxe ao Brasil em 2011 um grupo de árabes que veio examinar in loco o trabalho da empresa antes de contratar os seus serviços. Em maio de 2012, o negócio foi fechado.

Só para mulheres – Com carta branca da monarquia saudita, Mangels comanda a contratação do profissionais de saúde que vão atuar no PNUH. Gente de todas as partes do mundo está sendo admitida para trabalhar no hospital, que vai servir de modelo para todo o Oriente Médio, oferecendo a pacientes de dentro e de fora da universidade uma enorme gama de serviços.

O executivo destaca que, apesar de eventualmente atender a homens, o foco do hospital será a saúde da mulher, e parte do seu trabalho é estabelecer as estratégias para que a unidade seja bem sucedida. “Temos que pensar em que áreas da medicina queremos ser excelentes”, define o consultor. Entre os procedimentos disponíveis estarão medicina diagnóstica não invasiva, hemodiálise, centro cirúrgico, UTI neonatal, obstetrícia, ginecologia, centro de tratamento oncológico e clínica musculoesquelética, entre outros serviços. Uma parte do hospital já está em operação, mas as obras só serão concluídas no final de 2014.

Até lá, a equipe de 70 consultores que atua em Riad, sob o comando de Mangels, vai estar às voltas com a contratação de profissionais qualificados em uma região do planeta onde a ocupação feminina é vista com restrições. E a população em geral tem uma relação diferente com o trabalho. “Noções de rapidez na execução das tarefas e ganho de tempo são ainda um desafio cultural a ser transposto”, salienta o executivo. Além disso,  as mulheres não são autorizadas a exercer profissões em que tenham contato direto com homens. Ou seja, o exercício da medicina é quase impossível para o sexo feminino na Arábia Saudita, embora elas sejam razoavelmente aceitas em cargos administrativos e em recursos humanos. O Princess Nora University Hospital, por exemplo, vai ser comandado por uma mulher, a médica Basma Albuhairan. Uma grata execeção. 

Recentemente, Mangels convidou uma especialista ocidental em gestão para fazer uma palestra e, devido às complicações que seriam geradas pela sua presença na Arábia Saudita, resolveu transferir o evento e levar os congressistas para Dubai – cidade mais cosmopolita do vizinho Emirados Árabes Unidos e onde uma mulher falando ao microfone não chega a ser um escândalo.


Ilustração do Princess Nora University Hospital: com inauguração prevista para 2014, a unidade será especializada em atenção à mulher (Fotos: Divulgação)

Com todas essas adversidades, a consultoria está recorrendo à contratação de trabalhadores de outras partes do planeta para atuar nas partes médica e administrativa, de uma maneira que se enquadre nos métodos estabelecidos pelo balanced scorecard, que Mangels pretende consolidar no PNUH.
 
O método que serve de bússola para o trabalho de Mangels mundo afora foi criado em 1992 pelos professores Robert Kaplan e David Norton, dois gurus da Harvard Business School que conheceram o brasileiro casualmente em 1994, durante a Feira de Hannover, na Alemanha. Após esse encontro, Mangels assinou acordo de exclusividade no uso do balanced scorecard na América Latina. 

Brasil competitivo – Como resultado, a pequena Symnetics, criada em 1989 pelo empresário paulistano, ganhava respaldo para prestar consultoria a gigantes como as brasileiras Amanco, Petrobras, Suzano e Ultra, além da Volkswagen mexicana, e aos governos dos presidentes Álvaro Uribe (Colômbia) e Vicente Fox (México). Poucos anos depois, os três se tornariam parceiros em alguns projetos de consultoria internacional. 
 
O primeiro trabalho conjunto do trio foi uma missão confiada a Mangels pela dupla americana, que queria melhorar os resultados financeiros de sua consultoria, a Palladium, na América Latina e na Europa Oriental. Com o êxito de Mangels, ele foi convidado a assumir em 2006 a vice-presidência mundial da Palladium. De um escritório na Inglaterra, o brasileiro passou a comandar todas as operações da firma fora do território americano. Assim como o resultado do trabalho no Brasil impulsionou Mangels a atuar no exterior, o seu reconhecimento em terras estrangeiras aumentou o seu campo de atuação no país. 

O sucesso internacional da Symnetics, que no exterior foi batizada de Tantum Group, levou Mangels a ser convidado pela presidente Dilma Rousseff a assessorar o governo federal na área de inovação. O Movimento Brasil Competitivo, que prevê a modernização da gestão pública e privada, foi criado em 2001 com a participação do Estado e de algumas das maiores empresas do país.

Boa parte delas já havia recebido consultoria da Symnetics, como Gerdau, Klabin e Siemens, além da já mencionada Suzano. Uma trajetória de êxito absoluto para um homem que, aos 34 anos, decidiu que trocaria o conforto de poder herdar a administração da metalúrgica Mangels, criada por seu avô em 1928, para realizar o sonho de colocar em ordem os negócios criados por estranhos. Esse sonho tem deixado o paulistano cada vez mais longe de sua casa. “O período em que passo mais tempo no Brasil é durante o Ramadã, que coincide com as férias na Europa”, afirma Mangels, referindo-se ao mês sagrado do islamismo, quando os fiéis se dedicam ao jejum. Embora não haja um data fixa, pois é contado como o nono mês do calendário islâmico, o Ramadã normalmente acontece entre julho e agosto. 

À exceção desse período, Mangels divide o seu tempo entre três continentes, prestando consultoria a empresas de diferentes setores.  Mas o Oriente Médio e a área hospitalar ocupam um espaço cada vez maior na apertada agenda do executivo brasileiro. Juntamente com os setores químico, petroquímico e de mineração, essa é uma área rotulada pela Symnetics como um dos seus centros de competência. 

A proximidade cada vez maior com o Oriente Médio – há  projetos de consultoria em andamento na Arábia Saudita e de Omã – indica que as horas de folga dos consultores da Tantum na região serão cada vez mais raras. Por sorte, pelo menos uma vez por ano existe o Ramadã.

Matéria publicada na revista Diagnóstico n°19.



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