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08/06/15
Seis dicas para ser um hospital sustentável a partir do zero
No segmento hospitalar, consumo de recursos naturais e demanda por matérias-primas são uma das maiores em comparação com outros setores, segundo especialistas
Adalton dos Anjos


A adoção de práticas ambientalmente sustentáveis deve ser um compromisso firmado por todos os membros de diferentes níveis hierárquicos da instituição (Shutterstock / Editoria de arte)

A sustentabilidade ambiental definitivamente entrou no radar dos gestores e profissionais do setor de saúde. De acordo com uma pesquisa realizada pela Harris Poll, entre abril e julho deste ano, com mais de 300 cirurgiões e enfermeiras, 80% dos entrevistados acreditam que os hospitais onde trabalham vão incorporar a sustentabilidade em suas decisões sobre compra nos próximos dois anos. No segmento hospitalar, o consumo de recursos naturais e a demanda por matérias-primas são uma das maiores em comparação com outros, segundo especialistas, mas, como se trata de uma área com vocação social, a questão do meio ambiente sempre ficou em segundo plano. Hoje, a pegada ecológica vem obrigando as instituições de saúde a repensar suas prioridades e planejar melhor os impactos que provocam no meio ambiente.
Para os gestores que estão começando a se deparar com a necessidade de formalizar ações que ajudem a preservar o meio ambiente na rotina de uma unidade de saúde, a Diagnóstico buscou especialistas e exemplos práticos de como ser sustentável partindo do zero.

1 – Ir além do discurso

Mais do que uma estratégia de marketing, a adoção de práticas ambientalmente sustentáveis deve ser um compromisso firmado por todos os membros de diferentes níveis hierárquicos da instituição. Do presidente e da alta governança virão os exemplos e incentivos para que os funcionários de baixo escalão se sintam envolvidos. “Se o gestor não tiver o real interesse, tudo começa fracassando, porque é preciso engajar todo o staff, sobretudo os integrantes da limpeza. É neles que está o grande desperdício”, explica Fábio Bitencourt, presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar (ABDEH).

A formalização de um programa de sustentabilidade e a busca por uma certificação verde são algumas ações que ajudam no processo de criação de uma política de preservação ambiental. “Entre os funcionários, sempre há pessoas propensas a disseminar práticas sustentáveis, mas não encontraram uma oportunidade, por isto é importante institucionalizar um programa, dar um nome e formar uma equipe mínima, uma espécie de green team”, defende o arquiteto e urbanista Vital Ribeiro, presidente do conselho consultivo do Projeto Hospitais Saudáveis – organização formada por mais de 100 membros entre hospitais, clínicas, sistemas de saúde e O.S., que se dedica a incentivar a disseminação de práticas sustentáveis através de seminários, eventos e publicações, como a recém-lançada Agenda Global para Hospitais Verdes e Saudáveis (AGHVS). Os integrantes deste setor verde podem ser escolhidos nas grandes áreas do hospital e se reunir periodicamente para discutir estratégias para serem adotadas em cada departamento da unidade visando o cuidado com o meio ambiente.

2 – Criar um projeto arquitetônico 

Para quem começa a planejar uma nova unidade ou um anexo ao hospital, a criação de um projeto arquitetônico compatível com regras e recomendações que diminuam o impacto das obras e do edifício para a sociedade pode reduzir custos no futuro. Na opinião de Bitencourt, para a realização desta tarefa, não é possível abrir mão da presença de gestores especialistas em arquitetura e engenharia. O Instituto de Oncologia do Hospital Santa Paula (SP), inaugurado há cerca de dois anos, foi concebido desde a fase de projeto com uma concepção sustentável e mantém um gerente de engenharia em sua equipe. O resultado do planejamento fez com que esse fosse o primeiro edifício hospitalar do Brasil a receber certificação Aqua (Alta Qualidade Ambiental) pela operação e uso sustentáveis. O selo internacional da construção sustentável é desenvolvido pela certificação francesa Démarche HQE (Haute Qualité Environnementale) e, no Brasil, o processo é conduzido pela Fundação Vanzolini, empresa mantida por professores de Administração Industrial e Engenharia de Produção da USP.

O processo de construção do hospital paulista obedeceu a regras de gerenciamento de impacto do ambiente com ecoconstrução, ecogestão, conforto e a questão sanitária. “Planejamos desde a relação do edifício com o seu entorno e o acesso, até a escolha de produtos com baixa emissão de poluição e o canteiro de obras com baixo impacto ambiental”, explica Walmor Brambilla, gerente de engenharia do Hospital Santa Paula e do Instituto de Oncologia.

3 – fatores climatológicos

“Um princípio fundamental para quem trabalha com arquitetura é usar as condições naturais”, sentencia Bitencourt. Seguir a orientação correta dos ventos e da trajetória do sol pode minimizar impactos climáticos como a intensidade de calor dentro do ambiente. O paisagismo ou a colocação de um espelho de água com 10 cm de profundidade ajuda a reduzir a temperatura de um ambiente entre 3°C a 5°C. Existem outras soluções que podem ser usadas por unidades em construção ou já em funcionamento para diminuir os custos com energia, como a ventilação natural, o telhado verde, o brise-soleil (quebra-sol) e a escolha de um local adequado para a instalação do sistema central de ar-condicionado; com unidades condensadoras postas em ambientes protegidos da incidência solar – a ação pode resultar em economia no uso do equipamento, com redução da temperatura em de 5°C a 7°C. 

Um dos exemplos mais emblemáticos quando se fala em eficiência energética, planejamento arquitetônico inovador e conforto ambiental são os hospitais da Rede Sarah Kubitschek, realizada pelo arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, que faleceu em maio de 2014. As nove unidades espalhadas pelo país exploram os princípios da arquitetura bioclimática e usam estratégias de ventilação e iluminação naturais, respeitando o conforto hidrotérmico e visual com a incidência de luz solar dentro do edifício.

4 – Adotar o hospital paperless

A redução do uso de papel nas rotinas hospitalares pode parecer simples, mas tem consequências fundamentais para a questão da sustentabilidade. Outro nível atingido é o da sustentabilidade financeira, proporcionada pelo menor consumo do suprimento e maior segurança e rapidez no fluxo informações. O sistema de saúde inglês NHS, por exemplo, planeja economizar até 2018 cerca de 4.4 bilhões de euros (o equivalente a R$18 bilhões), segundo levantamento da PwC encomendado pelo Departamento de Saúde do governo britânico, com estratégias de paperless que incluem o uso de prontuários eletrônicos. Outras alternativas amplamente disponíveis no mercado são os softwares de gestão de atendimento e de informações sobre as finanças do hospital que atendem às necessidades dos gestores. Bitencourt também alerta para o ganho em espaço físico para as unidades que adotam o conceito hospital paperless. “O Hospital Municipal Jesus (RJ) tem algo em torno de 5 a 8 mil m² só para guardar volume morto. Ele é importante, mas quanto tempo vai durar?”, questiona.

5 – Cuidar das condições ergonômicas 

Um ambiente ergonomicamente mal projetado pode gerar consequências no conforto e na eficiência do trabalho, além de impactos ambientais. É preciso atender às necessidades individuais, limitações e fragilidades do funcionário. Uma estação de trabalho mal planejada com o usuário sendo obrigado a levantar muitas vezes durante a sua jornada para pegar um documento desnecessariamente é avaliada por especialistas como insustentável sob o aspecto do impacto ao ambiente. Na unidade oncológica do Hospital Santa Paula, outros aspectos também foram pensados para oferecer conforto para pacientes e colaboradores. Além das estratégias hidrotérmicas e acústicas, soluções que permitam experiências visuais e olfativas de boa qualidade também são usadas. A exploração da luz solar em partes internas do edifício, como a área administrativa, são controladas por dispositivos que evitam o ofuscamento, como vidros e quebra-sol, por exemplo; já as áreas com potencial emissão de odores foram instaladas em locais afastados dos pontos de trabalho fixo para evitar incômodos.

6 – Planejar o descarte de resíduos

Mesmo em hospitais que não possuem um programa formalizado de sustentabilidade, o descarte de resíduos sólidos é previamente planejado por conta de regras estabelecidas pela Anvisa e da legislação federal (nº 237) sobre o lixo hospitalar. No entanto, é possível sair da obrigação e ser mais agressivo nas ações de descarte. Primeiramente, é necessário desenvolver uma consciência coletiva através da orientação para a separação do lixo. “No Santa Paula, desenvolvemos o programa “Menos é Mais” para informar as pessoas sobre as melhores práticas para economia de recursos e sustentabilidade”, explica Brambilla. Banners e informes dentro do elevador ou banheiros dão dicas para o público do hospital. Torneiras automáticas e vasos sanitários com sistema de caixa acoplada com fluxo duplo para sólido e líquido, além da captação de água da chuva, ajudam a economizar água na instituição. Um paciente ainda não escolhe uma unidade onde receberá tratamento porque ela é ambientalmente sustentável. No entanto, a adoção de estratégias de preservação ao meio ambiente agrega valor à marca de um hospital. “Instituições proativas se destacam na comunidade. Por outro lado, o envolvimento de um hospital em uma denúncia de destinação inadequada de resíduo de esgoto não tratado prejudica bastante sua imagem”, alerta Ribeiro. 

*Publicado na revista Diagnóstico n° 29.




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