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07/04/14
Setor de saúde entra em colapso na Venezuela
Falta de insumos e de profissionais para operar equipamentos na área de cardiologia causou a morte de 235 pessoas nos últimos 6 meses. Crise tem sido atribuída em partes ao controle de câmbio no país, que dificulta a importação de bens
Da redação

Nos últimos seis meses, a ausência de insumos e de profissionais para operar equipamentos no setor de cardiologia dos hospitais públicos da Venezuela já causou a morte de 235 pessoas, de acordo com a organização Médicos pela Saúde. A escassez também levou hospitais de referência a declararem-se tecnicamente fechados. As informações são do Estado de S. Paulo.

Mesmo pressionado por médicos e pacientes, o governo de Nicolás Maduro continua na apostar de seu antecessor, Hugo Chávez, em relação ao sistema de assistência popular Bairro Adentro. Coordenado pela Embaixada de Cuba em Caracas, o orçamento nunca foi divulgado.

A Médicos pela Saúde tem organizado passeatas nos últimos meses para exigir material de trabalho nos hospitais públicos, que atendem aproximadamente 80% da demanda civil. Em muitos deles, funcionários pediam aos pacientes para trazer materiais básicos, como agulhas e gaze. Em alguns, as salas de cirurgias foram inclusive fechadas. Em 2012, o Ministério da Saúde informou a redução de 25 mil leitos em hospitais públicos.

A crise tem sido atribuída em partes ao controle de câmbio no país, que dificulta a importação de bens. A decisão de cerca de 700 fornecedores de suspender as entregas, segundo o jornal El Nacional, de Caracas, agravou a situação. Nos últimos cinco anos, o governo teria dívidas com essas empresas de aproximadamente 764 milhões de bolívares (US$ 13,9 milhões, no câmbio oficial, e US$ 121 milhões, no paralelo).

Referência no país, o Hospital Miguel Pérez Carreño, em Caracas, deveria atender a todas as especialidades médicas, mas há cerca de três anos a escassez de material passou a limitar o atendimento. De acordo com uma médica, que não quis se identificar, devido à falta de reagentes para exames de hepatite B e C e HIV, o laboratório da unidade passou a receber as amostras de sangue somente até as 9 horas, apenas de casos agendados. Além disso, as salas de cirurgia estão disponíveis apenas nos fins de semana e feriados, faltam macas e cadeiras de rodas e os funcionários improvisam o transporte de doentes em tábuas de madeira.

A diretora do Sindicato dos Trabalhadores do Ministério da Saúde, Irene González, afirma que além da falta de insumos, as unidades públicas sofrem com a falta de anestesia, de desinfetante e inclusive de alimentos para pacientes. Já o presidente do Hospital das Clínicas de Caracas, Amadeo Leyba, atribuiu a um apagão ocorrido há dez dias a queima de muitos equipamentos.

Há cerca de um ano, um aparelho de alta tecnologia para identificar câncer está parou de funcionar por razão similar. Os pacientes que necessitam de hemodiálise precisam fazer fila porque há apenas um cateter. O hospital também não possui iodo radioativo para o tratamento de câncer de tireoide.

No Hospital Geral Dr. José Gregório Hernández, localizado no bairro de Catia, faltam oftalmologistas e cardiologistas, os equipamentos de neurologia, tomógrafo e máquinas para mamografia estão desativados por falta de profissionais preparados para utilizados e a cozinha foi fechada por falta de higiene.

De acordo com, Olga Pulido, laboratorista há 33 anos na unidade, faltam analgésicos e ansiolíticos, cujo consumo aumentou desde o início dos protestos, e remédios vencidos são queimados à noite. Por falta de peças de reposição, a única ambulância da unidade está parada. Dependendo das condições, as parturientes são transferidas, "Estamos tecnicamente fechados", disse Olga.

Criado por Hugo Chávez em 2003 para ampliar a medicina preventiva nas favelas e comunidades pobres através da cooperação cubana, o programa é uma das joias do governo, não está atrelado ao Ministério da Saúde. Seus recursos vêm de um orçamento paralelo, o dos fundos extraordinários da estatal petroleira PDVSA, e são geridos por uma equipe da embaixada de Cuba.

O pagamento da Venezuela por esse serviço é feito através do envio de petróleo a Cuba. De acordo com dados da PDVSA de 2013, a organização Transparência Venezuela estima que o Barrio Adentro recebeu US$ 650 milhões. Entre 2003 e 2010, a estatal teria injetado US$ 6,3 bilhões no programa.

Yolanda D'Elia, pesquisadora da organização, afirma que ninguém sabe o número de unidades do Barrio Adentro. O próprio Chávez, em 2009, informou que 50% dos módulos estavam abandonados e outros 25%, funcionavam em turnos.

Também não se conhece o número de médicos cubanos em ação nesse programa. O governo alega haver hoje o dobro do total de 2003, ou seja, 28 mil. Milhares, porém, teriam fugido para outros países ou continuam na Venezuela empregados como paramédicos em empresas privadas.



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