home notícias Gestão
Voltar Voltar
04/03/13
Quem é a UnitedHealth?
Como atua a nova dona da Amil, as estratégias para o Brasil e a repercussão nos Estados Unidos da mais ousada investida já feita por uma operadora de saúde americana no exterior
Rodrigo Sombra, da Califórnia



Personificação do famoso Tio Sam na gigante americana da saúde: investimento de R$ 9,95 bilhões no Brasil (Ilustração: Tulio Carapia)

“A compra da Amil foi a mais atraente oportunidade de crescimento e criação de valor em anos para nós do UnitedHeatlth Group”. Com essas palavras, Stephen Hemsley, CEO do maior grupo americano de saúde, descreveu a razão que o fez desembolsar R$ 9,95 bilhões e investi-los no Brasil. Divulgada no final do ano passado, a compra da Amil, maior seguradora brasileira, pela UHG – como a United é conhecida nos EUA – entra para história da economia brasileira como um investimento sem precendentes no setor de saúde do país. 

O acordo, porém, não tem escala inédita apenas para uma das partes. Considerada uma oferta generosa pela imprensa americana, a aquisição da Amil é encarada como o mais ousado passo dado por uma seguradora de saúde dos EUA no exterior.“Em termos de seguro, o empreendimento da UnitedHealth no Brasil é realmente o primeiro deste tipo”, avalia o professor Stephen Parente, diretor do Instituto de Liderança da Indústria Médica da Universidade de Minnesota, em entrevista à Diagnóstico. A United atende hoje a 78 milhões de segurados e é um dos líderes mundiais no desenvolvimento de tecnologia de ponta para o setor de saúde. 

A diversidade de negócios administrados pela empresa ajuda a explicar o entusiasmo com a aquisição da Amil. “Uma vez que assistência médica é um bem desejado e seguro saúde é um grande facilitador de tecnologia médica avançada, faz sentido que a UHG vá comprar seguradoras locais para expandir  todo o seu mercado”, observa Parente. O crescente poder de compra da classe média e o potencial de um mercado tido como inexplorado (apenas cerca de 25% dos brasileiros possuem convênio privado) foram argumentos decisivos para a investida da UnitedHealth no Brasil. 

As negociações se arrastaram por três anos, e o acordo satisfez um desejo antigo dos americanos. Em entrevista ao Wall Street Journal, o diretor financeiro da United, David Wichmann, afirmou que o grupo mirava o país há mais de uma década. “A oportunidade na América Latina é similar à oportunidade que tivemos nos Estados Unidos há 20 anos. Esperamos que os mercados brasileiro e latino-americano tenham um crescimento ainda mais rápido do que o americano”, projetou Wichmann, em uma conferência com investidores.

Líder no setor americano de seguros de saúde, a UnitedHealth tem ganhado cada vez mais terreno no mercado internacional.  Reino Unido, Índia e Austrália são alguns dos principais parceiros da empresa, que nos últimos dez anos expandiu seu campo de ação a mais de 130 países. Muitos analistas percebem o avanço da United no exterior como mais um sinal da crescente globalização do setor. Em um cenário de intensas trocas internacionais, países com legislação flexível e cujo sistema de saúde favorece a cobertura privada têm atraído cada vez mais as companhias americanas.

Razões internas também explicam o avanço no exterior. Embora prometa expandir o mercado ao oferecer cobertura a toda a população americana nos próximos anos, o Obamacare (apelido da lei que reforma o sistema de saúde dos EUA) ainda gera incerteza entre companhias de seguro saúde. Em teoria, após a reforma, as companhias menores ganharão mais poder de competitividade, o que implica uma possível ameaça ao domínio de gigantes como a UnitedHealth. Somadas a isto, as diferentes formas pelas quais a lei se adequará à realidade de cada estado, possíveis ajustes futuros na legislação e indefinições sobre como a reforma irá funcionar na prática compõem um cenário instável para o mercado de seguro saúde nos EUA. 


Sheryl Skolnick, analista de seguros saúde da CRT Capital: plano de saúde da UnitedHealth já foi o mais odiado dos EUA (Foto: Divulgação)

Diante deste quadro, Christopher J. Conover,  professor de políticas de saúde da Duke University e autor do livro The American Health Economy Illustrated (em tradução livre, A Economia da Saúde Americana Ilustrada), afirma à Diagnóstico que a ida ao Brasil é importante para a United pois diversifica os negócios, o que pode gerar mais receita e “ajudaria a proteger a empresa em caso de problemas imprevistos decorrentes da implementação da reforma”. Conover acrescenta ainda que o Brasil oferece “potencial para um maior crescimento em matrículas de seguro do que os EUA para a próxima década ou mais”.

Além da promessa de lucro, a chegada da UnitedHealth ao Brasil ocupa lugar estratégico nos planos de crescimento internacional da empresa. A Amil seria a “plataforma de expansão da United na América Latina”, afirma Edson Bueno, fundador da empresa e membro recém-admitido no conselho do grupo americano. Embora a participação da United na América Latina ainda seja tímida, de acordo com o  professor da Escola de Administração de Empresas da Universidade de Miami, Steven Ullmann, o intercâmbio entre o continente e o setor de saúde dos EUA já demonstra sinais de vitalidade. “Indivíduos da América Latina e Caribe estão cada vez mais viajando para os EUA à procura de atendimentos terciários especializados. 

A cobertura de seguro saúde é importante para esse tipo de atendimento e provê um incentivo para que seguradoras pensem globalmente”, avalia Ullmann, em entrevista à Diagnóstico. No caso da vinda da UnitedHealth ao Brasil, Stephen Parente acredita que  chegar a um país em que o inglês não é a primeira língua e adquirir uma empresa de serviços financeiros é sempre algo desafiador. “Mas as recompensas podem ser maiores, particularmente se a infraestrutura for construída quando os custos estão mais baixos e antes de o setor ganhar força, aumentando a receita à medida que as economias emergentes acumulam riqueza”, salienta. Nesse sentido, o acadêmico acredita que a United deve se concentrar, além do Brasil, em outros países grandes, como China e Rússia, “onde seguros públicos e privados possam ter operações globais similares aos mercados de títulos e ações que agora são comuns por todo o mundo desenvolvido”


Stephen Hemsley, CEO da UHG: Brasil será usado como plataforma de crescimento na América latina (Foto: Bloomberg/Getty images)

A UnitedHealth nos EUA – O investimento pesado em tecnologia e o pioneirismo na sistematização de dados construíram, ao longo dos anos, a reputação da UnitedHealth como empresa inovadora. Eleita a 22ª maior corporação americana em ranking publicado em 2012 pela revista Fortune, o grupo quadruplicou sua receita na última década, fechando 2012 com lucro de US$ 5,3 bilhões. A expansão durante os anos 2000, contudo, não salvou a UnitedHealth de críticas que expunham as fissuras de um crescimento desordenado. Erros no envio de dados, resposta insatisfatória à demanda de pacientes e atraso no reembolso a médico figuram entre as principais queixas contra a empresa em relatório publicado em 2008 pela Associação Americana por Justiça (AAJ). O documento inclui a companhia entre as 10 piores seguradoras dos EUA. 

Em entrevista à Diagnóstico, Sheryl Skolnick, analista de seguros saúde na CRT Capital, conta que a United convivia com problemas graves quando a AAJ preparava seu relatório. “A UnitedHealth parou de ouvir, começou a ditar. Ela perdeu eficiência no atendimento ao consumidor e desenvolveu uma má reputação por ser arrogante e agressiva”, comenta Skolnick a respeito de como a  empresa relacionava-se com empregados, clientes e pacientes em meados dos anos 2000. De acordo com a analista, a mudança na cultura da empresa deu-se com a chegada de Stephen Hemsley, em 2007.


Professor Chistopher Conover, autor do livro "A economia da saúde americana": Brasil pode ser uma alternativa da UHG diante das incertezas da América (Foto: Divulgação)

Novo chefe executivo, Hemsley tentaria reposicionar a United no mercado, afinar o setor de relacionamento e reverter o desgaste da marca. Para Skolnick, o ritmo da mudança foi lento e enfrentou solavancos. “Alguns funcionários não poderiam funcionar bem sob o novo mandato e foram substituídos. O desempenho sofreu. Mas, por volta de 2009, a UnitedHealth parecia ter começado a ganhar tração. A seguradora estava lentamente perdendo a sua posição como o ‘plano de saúde mais odiado’ entre hospitais e fornecedores, bem como pacientes e clientes, mas na verdade não foi até o outono de 2010 para 2011 que a tração realmente tornou-se evidente nos resultados”, analisa Skolnick, para quem a United é, desde então, a força modernizadora do setor de saúde americano. 

O relacionamento entre a UnitedHealth e os médicos ainda hoje é controverso. Em 2011, a empresa foi eleita pela Associação dos Médicos Americanos (AMA) a seguradora mais eficiente na realização de pagamentos. Por outro lado, pesquisa  realizada no mesmo ano por outra associação médica, a Medical Group Management Association (MGMA), lista a United como a pior entre sete outras grandes seguradoras do setor. Tabulada por critérios como “respostas rápidas e eficientes” e “boa-fé nos negócios”, a pesquisa ouviu 800 médicos. Ao fim, a United foi avaliada como “moderadamente insatisfatória”.

Para Christopher J. Conover, a fatia de mercado ocupada por uma empresa não pode ser ignorada quando se interpretam as pesquisas acima. No caso da UnitedHealth, ele argumenta que “seu tamanho total pode torná-la mais visível para os médicos, pois até mesmo uma taxa de erro pequena pode produzir um maior número absoluto de erros para uma certa prática médica do que uma seguradora com uma maior taxa de erro que lida com uma fração muito menor de reclamações daquela mesma prática médica”. 
Analisar o papel da United – maior seguradora americana e dona de uma rede de provedores que inclui 650 mil médicos e 5 mil hospitais – requereria então cautela extra. “No final das contas, é difícil argumentar com a participação dominante da empresa do mercado. Eles devem estar fazendo algo certo, senão seus clientes estariam deixando-a para se juntar a outros planos”, conclui Conover. Entre os especialistas americanos ouvidos pela Diagnóstico prevalece a ideia de que a fusão entre  Amil e UHG é potencialmente vantajosa para o Brasil.

 
Steven Ullmann, da Universidade de Miami: América Latina e Caribe entraram definitivamente no radar do trade de saúde americano (Foto: Divulgação)

Sheryl Skolnick destaca os serviços já prestados pela empresa a outras companhias americanas e sustenta que sua atuação no Brasil “pode trazer um melhor atendimento com um menor custo. Organizar o serviço corretamente,  assistência ao consumidor, realização de matrículas, todas essas coisas foram refinadas por muitos anos pela UHG”. Professora da Universidade de Columbia e ex-secretária assistente do Departamento de Saúde e Serviços Humanos do governo Obama, Sherry Glied argumenta ainda que as “seguradoras de saúde dos EUA têm muita experiência com gestão de dados e de reclamações, programas de bem-estar e outras funções técnicas que podem ser de valor em outros contextos”. Na opinião de Stephen Parente, a chegada da United “oferece oportunidades de ver diferentes práticas de negócio e de expandir no Brasil um capital humano que entenda essas novas práticas”.

Para o Brasil, com suas vicissitudes econômicas e forte protecionismo que ainda impera no setor, a chegada da United é também um grande teste para o trade de saúde local e os segurados da Amil, em particular. Por enquanto, o casamento entre as duas gigantes segue em plena lua de mel.

*Matéria publicada na revista Diagnóstico, n°18.



PUBLICIDADE

Mais lidas


    Warning: mysql_num_rows() expects parameter 1 to be resource, boolean given in /home/diagnosticoweb/www/noticia-interna.php on line 309

    Warning: mysql_free_result() expects parameter 1 to be resource, boolean given in /home/diagnosticoweb/www/noticia-interna.php on line 322

Newsletter

Cadastre-se e receba as novidades do Diagnosticoweb em seu e-mail

agenda

facebook

© Copyright 2012, Diagnósticoweb . Todos os direitos reservados.