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12/11/12
A febre das startups chegou ao setor médico-hospitalar
Jovens empreendedores estão revolucionando o mercado de saúde com a utilização da web para criar soluções, racionalizar custos e ganhar dinheiro
Ana Paula Martins


Vitor Asseituno, do Empreender Saúde: "Há muita oportunidade para a inovação, e não dá para o Brasil esperar as soluções virem de fora" (Foto: Ricardo Benichio)

Enquanto a saúde aparenta ser um mar de desafios para quem lida com seus problemas no dia-a-dia e precisa buscar soluções para enfrentar tendências como envelhecimento da população, custos crescentes nos tratamentos e aumento nos índices de doenças crônicas, para uma nova geração de empreendedores o setor apresenta um só significado: oportunidade. Com o PIB de R$ 172 bilhões por ano, somente no Brasil, e uma demanda cada vez mais crescente por novos serviços, o setor de saúde soa promissor para novas ideias. Somam-se a isso tendências como prevenção, consumer-driven healthcare, mobilidade, saúde personalizada e a revolução digital no setor e está formado o cenário mais do que favorável para acelerar o surgimento de novos negócios.  “Há muita oportunidade para a inovação, e não dá para o Brasil esperar as soluções virem de fora”, afirma Vitor Asseituno, fundador e sócio do Empreender Saúde,  rede voltada para o incentivo ao empreendedorismo e inovação em saúde, criada em 2010, em São Paulo. 

A iniciativa surgiu de uma curiosidade do jovem estudante de medicina e de seu sócio, também médico, de entender como funciona o cenário para o empreendedorismo em saúde no Brasil. Os dois foram em busca de empresas da rede Endeauvor que atuavam no segmento para conhecer suas características e correram o mundo em busca de referências. Com isso em foco, os sócios criaram um site e foram realizar eventos sobre o tema em universidades. A atração por novos negócios nessa área foi tanta que rapidamente a rede foi estruturada contando com a participação de parceiros e apoiadores, entre eles grupos de investidores, executivos e empresários do setor que orientam as empresas. 

A iniciativa empreendedora de Vitor lhe rendeu ideias para novos negócios. Além da rede, o executivo e sua equipe também desenvolvem seus próprios negócios. Agora se preparam para ir ao Vale do Silício, nos EUA, apresentar um novo aplicativo – um site de vendas para planos de saúde –  a potenciais investidores.

Social Business – Para consolidar o relacionamento entre as empresas recém-criadas e os investidores, a rede Empreender Saúde, em parceria com o Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getúlio Vargas (CENN-FGV), realizou, em maio passado, a segunda edição do evento Start Up Brasil Saúde. A iniciativa, por enquanto restrita a São Paulo, tem por objetivo selecionar projetos de tecnologia para a saúde, baseada na web, com potencial de crescimento. Dez startups foram selecionadas, com soluções das mais variadas: e-commerce voltado para diabéticos, software para gestão de operadoras e hospitais baseado na nuvem, jogos eletrônicos para fisioterapia, rede social voltada para médicos, entre outras. “As TICs são hoje grandes geradores de negócios”, analisa o gerente de projetos do CENN-FGV, Renê Fernandes. “A tecnologia de informação baseada em internet é um ambiente no qual os empreendedores encontraram a garantia de baixos investimentos, atrelados à possibilidade de bons retornos”.  E isso também atrai recursos. “Investidores têm buscado atuar em segmentos de mercado nos quais possa haver consolidação ou que estejam apostando em plataformas inovadoras”, completa Fernandes.  

Na visão de Asseituno, o que torna o desenvolvimento em plataformas baseadas em internet atrativo é a necessidade de acelerar o fluxo de informação e o acesso em saúde. “Nos EUA, 50% dos profissionais não têm acesso a novos padrões em saúde”, diagnostica. “Ainda há gargalos enormes entre a publicação de atualizações e a prática. Com tecnologia, é possível diminuir esse delay”.  


Renato Vieira: médico criou a Doctors Way para otimizar o tempo dos profissionais de saúde (Foto: Ricardo Benichio)

E é na tentativa de encontrar soluções para necessidades específicas do dia-a-dia que os empreendedores vem pautando seus negócios. Pelo menos foi essa a lógica que inspirou o cardiologista Renato Vieira a criar a Doctors Way, rede social voltada para médicos. “O meu interesse foi otimizar o tempo dos colegas médicos, fornecer ferramentas úteis e unir a classe”, afirma. “Sentia a necessidade de ter essa proximidade, e a plataforma me ajudou neste sentido”. 

A Doctors Way conta hoje com 2.500 profissionais cadastrados e reúne artigos médicos, publicidade e ainda espaço para discussões e troca de informações sobre casos médicos. O modelo é consagrado em mercados mais maduros, como o norte-americano, mas inovador no Brasil.  

Com a clara visão de ser a principal rede de profissionais da América Latina, Vieira explica que a atual fase  da Doctors Way é a busca do apoio de grandes empresas e sociedades médicas para consolidar o seu negócios. “Os investidores gostam do mundo conhecido e sentem receio em investir em algo muito novo e que ainda não existe no Brasil”, avalia o empresário. “Mas esse é o ônus da inovação”.

Na nuvem –  Para quem já estava no mercado de tecnologia de informação, a percepção sobre os investimentos nessa área é diferente. Na opinião do diretor comercial da CloudMed – fornecedora de software baseado em nuvem para o segmento –, Eliezer Pimentel, o momento é favorável para iniciativa de TI em saúde. “O Brasil passa por mudanças positivas no que tange ao apoio a empresas de tecnologia, seja por meio de iniciativas do Finep ou através de recursos estrangeiros”, aposta. “E a área de saúde é vista com bons olhos”. Segundo ele, até recentemente, o cenário do país era muito diferente,  com escassez de recursos e carência de bons profissionais que possuíssem um mix de conhecimento do negócio e de tecnologia. 

Administrador de empresas por formação e apaixonado por tecnologia, Pimentel viu há muito tempo uma chance de trazer inovação para  mercado. A CloudMed nasceu como spin-off de outra empresa de TI, a Plano Bê, fundada em 2005. De olho nas oportunidades do mercado de saúde, e a consequente necessidade de um modelo de negócio específico, a divisão se tornou necessária. E nessa transição foi que surgiu a decisão de desenvolver soluções baseadas na nuvem.

Um dos principais produtos da empresa é o portal de OPME (órteses, próteses e materiais especiais), baseado em um software que facilita a compra e a gestão de materiais OPME pelo plano de saúde, além de fazer auditoria do pós-cirúrgico. De acordo com Eliezer, essa autonomia na compra representa economia para os planos, que deixam de pagar taxas administrativas para os hospitais. Entre os principais clientes da empresa estão as federações intrafederativas Unimed do Centro-Oeste Paulista e Nordeste Paulista e a HB Saúde.

Na visão de Pimentel, a inovação que a CloudMed traz para o mercado é facilitar o acesso a informações e seu gerenciamento e ainda consolidar o modelo de SaaS. “O setor de saúde é carente em soluções tecnológicas. São poucas as empresas que conseguem atender bem o setor. Há muito a crescer, e para nós é uma grande oportunidade”. A CloudMed espera faturar em 2012 entre R$ 450 mil e R$ 600 mil .

Entendendo o setor – Foi justamente diante de um espaço aberto pelo mercado que nasceu a Prontmed. Seus sócios, Lasse Koivisto e Wang  Sen Feng, se depararam, há cerca de dez anos, com um dado revelador: 95% dos prontuários médicos do Brasil estavam apenas no papel. Transcendendo a ideia de apenas informatizar o prontuário, seus gestores foram além e criaram um modelo de interface eletrônica que integra os sistemas de gestão hospitalar e permite comunicação com o sistema de cadastro de pacientes e  laboratório. Além disso, a ferramenta possibilita que dados demográficos e exames laboratoriais possam ser visualizados de forma fácil. “Nosso foco principal é entregar a melhor interface para o médico e facilitar ao máximo a execução de seu trabalho”, salienta Lasse. “Para isso, investimos muito tempo para entender como funciona a rotina deste profissional”. 

O pontapé inicial para a construção do primeiro prontuário eletrônico da Prontmed foi dado através do piloto com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, maior hospital da América Latina e grande vitrine da Prontmed. “O mercado de informatização dos dados na saúde ainda não cresceu sequer 10% do seu potencial”, avalia Wang, “Há muito espaço para crescer”. Ele explica que, ao longo da trajetória, a Prontmed conquistou outros clientes de peso, como a Pfizer Brasil, a Sociedade Brasileira de Reumatologia, o Hemocentro da Santa Casa de São Paulo, a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e a Sociedade Brasileira de Diabetes.
 
Essa expansão já rendeu reconhecimento no Brasil e até exterior. Em 2011, a Prontmed foi vencedora da primeira edição do Start Up Brasil Saúde, depois de concorrer com quatro finalistas. Também foi a vencedora do 1º Concurso de Negócios CJE e Anjos do Brasil,  promovido pelo Comitê de Jovens Empreendedores (CJE) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) com o objetivo de aproximar investidores e  startups. Outro destaque foi o convite para a participação da Prontmed em um speed networking do Vale do Silício, na Califórnia. O encontro, realizado em setembro, foi organizado por instituições como Brazil Innovators e a Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos. “O segmento saúde é tão importante no mundo que é uma das pautas principais da eleição dos EUA”, salienta Lasse, que comemorou em 2011 um crescimento de 30% , em relação a 2010. Atualmente, a Prontmed conta com dois modelos de negócios: um é o Prontmed Hospital, um prontuário eletrônico parametrizado e especializado em grupos de doenças (lupus, diabetes, asma, artrite reumatoide, entre outros) no qual o médico preenche os dados clínicos do paciente de forma automatizada, por meio de cliques. O sistema incorpora padrão de rotina de atendimento, que começa com a identificação do paciente, anamnese, antecedentes clínicos, perguntas sobre medicação e indicação de exames. “Além de facilitar o acesso a informações científicas, a ferramenta permite aos gestores acessarem dados sobre o tratamento de cada paciente internado na instituição”, salienta Wang, um coreano de 45 anos, naturalizado brasileiro. 

Após anos de pesquisa e ajustes, o Prontmed Hospital atende a 14 diferentes especialidades, com mais de 200 protocolos de subespecialidades clínicas. Outro serviço oferecido pela empresa é a Prontmed Consultório, uma solução voltada para unidades médicas de pequeno porte, baseado em nuvem. “A grande vantagem do sistema é justamente aliar a interface de cadastro e agendamento dos pacientes ao prontuário médico eletrônico”, salienta Wang.  


Carlos Bassi, da vital box: versão beta da plataforma, que reúne informações para leigos, já conta com cinco mil usuários (Foto: Ricardo Benichio)

Aporte de investidores – Enxergando a mobilidade como outra grande tendência em saúde, um grupo de quatro anestesistas de Santa Catarina resolveu incorporar a tecnologia às suas atividades e criou a Anestech. Focada na criação de aplicativos para smartphones, a empresa já contabiliza seus apps entre os 25 mais vendidos da Apple Store. Na prática, isso significa que mais de 20 mil anestesiologistas já adotaram os sistemas em suas rotinas de trabalho. 
 
Entre os sete apps criados, o mais vendido é o AxCalc, que reúne 20 dos cálculos mais comuns no momento de indução e manutenção dos procedimentos anestésicos. A funcionalidade do aplicativo rendeu a aceitação rápida dos  usuários e a eleição pela mídia especializada como um dos 12 apps mais relevantes para a área médica. O AxCalc ainda tem o mérito de ser o único aplicativo brasileiro aprovado pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia.

A solução criativa é resultado do interesse visionário de um de seus fundadores, Diógenes Silva, de 38 anos. Na época da faculdade, o médico já desenvolvia soluções de e-commerce para grandes empresas. E quando sugeriam que ele largasse a medicina para atuar com informática, a aposta era evidente: unir as duas habilidades em um projeto inovador.

“Nos posicionamos no mercado como tradutores entre dois mundos, que sabem transformar a necessidade do anestesiologista em uma requisição técnica e a capacidade técnica em uma ferramenta”, salienta Silva. Em sua opinião, a longo prazo, o gerenciamento de informações em anestesiologia poderá modificar a atuação dos profissionais. “Entendemos que em cinco anos faremos a gestão de um ou mais bancos de dados com informações sobre a realidade da anestesia no Brasil e no mundo”, vislumbra o empresário. Essa solução, segundo ele, deverá permitir novas tomadas de decisões, tanto no âmbito assistencial como da indústria e do mercado. Para alcançar essa meta, o grupo espera contar com um aporte de R$ 12,5 milhões, que está sendo captado junto a investidores. 

Mit e harvard – De uma forma mais sólida e com grande conhecimento em gestão de empresas, os criadores da Vital Box pesquisaram muito antes de chegar ao modelo de negócio ideal. Oriundos de carreira executiva construída em uma grande empresa de TI, os empreendedores escolheram a dedo o mercado de saúde para investir. “Sabemos que é uma das áreas mais promissoras e fomos atrás de informação”, salienta o diretor executivo, Carlos Bassi.
 
Dois anos de estruturação do negócio, de visitas a eventos internacionais e renomadas universidades, como o MIT e Harvard, resultaram na criação do Vital Box, plataforma que reúne informações em saúde, registro pessoal de saúde e orienta usuários quanto aos cuidados que devem ter para prevenir doenças, de forma lúdica e interativa. A plataforma teve sua versão beta colocada no ar em junho e já conta com 5 mil usuários.
 
Diante da boa aceitação do negócio e dos financiamentos conquistados, os executivos têm a expectativa de faturamento anual de R$ 150 milhões a partir do quinto ano do negócio. Até lá, os investidores contam com três frentes de financiamento que garantem a rentabilidade do negócio: patrocínio de empresas que têm a preocupação com o bem-estar e sustentabilidade como valores importantes;  oferta a empregadores e com diferencial de valor aos funcionários; e laboratórios de diagnóstico, que podem utilizar a plataforma para disponibilizar resultados de exames. “Centralizar as informações de saúde nos usuários é o que buscamos com a solução. Dessa forma, o paciente passa a estar no centro do cuidado com sua saúde”, explica Bassi. Com o objetivo de dar embasamento médico, o grupo conta com profissionais renomados para fornecer  consultoria na área. Embora inovadora e apresentando uma solução para desafios como prevenção em saúde e combate a doenças crônicas, a iniciativa ainda esbarra no conservadorismo do mercado de saúde. “É a resistência natural ao novo, mas o mercado está aí apresentando um mar de oportunidades. Certamente muitas outras inovações virão”, conclui.

*Matéria publicada na revista Diagnóstico, n°16.

EmpreenderSaúde: www.empreendersaude.com.br
CloudMed: cloudmed.io



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