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06/01/15
A Realidade das Órteses e Próteses
A Máfia da órtese e prótese e o canto do cisne
Marcelo Moncôrvo Britto*

Sempre entendi a realidade de hoje como uma consequência do ontem. Nas guerras, na economia, no cotidiano, até mesmo no lar é assim. No mercado de saúde não seria diferente.

Vamos lembrar quando vivíamos na época inflacionária. Como funcionava o mercado de saúde?
As operadoras de planos de saúde vendiam seus apólices e ganhavam dinheiro no mercado financeiro. Recebiam (e recebem, até hoje) os prêmios pagos pelos usuários antecipadamente e pagavam (e pagam, até hoje) os hospitais, as clínicas, os laboratórios e os médicos com 90 ou mais dias. Os ganhos oriundos deste atraso chegavam a absurdos 70%. Quando havia alguma dificuldade de caixa, bastava atrasar os pagamentos que a inflação fazia a correção. Simultaneamente aplicavam reajustes de diárias e taxas menores que a inflação, subtraindo relevância destas mesmas tabelas.

Os hospitais, clínicas e laboratórios por seu turno criavam uma alternativa a esta defasagem com utilização de materiais e medicamentos de maior custo (e maior retorno financeiro). Imaginem a razão da rejeição ao genérico mais barato?  Como não conseguiam reajustar suas diárias e taxas nas mesmas proporções, socorriam-se em tabelas de materiais e medicamentos que eram reajustados quinzenalmente pelos fabricantes, sem interferências das operadoras, ampliando enormemente a relevância econômica neste segmento.

Os médicos também não tiveram seus honorários corrigidos pela inflação, diminuindo seus rendimentos. Esta realidade foi, inicialmente, compensada com ampliação de turnos de trabalho, plantões de final de semana e mais vínculos públicos. Esta solução, claro, teria um limite.

O tempo passou e agora vivíamos a esperança do plano cruzado com a inflação foi controlada. Nesta nova realidade como passou a funcionar o mercado de saúde?

As operadoras, depois do impacto inicial com a perda dos ganhos inflacionários, consolidaram a realidade das remunerações estabelecidas na época passada. As diárias e taxas permaneceram defasadas e os preços fornecidos dos materiais e medicamentos permaneceram nas alturas. Por essa razão os hospitais e clinicas precisam trabalhar como grandes farmácias e vendedores de materiais e não como fornecedores de serviços.
Já os médicos percorreram duas alternativas. Na primeira, ficaram os médicos de especialidade clínica (que não realizam procedimentos cirúrgicos), os grandes prejudicados. Recebem uma consulta irrelevante, precisando acumular muitos empregos para manter um nível de sobrevivência mínima. Na segunda ficaram os médicos de especialidade cirúrgica que também igualmente recebem honorários extremamente defasados mas sujeitos ao canto do cisne da indústria. Ofertas de remuneração adicional, pela utilização de órtese, próteses ou síntese, direta com pagamento em dinheiro ou indireta com auxilio congresso, soaram como solução saneadora. Os honorários são baixos mas são corrigidos com a remuneração adicional. Já ouvi, em palestra pública, presidente de entidade representante da indústria chamar esta situação de “desvio cultural”. Prefiro o termo “desvio histórico”, mas independente do nome, sempre um desvio negativo!

Percebe-se, agora, o porquê de hoje formarmos muito mais médicos cirurgiões que médicos clínicos?

Indicar procedimentos invasivos com único objetivo de obter ganhos financeiros é monstruoso. Abandonar nossos preceitos médicos, mesmo humanos, e arriscar outra vida não é e nem pode ser razoável. Já inventaram até um nome em inglês para esta modalidade de “desvio histórico”. O over use (utilização exagerada em tradução livre).
O código de ética medica veda, proibi e pune os profissionais médicos flagrados em “desvio histórico”. A reportagem exibida pela Tv Globo deixa claro que precisamos refazer a lógica de mercado. Sempre vão existir alternativas. Não existe saúde sem o profissional médico. A reportagem nos deixa em posição por demais desconfortável. Sempre podemos extrair algo de bom no pior dos cenários.

Vamos enfrentar esta realidade atual. Vamos encerrar o desvio cultural. Vamos encerrar o patrocínio que impera nos congressos tanto para médicos (como para as sociedades de especialidade). Vamos cobrar honorários médicos justos e para quem não deseja paga-los, deixaremos de atender. Vamos reconstruir, novamente, este mercado de saúde.


*Marcelo Moncôrvo Britto é médico e  vice-presidente da Confederação Nacional de Saúde.


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