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27/01/14
Antibióticos voltam a atrair investimento de farmacêuticas
Nos últimos 15 anos, farmacêuticas abandonaram o desenvolvimento em massa de medicamentos contra infecções alegando custos altos de pesquisa, baixo retorno e regulação pesada
Da redação

Durante anos, as companhias farmacêuticas abandonaram a pesquisa de novos antibióticos, mas agora, parece que algumas destas empresas estão mudando de ideia. Empresas como a Roche e a Glaxo estão se juntando a outras do setor, como a AstraZeneca e a Novartis, para descobrir e desenvolver novos medicamentos contra infecções. As informações são do The Wall Street Journal.

Após desmontar a equipe encarregada de antibióticos, em 1999, a suíça Roche Holding AG procura um profissional para recompor sua área de antibióticos. Em 2013, a farmacêutica licenciou um novo antibiótico da firma de biotecnologia Polyphor Ltd. e investiu US$ 111 milhões em outra empresa especializada em antibióticos, a RQX Pharmaceuticals Inc. Já a inglesa GlaxoSmithKline PLC informou recentemente que vai receber US$ 200 milhões em financiamento do governo americano para um programa de antibióticos.

Nos últimos 15 anos, as farmacêuticas abandonaram o desenvolvimento em massa de antibióticos, alegando custos altos de pesquisa, retornos baixos e regulação pesada. Nos anos 80, 30 novos antibióticos foram aprovados nos Estados Unidos. Entre 2010 e 2012, apenas um foi aprovado.

A Pfizer, uma das pioneiras na produção em massa da penicilina -- primeiro antibiótico, criado em 1928 pelo médico escocês Alexander Fleming --, encerrou suas atividades de pesquisa de antibióticos em 2011, assim como a Johnson & Johnson. Em 2002, a Eli Lilly & Co. deixou o setor para se concentrar em doenças crônicas. Em 2004 foi a vez da Sanofi SA, que fechou sua unidade de anti-infecciosos, a Novexel.

Segundo Charles Knirsch, vice-presidente de pesquisa clínica da Pfizer, a empresa não estava tendo sucesso ao desenvolver novas abordagens para infecções bacterianas difíceis de serem tratadas. Entretanto, depois de muita avaliação, segundo ele, foi decidido que a empresa aumentaria o foco na prevenção de infecções e que isso poderia representar um retorno sobre investimento mais prudente.

As condições econômicas desfavoráveis estão mudando. Recentemente, reguladores dos EUA e Europa tomaram medidas para remover os obstáculos ao desenvolvimento de antibióticos, com os EUA dando prioridade à revisão de novos medicamentos. Os fundos para pesquisa também começam a crescer. 

Fundos do governo americano são acessíveis para empresas que desenvolvem novas moléculas promissoras e a União Europeia tem financiado projetos de pesquisa de antibióticos em empresas e universidades.

Além disso, modelos alternativos já são discutidos como forma de contornar o problema dos baixos volumes de vendas, como a venda de novas drogas em grandes quantidades a prestadores de atendimento na área da saúde para que eles as usem quando necessário ou a cobrança de uma tarifa de licenciamento fixo para o acesso aos medicamentos.

A necessidade de novos antibióticos é grande. Atualmente, só nos EUA e Europa as infecções resistentes a antibióticos matam cerca de 50.000 pessoas por ano, E, segundo a Organização Mundial da Saúde, esse número está crescendo. 

Segundo o Centro para Controle e Prevenção de Doenças do EUA, dois milhões de pessoas por ano deverão contrair infecções resistentes a medicamentos, gerando um custo de US$ 20 milhões em despesas de saúde no país.

O uso excessivo de antibióticos aumentou a resistência das bactérias, tornando os medicamentos menos eficazes. Além disso, o emprego generalizado em animais criados para corte introduziu mais antibióticos na cadeia alimentar, o que também reduziu a eficácia.

Com um número menor de novos medicamentos, e os antigos não combatendo doenças que ficaram mais resistentes, os médicos são forçados a usar drogas mais antigas e mais tóxicas.

Brad Spellberg, especialista em doenças infecciosas do Instituto de Pesquisa Biomédica de Los Angeles, afirma que os antibióticos que eram fáceis de descobrir se esgotaram. E, mesmo quando o antibiótico chega ao mercado, remédios contra o câncer, por exemplo, são em média três vezes mais lucrativos. 

Segundo estimativas de um relatório de 2009, da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, medicamentos para os ossos e a musculatura geram um retorno dez vezes maior.

Por exemplo, o ceftarolina fosamil, um antibiótico aprovado nos EUA em 2010, custa cerca de US$ 600 no país para um tratamento de uma semana. Em comparação, o yervoy, um novo medicamento contra melanoma, custa US$ 120.000 para um tratamento de 12 semanas.

David Payne, chefe de pesquisa antibacteriana da GlaxoSmithKline, afirma que a sociedade avalia os antibióticos de forma errada. "Esses remédios salvam vidas; eles não apenas dão ao paciente alguns meses a mais de vida", completou.

John Rex, diretor da área de infecções da AstraZeneca, que atualmente possui um dos portfólios mais fortes de antibióticos em desenvolvimento, acredita que sua unidade não é um motor econômico do mesmo porte que a oncologia. "A matemática é clara. Ela é difícil para toda a indústria de anti-infecciosos."

Ao contrário das drogas contra doenças crônicas, os antibióticos são tomados por uma semana ou duas, o que limita as vendas. Os mais receitados são vendidos agora como genéricos de baixo preço.

Cobrar mais caro poderia estimular o desenvolvimento. Em um recente artigo publicado pela revista científica "Nature", Spellberg e Rex afirmam que um novo remédio hipotético contra a Acinetobacter baumannii, que causa infecções hospitalares, poderia ser vantajoso para provedores de saúde mesmo a um preço de US$ 30.000 por período de tratamento.

A Aetna e a Cigna, duas grandes seguradoras de saúde dos EUA, não quiseram comentar sobre um preço hipotético, mas o Nice, conselho consultivo de preços do Reino Unido, já recomenda o uso de dois remédios contra câncer que custam mais, considerando o tempo de vida adicional que proporcionam aos pacientes.

Segundo estatísticas da BioPharma, enquanto a maioria das grandes farmacêuticas continua investindo em outras áreas, empresas menores estão se aventurando no setor e respondem agora por 73% dos antibióticos em desenvolvimento. A Cubist Pharmaceuticals, sediada em Boston e criada em 1992, tem hoje três antibióticos aprovados e um valor de mercado de US$ 5 bilhões.

Já a Enbiotix, também novata de Boston, tem conversado com várias grandes farmacêuticas interessadas em fazer negócio, inclusive aquelas que não têm uma divisão de anti-infecciosos.

Segundo Jeff Wager, diretor-presidente da Enbiotix, os antibióticos nunca serão grandes campeões de venda. "Ainda assim, a resposta imediata é que precisamos desses remédios. Não creio que uma grande farmacêutica possa chamar a si mesma de uma grande cidadã corporativa sem eles".



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