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25/05/15
John Santa: É possível vencer batalha contra o overuse
Para o diretor da Consumer Reporter – entidade de defesa dos direitos dos usuários de saúde dos EUA –, criação de relações mais francas entre médicos, pacientes e hospitais se tornou questão chave para a sobrevivência do sistema
Adalton dos Anjos


O médico americano John Santa: “Onde o sistema de saúde beneficia quem faz mais – farmacêuticas, hospitais e médicos –, haverá sempre problemas éticos” (Foto: Divulgação)

Nos últimos sete anos, o médico americano John Santa vem se dedicando à defesa de usuários do sistema de saúde americano vítimas de relações de consumo não muito éticas. Em especial, a prática do overuse – tratamentos desnecessários – definido por ele como “uma batalha que envolve corações e mentes, mas passível de ser vencida”. Diretor do Consumer Reports Health Center Ratings (Crhrc), o centro que avalia e compara serviços e produtos de saúde, instituições e profissionais nos Estados Unidos, Santa diz que o tema vem atemorizando a sociedade americana ao longo de quase três décadas. “Tem sido difícil ter estas conversas sem preocupações de como, especificamente, descobrir quando o overuse está presente e o que fazer sobre isso”, revela o militante e idealizador nos EUA do Drug Effectiveness Review Project, uma iniciativa que colocou em cheque a forma como a indústria farmacêutica americana prometia a cura através de drogas que se provavam pouco eficientes. Boa parte de sua rotina no Consumer Reports – entidade sem fins lucrativos, mantida por doações – é justamente avaliar casos que envolvem médicos e entidades de saúde americanas suspeitas de fraudes contra o usuário. “O governo dos EUA tem intensificado os esforços para identificar os médicos fraudulentos e centenas estão agora na prisão por vários delitos”, revela ele. “Mas muitas organizações de saúde, como as empresas farmacêuticas e hospitais, também estiveram envolvidas em ações fraudulentas, com produtos comercializados de forma ilegal e subornos a médicos. Mesmo assim, seus executivos não foram presos”. Em sua opinião, em todo o país onde o sistema de saúde beneficia quem faz mais – farmacêuticas, hospitais e médicos –, haverá sempre problemas éticos. Da sede do Consumer Reports Health Center Ratings, em Seattle – costa  oeste americana – Santa, que já ocupou posições de liderança em hospitais, grupos médicos e seguradoras de saúde, concedeu a seguinte entrevista à Diagnóstico.

Revista Diagnóstico – Há cinco anos, de forma mais intensa, os americanos começaram a discutir os impactos na saúde causados pelo overuse. O que mudou de lá para cá?
John Santa – Alguns americanos têm expressado temor sobre o overuse dos produtos e serviços de saúde por três décadas, mas tem sido difícil ter estas conversas sem preocupações sobre como especificamente descobrir quando o overuse está presente e o que fazer sobre isso. Muitos especialistas e alguns pesquisadores sugerem que o overuse nos EUA pode ser responsável por 30% de todos os gastos de saúde. Nos últimos dois anos, o Consumer Reporter tem feito parte de uma campanha de sucesso contra o overuse chamada Choosing Wisely (Escolha Sábia, em tradução literal), que conseguiu sensibilizar cerca de 10 milhões de americanos. A iniciativa é da Abim Foundation (ONG americana focada na melhoraria da prática médica) e envolve quase todos os médicos especialistas de sociedade alopáticas, bem como organizações médicas que têm respondido ao chamado para ajudar os EUA a chegar a uma justa distribuição dos recursos finitos da saúde. Cada sociedade identificou pelo menos cinco fontes de overuse /gastos na sua área de especialidade. Estas informações estão sendo traduzidas e disseminadas para os consumidores.

Diagnóstico – É difícil provar que um médico prescreveu um tratamento desnecessário?
Santa – Nos EUA, o overuse é um conceito complexo porque nosso país permitiu a propaganda de saúde por décadas, pagou provedores de saúde para fazer mais e encorajou o overuse de formas variadas. Muitos médicos e pacientes acham que precisam de exames e tratamentos por conta de todas as propagandas que eles viram e, obviamente, os incentivam. Muitos produtos e serviços médicos operam em circunstâncias específicas. Nossos problemas estão relacionados ao fato de que, com o objetivo de gerar mais lucros, as companhias de saúde sempre posicionam seus produtos com características de eficiência e qualidade que quase sempre estão além dos seus atributos efetivos. Sem saber as especificidades, é difícil para um indivíduo saber se o médico está prescrevendo um tratamento desnecessário ou um paciente está solicitando um cuidado desnecessário.

Diagnóstico – De que forma as operadoras e os pacientes podem se defender dos prejuízos e riscos causados pelo overuse?
Santa – Até recentemente, as seguradoras e os pacientes estavam dispostos a pagar mais por produtos e serviços de saúde, mesmo que não fossem realmente necessários. Isto aconteceu, em parte, pelo fato dos pacientes não arcarem integralmente com o tratamento do seu próprio dinheiro. Mas agora os pacientes americanos têm que pagar por seus tratamentos, já que os empregadores estão pagando menos e o governo está cada vez mais preocupado se será capaz de pagar todas as despesas. Achamos que é hora dos médicos e pacientes falarem mais uns com os outros sobre o overuse e verificar o efeito que pode ter ao invés de esperar por alguém para resolver o problema. A campanha Choosing Wisely é um exemplo de como se pode avançar nessa questão. No mínimo existe uma conversa explícita e honesta em andamento nos EUA sobre o overuse.

Diagnóstico – Os médicos alegam que solicitar um grande número de exames é uma forma de se precaver contra eventuais processos judiciais. Poderia comentar?
Santa – Nos EUA, os médicos estão preocupados com leis devido às falhas em diagnósticos de uma doença ou escolha de um tratamento. Mas as determinações legais também podem ocorrer quando os pacientes sofrem efeitos adicionais de exames e tratamentos que eles não precisariam realizar. Sabemos que a melhor forma de prevenir processos jurídicos é permitir que os médicos conversem com seus pacientes sobre os exames e tratamentos que eles vão prescrever, esclarecendo a real necessidade destas recomendações e os riscos inerentes. Os médicos que pedirem muitos exames e tratamentos sem explicá-los e os pacientes que concordem com eles podem ser envolvidos em uma série de ações judiciais.

Diagnóstico –  O paciente americano já tem a exata consciência dos males que envolvem a prática do overuse?
Santa – Em muitos casos, os produtos e serviços mais caros são os melhores, mas nem sempre isto acontece no setor de saúde. Durante os últimos dois anos, estamos tendo progressos em explicar para os cidadãos que os melhores cuidados em saúde nem sempre são os mais caros – mesmo quando os médicos não concordam. Na medida em que os americanos têm gasto mais dos seus próprios recursos e entendem os riscos do overuse, acreditamos que muitos se tornarão melhores “compradores” de serviços de saúde.

*Leia a entrevista completa na revista Diagnóstico n° 29.



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