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06/02/12
Multinacional de turismo médico anuncia investimentos no NE
Em entrevista exclusiva à Diagnóstico, CEO da Sphera, Teo Sarda, diz que espera faturar R$ 15 milhões na região
Mara Rocha

A Espanha, que na década passada redescobriu o Nordeste com investimentos no setor de infraestrutura, lazer e energia, agora quer gerar negócios também no turismo médico. Pelo menos é essa a ambição da Sphera, empresa com escritórios na Espanha, Rússia, Estados Unidos, São Paulo e, brevemente, em Fortaleza.  Presidida pelo espanhol Teo Sarda, a multinacional atua no mercado de turismo médico em áreas que vão do concierge à intermediação financeira junto a fontes pagadoras. “Os estados nordestinos têm bons hospitais, com boas equipes e uma distância menor em relação aos países europeus e norte-americanos do que São Paulo”, compara Sarda. Administrador por formação, ele viveu na capital cearense, entre 2007 e 2009, quando atuava como diretor executivo da Fide XXI, braço no Brasil do grupo espanhol Confide, especializado em construção civil. “Começamos em Fortaleza por uma demanda específica de procedimentos solicitados por pessoas que viajavam para lá”, justifica Sarda. A empresa, que foi fundada pelo ex-vice-presidente do Hospital Albert Einstein, Morris Lifschitz, já falecido, pretende faturar cerca de R$ 20 milhões nos próximos quatro anos, somente no Brasil. “Embora não tenha o serviço médico mais barato do mundo, o país oferece uma relação preço/qualidade muito boa”, salienta o executivo. “O Brasil também é perfeito para quem precisa de um serviço médico e viaja com a família, por apresentar todas as condições de oferta turística e de lazer”. De Barcelona, onde mora, o executivo falou à Diagnóstico.

 

Diagnóstico – Quem é a Sphera?

Teo Sarda – A Sphera existe desde 2005, quando foi fundada pelo ex-vice-presidente do Hospital Albert Einstein, Morris Lifschitz, já falecido, e seu irmão Alex Lifschitz, atual CEO da empresa. Entrei como sócio e presidente há cerca de dois anos. Mas somente em 2010 começamos a operar de fato. Desde então, trouxemos entre 60 e 70 pacientes para o Brasil, sendo aproximadamente 10 para o Nordeste, com destino a Fortaleza, Recife e Salvador.

 

Diagnóstico – Qual o core business da empresa?

Sarda – O ponto forte e estratégico da Sphera é o desenvolvimento internacional de redes comerciais dentro de procedimentos médicos nos países de origem dos pacientes. Temos parcerias com grupos de médicos e agências operadoras turísticas, além de oferecermos o networking dos hospitais com que trabalhamos e todo o serviço de acompanhamento e coordenação da viagem.

 

Diagnóstico – Quais são as oportunidades e virtudes negociais relacionadas ao turismo médico?

Sarda – O tamanho da indústria é grande. A saúde é a última coisa no mundo a passar pela globalização. Ainda existe muita diferença entre os serviços sanitários entre um país e outro. Essas diferenças são tantas que o deslocamento de turistas em busca de tratamento médico em outros países só tem a crescer. Esse é um negócio que ainda fará circular cifras muito altas. O impacto do turismo médico para a economia brasileira poderá ser muito maior.

 

Diagnóstico – Por isso a decisão de investir no mercado de saúde brasileiro?

Sarda – Sim. Primeiro, porque o nível de profissionais da saúde brasileira é bastante alto, inclusive superior ao de muitos países. Além disso, embora não tenha a medicina mais barata do mundo, o Brasil oferece uma relação preço/qualidade muito boa. O país também é perfeito para quem precisa de um serviço médico e viaja com a família, por apresentar todas as condições de oferta turística e de lazer. Não por acaso escolhemos o Nordeste para abrir o segundo escritório no Brasil, depois de São Paulo.

 

Diagnóstico – Qual a previsão de faturamento?

Sarda – Nos próximos quatro anos, a previsão é gerar entre 30% e 40% a mais do atual faturamento brasileiro no Nordeste. No Brasil, a nossa pretensão é obter entre R$ 15 milhões e R$ 20 milhões.  Isso representa algo em torno de 5 mil a 10 mil pacientes.

 

Diagnóstico – Qual a vantagem de trazer o paciente para o Nordeste, em vez de São Paulo, por exemplo?

Sarda – São várias. Muitas vezes o tratamento a ser feito não é de altíssima complexidade, como uma cirurgia plástica. Esse cliente valoriza muito a possibilidade de viajar para um local de boa oferta turística, uma área de praias e hotéis, com uma população amigável. Às vezes prefere viajar para um destino de praia do que para uma grande cidade, porque aproveita o tratamento médico para fazer um passeio com a família. Os estados nordestinos têm bons hospitais, com boas equipes e uma distância menor em relação aos países europeus e norte-americanos do que São Paulo.

 

Diagnóstico – Por que a decisão de escolher Fortaleza como porta de entrada no Nordeste?

Sarda – Começamos em Fortaleza por uma demanda específica de procedimentos solicitados por pessoas que viajavam para lá e que desejavam o atendimento. Mas o nosso interesse é igual, tanto em Fortaleza, quanto em Recife ou Salvador, por exemplo. Atualmente, estamos em fase de estruturação na capital cearense.

 

Diagnóstico – Como é a estrutura da Sphera fora do Brasil?

Sarda – Possuímos escritório nos EUA, Espanha e Rússia, mercados de grande demanda até agora. Também trabalhamos fortemente na África, em países como Angola e Cabo Verde. Mas até o momento nos concentramos em operações pontuais, focados em atender às demandas, sem trabalhar a oferta. Para os próximos quatro anos, planejamos ações de consolidação da nossa presença nos mercados em que já estamos e possivelmente a abertura de um novo escritório em um país no norte da África.

 

Diagnóstico – Como é a relação da Sphera com as fontes pagadoras na Europa e Estados Unidos?

Sarda – Temos vários contratos com empresas americanas, europeias, russas e africanas, que representamos no Brasil como parceiros locais.

 

Diagnóstico – Quanto custa trazer um paciente para o Brasil em comparação a destinos como os EUA e Europa?

Sarda – A diferença pode ser enorme. Por exemplo, para um paciente norte-americano, no Brasil ele pode chegar a pagar quatro vezes menos do que ele pagaria no país de origem. Na Europa, depende do local, pois existem países que são mais caros, como a Suíça, que possui o preço muito superior ao praticado na Espanha. Com relação ao tratamento odontológico, o cliente suíço pagará menos da metade do preço correspondente ao aplicado na sua terra natal. 

 

Diagnóstico – Qual o perfil econômico e etário de quem busca esse
tipo de serviço?

Sarda – São turistas com, em média, 40 anos de idade, de classe média, com renda mensal entre seis e 12 salários mínimos brasileiros.

 

Diagnóstico – Como a Sphera se remunera?

Sarda – É o cliente que paga pelo serviço médico e de concierge. A Sphera fatura em cima dos procedimentos realizados, pagos pelo paciente. O prestador ou médico não paga para se associar. O interessado na parceria precisa solicitar uma visita da equipe da Sphera, que irá analisar se a instituição tem condições ou não de fazer parte da rede.

 

Diagnóstico – Quem seriam os clientes/países preferenciais?

Sarda – Os latino-americanos, como o Peru, Paraguai, Uruguai e Argentina, devido à proximidade física. Em seguida estão os países do norte da África. Nos últimos anos, os americanos também demonstraram bastante interesse pelo país. Os russos começaram a procurar o Brasil para a cirurgia plástica e mais recentemente têm viajado muito em busca de tratamento médico. Há uma grande carência de bons serviços na área da saúde por lá.

 

Diagnóstico – O que é avaliado pelo turista na hora da escolha do roteiro para o tratamento médico?

Sarda – Toda a estrutura de lazer e turismo disponível, como a oferta hoteleira, de viagens turísticas e a possibilidade de ir às compras, além da parte complementar do pré e pós-operatório.

 

Diagnóstico – No Nordeste, nenhum hospital possui JCI ou qualquer outra certificação de envergadura internacional. Quais serão os critérios para a escolha da rede de prestadores?

Sarda – Para alguns mercados, como o americano, a JCI é imprescindível. Mas outros mercados consideram a ONA satisfatória. No caso dos hospitais nordestinos, a acreditação brasileira é suficiente para atestar a realização de determinado procedimento. Além disso, a Sphera trabalha com hospitais e equipes médicas que conhece bem. Fazemos o nosso filtro médico.

 

Diagnóstico – Qual o grande diferencial do Brasil frente a grandes destinos para turismo médico, como Índia e Cingapura?

Sarda – O Brasil é um país que atende bem as pessoas. Aqui o turista fica feliz. Quem viaja para o tratamento médico precisa disso, desse tratamento mais humano, da alegria do povo. O tratamento humanizado nas instituições brasileiras tem muito valor para o paciente estrangeiro. Talvez seja uma das coisas mais valorizadas por esses turistas.

 

Diagnóstico – A Sphera pretende priorizar os processos de alta complexidade? Como vai funcionar a estrutura de suporte pós-operatório?

Sarda – Nessa fase inicial, estamos trabalhando com operações de menor complexidade, mas sem deixar de oferecer serviços para as pessoas que precisam de procedimentos mais difíceis. Estamos tentando criar um modelo com mais escala para procedimentos de baixa complexidade e trabalhando bem, de forma unitária, com aqueles de maior complexidade. Quanto ao pós-operatório, buscamos trabalhar com médicos ligados ao sistema. O cliente fica conectado com o médico brasileiro e com o do país de origem. Todos eles estão conectados. A depender do caso, o paciente pode voltar para o Brasil, onde o procedimento será revisto pelo médico autor da cirurgia.

 

Diagnóstico – O conceito de pacotes, muito comum no setor médico hospitalar brasileiro, é rotina também na assistência médica ofertada ao turista em busca de tratamento?

Sarda – Sim. Trata-se de produtos que precisam ser bem definidos, para que o paciente tenha acesso a uma espécie de tabela com preços estandardizados, que atendam às exigências tanto do cliente, quanto do fornecedor. Por exemplo, um pacote de cirurgia plástica deve determinar, além da equipe médica que realizará o procedimento e os exames exigidos, o tempo necessário de permanência no país – incluindo o antes e o depois da operação – e os custos de tradução e concierge.

 

Diagnóstico – Não parece tentador ao hospital manter estruturas próprias de acolhimento?

Sarda – Os hospitais precisam oferecer um serviço perfeito, com profissionais fluentes em línguas estrangeiras – isso vale também para o corpo clínico –, uma equipe pronta para recepcionar os pacientes estrangeiros e dar todo tipo de assistência dentro do hospital, mas sem perder o foco. A instituição de saúde precisa se concentrar na prestação do serviço médico, que é a sua real atividade. As demais ações relacionadas ao turismo devem ser delegadas às empresas especializadas no assunto.

 

Diagnóstico – Quais são as estratégias de divulgação adotadas pela Sphera?

Sarda – Combinamos a comunicação da região com uma mais específica, focada no nosso público-alvo. Por exemplo, fazemos um trabalho de relações públicas e assessoria de imprensa junto aos veículos do país, organizamos congressos e palestras, levamos as pessoas de fora para conhecer os hospitais locais. No Brasil, vamos dar início a esse processo ao longo de 2012.

 

Diagnóstico – As Olimpíadas e a Copa do Mundo podem ser uma oportunidade para o Brasil em termos de marketing para o segmento de turismo médico?

Sarda – Esses eventos são certamente uma grande oportunidade para divulgar o Brasil como destino, mas se tiverem um sólido planejamento, para que sejam aproveitados ao máximo. Um plano que valha não somente para o período da Copa ou das Olimpíadas, mas para o futuro.

 

Diagnóstico – A telemedicina será o maior concorrente do turismo médico no futuro próximo?

Sarda – Ao contrário. A telemedicina ajudará muito o desenvolvimento do turismo de saúde, uma vez que servirá de apoio e conexão entre os médicos de diversos lugares para a realização do follow-up. Poderá, por exemplo, ser uma solução para os casos em que houver complicação pós-operatória com o paciente já no país de origem. Mas para a realização da cirurgia, ainda será exigida a presença física do médico.

 

Diagnóstico – A imagem de país inseguro é um grande entrave para o turismo convencional no Brasil. É um problema também para o turismo médico?

Sarda – Com certeza. É um dos questionamentos que sempre recebemos quando propomos um tratamento no Brasil. Mas acredito que os governos federal e locais têm feito muito para mudar essa realidade. Cabe às pessoas que trabalham nesse mercado saber como comunicar esses esforços das autoridades. Mesmo assim, caso o cliente solicite, também oferecemos empresas de segurança parceiras para acompanhá-lo enquanto estiver no país.

 

Diagnóstico – Os países que são destinos turísticos de saúde também têm criado incentivos tanto para facilitar a vinda dos pacientes como para os hospitais melhorarem seu padrão de atendimento. A Índia, por exemplo, permite a importação de equipamentos médicos de última geração sem barreiras burocráticas e criou um visto especial com permanência de um ano para os turistas-pacientes. E o Brasil?

Sarda – O Brasil ainda está se desenvolvendo nesse sentido, e o governo brasileiro já deu os primeiros passos. Existe também uma boa agilidade e disposição das embaixadas brasileiras, que entendem quando há a necessidade de um visto urgente. Embora a concessão do visto não dependa da Sphera, por trabalharmos na área, também conhecemos muita gente nos consulados e, sempre que preciso, interferimos pedindo celeridade.

 

Diagnóstico – Qual a sua opinião sobre os reforços de governos locais, como o de Pernambuco, para a formação de cluster voltado para a área de turismo médico?

Sarda – A ideia é fantástica. Gostaria de saber mais sobre essas ações. É sempre importante ter o suporte de governos locais no estímulo ao turismo médico.

 

Diagnóstico – A crise americana e a europeia podem impulsionar ou arrefecer o turismo médico?

Sarda – A crise internacional pode funcionar como um estimulante, pois é justamente nesse período que as pessoas buscam o turismo de saúde para economizar dinheiro no
tratamento médico.



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