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22/11/16
Tribos indígenas na Amazônia recebem atendimento de alta qualidade graças a ONG
Com o apoio e as doações de diversas instituições, voluntários da ONG Expedicionários da Saúde levam até os pacientes da Amazônia consultas, atendimento oftalmológico e um conjunto de serviços que mudam vidas
Filipe de Souza


Associação Expedicionários da Saúde: voluntários da ONG levam atendimento médico de alta qualidade aos indígenas da selva amazônica (Foto: Divulgação)

Em 2002, uma caminhada turística levou à criação da Associação Expedicionários da Saúde. Um passeio que, segundo Ricardo Affonso Ferreira, presidente dos Expedicionários da Saúde, médico ortopedista do Instituto Affonso Ferreira e membro do corpo clínico do Centro Médico de Campinas, inspirou a mudança do foco das viagens. 

Quando foi oficializada, em 2003, houve necessidade de realizar um planejamento eficaz, procurar instituições de referência e parcerias que auxiliassem no projeto de operar mudanças significativas na saúde da população indígena. 

E basta olhar para os resultados apresentados pela ONG. Uma expedição de 15 dias, em 2004, permitia realizar pouco mais de uma centena de consultas e 52 operações. Hoje em dia, uma semana corresponde a cerca de três milhares de pacientes atendidos e entre 200 a 300 cirurgias realizadas. São 12 anos que levaram os voluntários por 34 vezes até ao coração da selva amazônica, efetuando aproximadamente 5,5 mil cirurgias e 35 mil atendimentos. 

A Diagnóstico quis ouvir médicos e colaboradores da organização e procurou testemunhos da mais recente expedição. Benedita e Maurício, da comunidade Yanomami contaram como as suas vidas mudaram após conhecerem a ONG.

Revista Diagnóstico – Como surgiu a ideia da Associação Expedicionários da Saúde?
Ricardo Affonso Ferreira – O expedicionário começou como uma caminhada para o Pico da Neblina a turismo, em 2002. No caminho, paramos em uma aldeia chamada Maturaca. Nos deparamos com uma realidade muito diferente da que vivíamos e resolvemos mudar o foco das viagens e tentar fazer alguma coisa pela população indígena da região. Procuramos instituições responsáveis pelo atendimento à saúde para entender como atuavam e assim planejar uma participação eficaz. 

Assim, em 2003, foi oficialmente estruturada a Associação Expedicionários da Saúde. Desde então, as caminhadas iniciais transformaram-se em expedições de atendimento médico às comunidades indígenas na Amazônia, dando origem ao Programa Operando na Amazônia - Rio Negro. Nos primeiros anos, a ONG ficou dentro da ‘cabeça do cachorro’, noroeste brasileiro, onde vivem 22 etnias diferentes (entre 15 e 20 mil pessoas). Atualmente, as expedições estão voltadas para locais onde já fomos outras vezes e sabemos das necessidades. Também estamos indo para locais por meio de solicitações de líderes indígenas.

Diagnóstico – Quais os obstáculos que encontram e como os ultrapassam? 
Ricardo – É importante ressaltar que se trata de um serviço complementar aos programas existentes de atendimento à saúde indígena e que visa evitar a necessidade de deslocamento, custoso e traumático, do doente e sua família até centros urbanos. O trabalho é viabilizado a partir de parcerias com atores e instituições locais para realização de diagnósticos e pré-seleção de pacientes, planejamento das viagens da equipe de médicos e de utilização de nosso Centro Cirúrgico Móvel. 

No início operávamos em hospitais semiabandonados nas fronteiras do Brasil. Após um ano, tivemos a ideia de fazer cirurgias em tendas, consideradas “high-tech”, que são transformadas em um complexo hospitalar, com centro cirúrgico, para procedimentos de médio porte, como cataratas e hérnias inguinais e epigástricas, além de partos e exames de diagnósticos. 

Os procedimentos mais recorrentes estão relacionados ao modo de vida nas tribos. Grande parte das cirurgias de hérnia é realizada em crianças que, desde cedo, ajudam a família a transportar cargas como a colheita de mandioca e roupas para serem lavadas no rio. Além disso, realizamos um grande número de cirurgias de catarata em jovens e adultos afetados precocemente pela alta incidência de luz solar na região.

Diagnóstico – Que ajuda recebem?
Ricardo – Além do trabalho dos médicos voluntários, os Expedicionários da Saúde contam com o apoio de outros profissionais que ajudam a viabilizar a instituição. A parceria com empresas na forma de doações financeiras, de serviços e de materiais é o que tem tornado o projeto viável.

Diagnóstico – Quais os desafios e objetivos dos Expedicionários?
Ricardo – Toda ONG tem começo, meio e fim. A EDS está no meio e planejamos  expandir para o restante da América Latina. Buscamos ser referência de saúde pública no Brasil. Nesses 13 anos, a EDS já cobriu, com atendimentos, uma área maior do que a França - além de cuidar dos indivíduos, a ONG respeita a floresta. 

A promessa da ONG é atender com excelência os indígenas e, para isso, precisamos fazer com que diferentes órgãos do governo conversem. Sem o apoio de empresas privadas, não conseguiríamos viabilizar um atendimento de ponta. Hoje não há muito tempo para captação de recursos e as captações acabam sendo espontâneas. 

Um dos mais recentes apoios que a EDS recebeu foi da GE. Um parceiro que surgiu através da iniciativa de uma voluntária da ONG. Fabiana Garcia, gerente de produtos da GE, integrava as expedições da organização, quando decidiu propor a colaboração entre as duas instituições, como a própria explicou à Diagnóstico.

Diagnóstico – Como surgiu a ideia de fazer a ponte entre a GE e a Expedicionários da Saúde?
Fabiana Garcia – A iniciativa da companhia partiu da minha indicação, já que sou voluntária na organização social há um ano. Comecei através  do meu trabalho anterior, e nas minhas últimas férias me dediquei como voluntária às expedições da ONG e na terceira expedição que participei, fui como voluntária e também como funcionária GE. 

Ao chegar à GE, identifiquei que com os produtos disponíveis na empresa seria possível levar qualidade ao diagnóstico desse público e proporcionar agilidade no tratamento, já que, com os aparelhos portáteis, o tempo de deslocar essas pessoas para fazer o diagnóstico em outro lugar deixa de existir e possibilita chances de resolução do caso no mesmo local. Eu sempre fico um pouco fora do ar, pensando neles, o que vai acontecer e como posso ajudá-los mesmo que de longe. E aqui no meu trabalho foi possível ajudar ainda mais essa população.

Diagnóstico – Qual o impacto da cessão de aparelhos da GE?
Fabiana – Com o empréstimo de um Vscan, da GE, equipamento portátil com tecnologia de ultrassom do tamanho de um celular, foi possível agilizar o trabalho dos médicos durante as triagens, exames de diagnóstico e procedimentos pré-operatórios. Por ser portátil, o equipamento auxiliou na fácil locomoção dentro da tenda para realizar exames básicos com mais agilidade. 

Na minha última expedição, a viagem durou oito horas (de Campinas para São Gabriel em um avião da força aérea; de São Gabriel até a Aldeia com um avião de carga). Ao chegar, passa-se por uma trilha para iniciar mais rapidamente a missão. Todos se ajudam e foram construídos a cozinha, os banheiros, o alojamento e o centro cirúrgico. No primeiro dia é um dia mais de organização. Tudo é adaptado; na ginecologia, por exemplo, um lado da sala é claro e o outro é escuro, adaptamos tudo para atender da melhor forma possível. Os pacientes chegam ao local, se cadastram e falam sobre o que estão sentindo, e os voluntários realizam o trabalho de preparar os pacientes para as consultas e para os procedimentos cirúrgicos.

Diagnóstico – O que representa para você ser voluntária e conseguir junto à GE outra importante contribuição para a ONG?
Fabiana – É uma experiência inesquecível, diferente e que você sai do seu eixo. Você passa a dormir no chão, sem conforto, come o que tem. E então você percebe que o mínimo que você faz já é o suficiente. Isso me deixou muito mais humana, me fez prestar mais atenção nas coisas e nas pessoas. E, para fazer o bem, eu não preciso estar na Amazônia, mas foi lá que eu percebi que uma coisa pequena pode mudar a vida de alguém. 

Mas o que leva as instituições a associarem o seu nome ao trabalho dos Expedicionários e a contribuírem com doações financeiras, serviços e insumos? A Diagnóstico bateu à porta da GE e, do outro lado, Daurio Speranzini Jr, presidente e CEO da GE Healthcare para a América Latina, deu as respostas que procurávamos.

Diagnóstico – O que a GE ganha com essa ligação e o que ela oferece?
Daurio Speranzini Jr – A GE Healthcare fornece serviços e tecnologias médicas transformadoras que atendem a demanda por acesso mais amplo a serviços de saúde de melhor qualidade e menor custo, além de ajudar profissionais do mundo todo a proporcionar saúde de qualidade a mais pessoas. E, desde 2010, produz, em sua unidade localizada em Contagem, Minas Gearis, equipamentos médicos em sua primeira fábrica no país. 

O recente trabalho com os Expedicionários da Saúde foi dispor para os voluntários da ONG o Vscan, equipamento portátil com tecnologia de ultrassom, e dois outros ultrassons chamados LOGIQ e. Mais uma forma encontrada pela GE Healthcare para levar diagnóstico de qu\alidade até áreas remotas, proporcionando um cuidado efetivo e acesso à tecnologias de ponta. Para o futuro, a expectativa da empresa é tornar essa parceria cada vez mais forte e ajudar os Expedicionários da Saúde com equipamentos cada vez mais inovadores e, assim, poder contribuir para um diagnóstico mais seguro e ajudá-los a salvar vidas nos lugares mais distantes do Brasil.


NA VOZ DOS PACIENTES

O mais difícil, talvez, era conseguir recolher os testemunhos de pacientes que conseguiram atendimento médico da EDS. A Amazônia não será um local de fácil acesso, mas dois dos membros da comunidade Yanomami, Benedita (85 anos) e Maurício (70 anos) transmitiram o sentimento de gratidão pela forma como a EDS melhorou suas vidas. Maurício havia feito um pedido especial: “Ele pediu um chinelo, e conseguimos um para ele. Ficou muito agradecido e disse que ficaria ainda melhor fazer tudo isso sem pisar no chão”. E conseguiu mais que um chinelo.

Diagnóstico – O que você acha de receber atendimento médico?
Maurício Yanomami – Muito especial. Nunca havia recebido nenhum tipo de atendimento e sofria demais sem enxergar. Tinha os dois olhos comprometidos.

Diagnóstico – Como foi receber os médicos?
Maurício – Foi muito bom e importante. Nunca tive uma experiência tão boa. Não conhecia esse tipo de atendimento e nem imaginava que existia.

Diagnóstico – No começo estava desconfiado, com medo?
Maurício – Não tive medo. Fiquei apenas ansioso a respeito do resultado.

Diagnóstico – O que mudou na sua vida depois da vinda dessas expedições?
Maurício – Meu sonho era andar de avião... Estava muito triste, pois só ficava na rede o dia todo dependendo de cuidados. Quando voltei a enxergar, isso me permitiu caçar, pescar, andar de barco e ver o sol e a lua de novo, pois gosto muito. Estou extremamente feliz e disse que não tinha como agradecer.

Diagnóstico – O que a oportunidade de cuidar da saúde significa para você?
Maurício – Poder aproveitar a vida, ser útil e cuidar da família novamente.

Diagnóstico – O que você acha de receber atendimento médico?
Benedita Yanomami – Muito importante, pois moro em uma aldeia muito afastada e não enxergava mais e deixei de fazer várias coisas. Além de ser a primeira vez que tive um atendimento oftalmológico.

Diagnóstico – Como foi receber os médicos?
Benedita – Foi bonito e especial, fiquei muito feliz por terem escolhidos os Yanomamis. Pois é um povo muito carente e isolado.

Diagnóstico – No começo estava desconfiada/com medo?
Benedita – Com muito medo, principalmente quando andei de helicóptero. Nunca havia visto um, porque sempre andei de barco a vida toda. Fiquei desconfiada dos médicos.

Diagnóstico – O que mudou na sua vida depois da vinda dessas expedições?
Benedita – Poder voltar a trabalhar, pois cuido da família e de dez filhos e muitos netos sozinha. (Na cultura indígena, é muito comum a mais velha ser responsável pelo sustento da casa)

Diagnóstico – O que a oportunidade de cuidar da saúde significa para você?
Benedita – Poder viver melhor.

Reportagem publicada na revista Diagnóstico n° 32

Tags: Amazônia


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