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25/07/13
Um olhar sobre o design baseado em evidências
A Diagnóstico foi buscar no renomado Center For HealthCare Design (CHD), sediado nos Estados Unidos, as referências que tornaram o design hospitalar parte intrínseca no processo de cura
Rodrigo Sombra, da Califórnia


Lobby do hospital da Funcação Pritzker, em Chicago: projeto clássico do CHD com abordagem multidisciplinar e psicologia ambiental (Nick Merrick/Divulgação)

Uma garota paralisada pelo medo. Essa foi a imagem encontrada por Doug Dietz, designer chefe da GE, quando visitou um hospital para observar como pacientes reagiam ao realizarem exames num scanner de ressonância magnética (MRI) recém-projetado por ele.  Aterrorizada pela ideia de entrar no scanner, a garota não dava ouvidos aos pais, esperneava e se recusava a realizar o exame. Esgotado o diálogo, pesados sedativos foram usados para, enfim, “convencê-la” a entrar no túnel daquele aparelho cinza e barulhento. Assistir àquela cena e saber que sedar crianças era prática comum em exames de ressonância magnética abalaram as convicções de Dietz. Descobrir como, além de seu aspecto funcional, o design de um aparelho médico pode gerar uma experiência positiva o levaria a, anos depois, projetar um modelo radicalmente diferente de scanner:  o GE Adventure Series. Customizados como submarinos ou navios piratas, os scanners da Adventure Series convidam a uma experiência lúdica em nada parecida àquela de deslizar no interior de um “tijolo com um buraco no meio” – como o próprio Dietz definiu seus antigos aparelhos. Não por acaso, um dos hospitais a adotar o “navio pirata” diminui em 70% o número de crianças sedadas em exames de ressonância magnética. 

O sucesso do Adventure Series é caso  exemplar de como soluções criativas aplicadas ao ambiente hospitalar podem influenciar a assistência médica. Nos últimos anos, inúmeras pesquisas têm  demonstrado como projetos inovadores em arquitetura e design são capazes  de  não somente amenizar o estresse do paciente, mas também reduzir erros médicos, a chance de quedas e a transmissão de infecções. 

O entendimento de que o entorno impacta o bem-estar do paciente não é novidade, mas ganhou maior rigor científico nos primeiros anos 90, quando da criação do Center For HealthCare Design (CHD), instituto de pesquisa localizado na cidade de Concord, Califórnia. Interessada em uma abordagem multidisciplinar que integrava design, arquitetura e conceitos de psicologia ambiental e da saúde, a equipe do CHD explorava, então, um novo olhar sobre a importância do ambiente hospitalar. 


Ludismo da sala de diagnóstico por imagem do Children’s Hospital of Orange County (CHOC), na Califórnia (Craig Dugan/FKP Architets)

Juntar as pessoas certas – O método inaugurado pelo CHD ficou conhecido como “design baseado em evidência” (DBE). Em suma, o conceito define o processo pelo qual mobiliário, instalações e plantas hospitalares são projetados a partir de resultados colhidos em pesquisas científicas. Ainda em meados dos anos 90, ao passo em que as pesquisas do centro evoluíam, crescia também o seu apelo entre os líderes do setor de saúde nos EUA. “A certa altura, alguns executivos cabeça-aberta da indústria hospitalar se aproximaram de nós e disseram: ‘Olha, isso (design baseado em evidência)  é algo que nós não compreendemos completamente, mas que queremos incorporar à arquitetura dos nossas instalações. Queremos juntar as pessoas certas e tirar o máximo do conhecimento que vocês têm produzido’”, recordou Debra Levin, atual diretora executiva do CHD, em entrevista à Diagnóstico. “E à medida em que aquelas novas instalações eram construídas e a história se espalhava, vimos que a aceitação do ‘design baseado em evidência’ crescia muito rapidamente”. 

Passados 20 anos desde a criação do CHD, ideias como “design baseado em evidência” são moeda corrente no setor de saúde americano e em várias parte do mundo. “As pessoas hoje estão muito mais conscientes de quanto o entorno contribui para a cura e o bem-estar”, opinou Hilary Dalke, professora de design da Kingston University, de Londres. Dalke há anos pesquisa os efeitos da cor no interior de instalações médicas e acredita que  “um hospital bem projetado pode não curar pessoas gravemente doentes, mas um hospital mal concebido e instalações deprimentes podem definitivamente afetar o tempo de recuperação de pacientes e a autoestima dos funcionários”. Para David Allison, diretor da Escola de Arquitetura da Clemson University e eleito pela revista HealthCare Design uma das dez personalidades mais influentes do design hospitalar em 2012, o campo hoje está mais que estabelecido. “Organizações de saúde e designers estão se movendo para além do foco em medidas tradicionais de eficiência funcional e da ênfase em tecnologias adequadas, mesmo que essas preocupações continuem sendo importantes. Hoje, os ambientes de saúde são mais humanizados e menos institucionais”, disse Allison à Diagnóstico.


Fachada do CHOC, Hospital Infantil Californiano: design como elemento de cura e sensibilização (Craig Dugan/FKPArchitets)

Função crítica – Grande parte dos estudos que investigam a relação entre design e assistência médica nos EUA é acompanhada de perto pelo Center For HealthCare Design, que atua como  o principal agregador de pesquisas do setor. “Em um campo que tem crescido rapidamente, há a necessidade de uma bússola, um sistema de navegação que ajude as pessoas a encontrarem seu caminho. Na minha opinião, o CHD preenche essa função crítica”, opina Upali Nanda, arquiteta e presidente do conselho consultivo do RedCenter da American Art Resources, instituição que estuda o impacto do uso de artes visuais em instalações hospitalares. Mais que um instituto de pesquisa, o CHD funciona como eixo para uma comunidade dedicada a pensar alternativas para o design hospitalar. 

Arquitetos, designers, médicos e empresários encontram no centro um espaço privilegiado para a circulação de ideias e o desenvolvimento de projetos colaborativos. “O CHD está tecendo um núcleo forte, a fim de unir a crescente rede interdisciplinar que define o design hospitalar. O papel do CHD é essencial para garantir que o que é feito em certas empresas ou ambientes acadêmicos seja comunicado para a indústria em geral”, afirma Nanda. Em 2008, o CHD deu outro passo importante com a criação do Evidence-Based Design Accreditation and Certification (EDAC), programa que confere credenciais a profissionais treinados para usar o  método do design baseado em evidência. Desde o lançamento do EDAC, mais de 1.300 profissionais já foram instruídos e credenciados pelo centro.


Hospital Infantil Ann Robert, em Chicago: ambientes mais humanos e menos institucionais mantêm astral alto para os pacientes e seus familiares (Nick Merrick /Divulgação)

Novas tendências – A forte presença do design na agenda da indústria médica americana durante os últimos anos estimulou a chegada de uma nova onda criativa para setor. Inaugurado em fevereiro, o hospital infantil de Orange County, por exemplo, fez investimento maciço em aspectos recreativos capazes de tornar mais suave a estadia de pacientes pediátricos. 

Assinado pela FKP Architects, o interior de cada andar do edifício é inspirado em cenários que vão do oceano profundo ao espaço sideral. Além disso, o prédio abriga ainda um estúdio de rádio e TV no qual pacientes são convidados a montar e transmitir seus próprios programas. Encarregado de projetar o “hospital do futuro”,  o time do CO Architects inaugurou no ano passado o Palomar Medical Center, em Escondido, Califórnia. Orçado em US$ 956 milhões, o Palomar é projeto-piloto do Green Guide for Healthcare (GGHC), sistema de classificação criado para orientar construções sustentáveis na área de saúde.  Ornado com jardins, terraços e exposição abundante à luz natural, o hospital possui ainda um telhado verde com extensão de 1,5 acre acima de uma de suas torres. O projeto levou 10 anos para ser concluído e foi descrito pelo doutor David Tam, chefe administrativo do Palomar Health, como  “uma oportunidade para realmente olhar a pesquisa baseada em evidências e incorporar o máximo de avanços que poderíamos encontrar”.

Embora os EUA comportem grande know-how em design, profissionais americanos muitas vezes aperfeiçoam sua técnica pelo contato direto com realidades radicalmente diferentes. É o caso de Michael Murphy, arquiteto e diretor executivo do Mass Design Group. Após formar-se em Harvard, Murphy tomou a dianteira em projetos de hospitais e escolas em Ruanda, onde aprendeu lições importantes de eficiência e simplicidade. Convidado para conduzir a reforma em um hospital de Nova Iorque no ano passado, Murphy deparou-se com um edifício obsoleto, calorento e cujas janelas estavam parafusadas, bloqueando a circulação de ar e provocando total dependência do sistema de ar condicionado. Em vez de pôr o prédio abaixo ou tomar qualquer medida drástica e custosa, ele resolveu o problema da temperatura no hospital a partir de soluções extraídas da experiência de escassez em solo africano. Sem precisar usar luz elétrica,  recorreu ao sombreamento de varandas ao ar livre, redefiniu o uso das janelas e aplicou um sistema de chaminés solares e verticais típico de Ruanda. Pelo sisitema, é possível “acelerar a extração do ar fresco para o interior  do ambiente, em um sistema de filtração mais parecido com a respiração natural”, explicou Murphy em entrevista à revista Metropolis.

Michael Murphy batizou de “pensamento-de-sul-pra-norte” a tática descrita acima. Em tempos de crise econômica, em que líderes da área de saúde podem sempre relutar em investir em projetos mais dispendiosos, a lição de simplicidade do Mass é mais que bem-vinda. Os designers americanos consultados pela Diagnóstico, no entanto, acreditam que o mercado não parece disposto a recuar. 

“Ao investir em suas instalações, eles (os líderes do setor de saúde) verão economias que irão cobrir os custos do capital inicial seguidas vezes: em forma de uma menor rotatividade de funcionários, contas de energia mais baixas e uma maior participação no mercado”, acredita a pesquisadora Sara Marberry. A promessa de que o investimento em design promete bons frutos a longo prazo também é partilhada por David Allison: “Os líderes das organizações de saúde precisam considerar muito mais do que o custo investido na construção”, salienta. “Eles precisam entender dos seus negócios para obter melhores projetos e ir além do pensamento a curto prazo”. 

*Matéria publicada na revista Diagnóstico n° 20.



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