home notícias Tecnologias
Voltar Voltar
05/11/13
Cientista russo quer criar órgãos humanos com impressora de 3D
Vladimir Mironov escolheu o Brasil para suas pesquisas. Estudos apontam que a tecnologia pode começar a ser testada em pacientes na próxima década
Da redação

O cientista russo Vladimir Mironov, que sonha em imprimir em 3d órgãos e tecidos humanos escolheu o Brasil para suas pesquisas. Em parceria com especialistas de um Centro de Tecnologia da Informação público em Campinas (SP), Mironov deu os primeiros passos na bioimpressão e os resultados são impressionantes. O sonho de Mirinov é imprimir um rim, um dos mais complexos órgãos do corpo humano. E seu objetivo é criar uma máquina que seja capaz de depositar, camada a camada, as células que formam o órgão. As informações são da revista Info.

A tecnologia da bioimpressão ocorre através da utilização de uma impressora 3D para criar tecido vivo a partir de células. A previsão de especialistas é que, em menos de uma década, estruturas de cartilagem, como orelhas ou meniscos, sejam impressas em uma máquina 3D e implantadas no corpo humano. As estimativas apontam que em 2030 será a vez de órgãos considerados complexos, como rim, coração e pulmão. Com quase duas décadas de experiência, Mironov é um dos pioneiros no mundo da bioimpressão. Segundo ele, é um projeto demorado, mas que será possível.

Os planos do cientista russo incluem a criação de um braço robótico para curar feridas com jatos de tinta viva e uma forma de eliminar a calvície através da impressão de cabelo diretamente na pele. Aos 59 anos, o plano de tirar grande parte desses projetos do papel é no Brasil. “Estamos tornando a ficção científica realidade com tecnologia criada aqui no Brasil”, afirma. O local escolhido para suas pesquisas é o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI), em Campinas, no interior de São Paulo. No órgão, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, funciona o maior laboratório de pesquisa em 3D do Brasil.

Graças às pesquisas do CTI, cerca de 500 pacientes do sistema público de saúde recebem por ano próteses de mandíbula, crânio e nariz. Utilizando um programa de computador próprio, eles transformam imagens de tomografa e ressonância magnética em modelos tridimensionais que permitem projetar e imprimir peças que se encaixam em regiões afetadas.

Como a Anvisa ainda não permite que o material impresso em 3D seja implantado no corpo humano, as peças se transformam em moldes para a criação de próteses. De acordo com Jorge Vicente Lopes da Silva, coordenador da divisão de tecnologias tridimensionais do CTI, o centro recebe inumeros casos de pessoas que perderam parte dos ossos da face para tumores ou em acidentes. 

A parceria entre o CTI e Vladimir Mironov é motivada pelo sonho de que no lugar de peças de materiais artificiais, os pacientes possam receber partes reconstruídas com as próprias células, "de carne e osso", completa o Mironov. O centro possui experiência em software e hardware. Já o russo, formado em medicina, tem na bagagem conhecimentos de biologia e design e passou por importantes instituições de pesquisa na Alemanha e Estados Unidos. Também ajudou a desenvolver uma tecnologia patenteada que foi licenciada pela empresa americana Organovo, a primeira do mundo a criar uma máquina comercial capaz de imprimir tecidos biológicos.

Em abril, a Organovo criou artérias seis vezes mais resistentes do que as do corpo humano. A empresa também anunciou a impressão de células do fígado. O material ainda não foi aprovado para implante em pessoas, mas diz muito em relação ao avanço científico. Nos Estados Unidos -- onde laboratórios levam em média 12 anos para colocar um novo medicamento no mercado -- antes que a droga seja considerada segura para testes em humanas, são necessários estudos demorados em células e em animais. Com as ferramentas da Organovo, é possível acelerar esse processo testando em tecidos humanos desde o início da produção.

De uma pequena startup fundada em 2007, a Organovo se transformou em uma companhia com ações negociadas na bolsa de valores e mais de 400 milhões de dólares de valor de mercado. Crescimento que indica grandes expectativas em torno da bioimpressão. Hod Lipson, professor da Universidade Cornell e autor do livro Fabricated: The New World of 3D Printing (“Fabricado: o novo mundo da impressão 3D”, numa tradução livre), a bioimpressão é o futuro da medicina. “Já é possível imprimir em 3D praticamente qualquer objeto. O próximo movimento lógico é trabalhar com células vivas no lugar de tinta”, disse.

Vladimir Mironov ajuda o Brasil a dar os primeiros passos nessa direção. Em uma das salas do CTI, em Campinas, já funciona uma máquina desenvolvida pela Universidade Cornell. Pouco maior do que um computador convencional, trata-se da base experimental para uma futura impressora de tecidos biológicos.

Em 2005, Hod Lipson coordenou uma equipe que imprimiu um menisco - cartilagem em forma de "C" que costuma dar problemas em joelhos de atletas. A peça tinha o formato e a constituição idênticos aos de um menisco natural, porém era muito mais fraca. “A cartilagem precisa de pressão para ficar forte. No joelho, as células sofrem isso naturalmente. Após a impressão, descobrimos que era preciso criar essas condições”, disse Lipson, que conheceu Mironov em encontros acadêmicos. “É uma das pessoas que puxam os avanços nesse setor. É um dos pioneiros”, diz sobre o russo.

Nos Estados Unidos, Mironov conquistou reconhecimento como um dos primeiros pesquisadores a publicar um trabalho sobre impressão de órgãos. Há cinco anos, em uma das muitas convenções de que participou, conheceu o brasileiro Jorge Vicente da Silva, 50 anos, coordenador da área de 3D, interessado em bioimpressão. “Foi assim que começamos a fazer algumas colaborações”, contou Silva.

Formado em engenharia da computação, o brasileiro faz parte de um grupo que está montando a futura impressora de tecidos biológicos. “Um de nossos objetivos é algum dia imprimir um órgão, mas temos linhas de pesquisa paralelas”, diz o engenheiro Rodrigo Rezende, um dos coordenadores da área de bioimpressão do CTI. Em sua sala no departamento de 3D, ele mostra um braço robótico, com quase 2 metros de altura. Avaliada em 100 000 dólares, os pesquisadores instalaram na máquina o primeiro protótipo de uma pistola que será capaz de imprimir células diretamente no corpo. “Estamos combinando cirurgia robótica com bioimpressão”, completou Mironov.

O objetivo do governo americano é levar aos campos de batalha uma máquina que regenere queimaduras. “Um laser escaneia a ferida para determinar tamanho e profundidade. Com esse mapa, o computador controla a quantidade de células que serão depositadas”, explica James Yoo, pesquisador da Universidade Wake Forrest. Com uma década de experiência em bioimpressão, Yoo desenvolveu o primeiro protótipo da máquina.

Estudos apontam que a tecnologia pode começar a ser testada em pacientes na próxima década, mas ainda é cedo para dizer quando chegará ao mercado. A capacidade de reconhecer imagens, gerar modelos e prever comportamentos é fundamental para imprimir tecidos vivos. Um órgão possui não apenas variações de espessura mas também diferentes tipos de célula, que devem ser colocados em regiões específicas. Além disso, é preciso modelar toda a parte de distribuição de sangue, imprimindo as veias e as artérias.

Maior empresa de software 3D do mundo, a americana Autodesk também investe na bioimpressão. Segundo Carlos Olguin, chefe da divisão biológica do Autodesk Research, trabalhar com material vivo é fazer engenharia reversa. "Precisamos entender estruturas que já existem, que não foram criadas por nós”, disse. 



PUBLICIDADE

Newsletter

Cadastre-se e receba as novidades do Diagnosticoweb em seu e-mail

agenda

facebook

© Copyright 2012, Diagnósticoweb . Todos os direitos reservados.