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14/10/16
Como a tecnologia está transformando pacientes em consumidores
Pacientes ou consumidores? A realidade é que de vez em quando somos um ou o outro, mas na maior parte do tempo somos ambos
Robert Pearl*


O debate sobre nomenclatura paciente ou consumidor está crescendo e é mais do que uma questão de sutilezas semânticas (Ilustração: André Tapioca)

O debate sobre nomenclatura está crescendo e é mais do que uma questão de sutilezas semânticas. Entre defensores apaixonados de ambos os lados da discussão, as emoções são fortes.

Às vezes vemos a nós mesmos como pacientes, incluindo quando aguardamos cirurgia para solucionar uma inflamação aguda do apêndice. E em outras vezes, como quando comparamos os custos e benefícios de diferentes planos de saúde, somos claramente consumidores.

Mas a maior parte do tempo somos ambos. E, focando em um contra outro, revela-se não só uma falsa dicotomia, mas também perigosa para a nossa saúde e nosso bolso.

Como prejudicar os pacientes prejudica os consumidores
As decisões de preços ultrajantes recentes na indústria farmacêutica demonstram o porquê. Quando um medicamento de US$1 mil por comprimido foi introduzido para tratar a hepatite C, rapidamente seguido por uma terapia de US$1.125 por comprimido, “pacientes” não tiveram escolha a não ser pedir essa medicação e “consumidores” não tiveram escolha a não ser pagar a despesa do seu bolso.

Os novos medicamentos eram caros para se desenvolver, mas se o preço fosse fixado racionalmente, poderia ter acabado por valer a pena tanto para os pacientes quanto para os consumidores. Tivesse a Gilead, a empresa que adquiriu o medicamento, cobrado o mesmo pela medicação que o desenvolvedor, Pharmasset, havia dito a analistas que cobraria – cerca de US$36.000 pelo tratamento inteiro - ambos pacientes e consumidores teriam se beneficiado. E o fabricante teria colhido um justo retomo sobre o investimento. Mas não foi isso que aconteceu.

Em vez disso, quando a Gilead comprou a empresa por US$11 bilhões, sabia que independentemente do preço, os médicos iriam prescrever a terapia e, além disso, que as pessoas – quer elas se vissem como pacientes ou consumidores - teriam pouca escolha senão obter a droga e pagar cada vez mais caras coparticipações, cosseguro e prémios no futuro. Sem desculpas – e sem investir um valor significante de dólares em pesquisa e desenvolvimento adicionais –, a Gilead triplicou o preço. O resultado é que o paciente e o consumidor estão pagando o custo hoje e a empresa vai lucrar US$ 200 bilhões com sua decisão.

Se ao menos a ganância tivesse parado aí, teria sido uma situação única, refletindo um grande avanço na assistência médica. Mas não. A decisão de preço da Gilead rapidamente sinalizou que nem os consumidores nem os pacientes estavam em posição de dizer “não”, e, como resultado, o céu era o limite para as empresas farmacêuticas e os seus acionistas. A Valeant logo comprou os direitos para dois medicamentos bem estabelecidos, que enfrentam pouca ou nenhuma concorrência, e imediatamente elevou o preço de um em mais de 200% e em outro em mais de 500%. Esta empresa de capital aberto, de acordo com o New York Times, gasta pouco em P&D.

E, como a imprensa tem destacado, qualquer um com capital pode lucrar com vendas de produtos farmacêuticos hoje em dia. Martin Shkreli, um gerente de fundo de investimento se tornou CEO farmacêutico, recentemente comprou os direitos de um medicamento essencial, disponível há mais de meio século - e que não tem equivalente alternativo - e imediatamente elevou os preços em 5.000%. Felizmente o ultraje público fê-lo voltar atrás.

Dada a resposta negativa, talvez o mundo farmacêutico vá frear, mas o aviso é poderoso. Quando o paciente é feito refém, o consumidor paga o preço.
 
Por que as demandas por tecnologia fazem de nós consumidores
Do mesmo jeito que o consumidor e o paciente sofrem ao mesmo tempo, ambos se beneficiam quando um deles se beneficia. Os consumidores adoram alta tecnologia, e os pacientes desejam alta qualidade – e a maioria de nós quer ambas.

Aqueles que insistem em nos chamar de “consumidores” acreditam que a alta tecnologia pode resolver quase todos os desafios da saúde. Eles argumentam que, na era digital, o controle passou para o indivíduo e deve continuar assim. Eles esperam ser capazes de obter acesso aos serviços em qualquer lugar, a qualquer hora.

Afinal, se os “consumidores” podem agendar um voo ou comprar um produto a partir de um país distante através da internet “24 x 7”, por que eles precisam ligar para um consultório médico entre as 9h e as 17h, de segunda a sexta-feira, para marcar uma consulta? Para um defensor dos consumidores, isso é praticamente pré-histórico. E eles perguntam se enquanto “consumidores” podemos pesquisar qualquer tema e responder a qualquer pergunta que vem à mente através do Google. Em seguida, por que não deveríamos ter mais controle sobre nossas próprias escolhas de cuidados de saúde?

Eles acreditam que à semelhança do que tem acontecido em viagens, varejo e finanças, uma vez que as ferramentas de engajamento proativo em saúde – agendamento direto, controle de informação pessoal e acesso de vídeo e e-mail a qualquer hora e em qualquer lugar – estejam amplamente disponíveis, a nossa saúde irá melhorar e os custos de saúde irão diminuir.

Para o consumidor tecnologicamente focado, a palavra “paciente” soa a algo paternalista e antiquado. Ele está convencido de que médicos se opõem ao termo “consumidor” por estarem preocupados com ameaças a sua situação profissional e com medo de serem relegados para o papel de funcionários de varejo muito bem pagos. Os consumidores percebem a resistência dos médicos a tecnologia como egoísmo, apontando, como um caso em questão, como a medicina organizada no Texas tentou restringir o uso alargado de ferramentas como consultas por vídeo e fotografia digital devido à ansiedade causada pela concorrência de médicos de fora da comunidade.

Por que o desejo de alta interatividade faz de nós pacientes
Os médicos entendem que os cuidados de saúde se baseiam não só no conhecimento especializado, mas também na capacidade de construir a confiança. Eles reconhecem o poder da relação médico-paciente e seu impacto positivo na cura, na adesão do paciente a terapias mutuamente acordadas e em melhores resultados clínicos.

Médicos experientes estão convencidos, também, que a medicina continua tanto arte quanto ciência, e temem que uma lógica de “um tamanho único” poderia levar não à excelência, mas à mediocridade. E lamentam que o computador tenha se interposto tão intrusamente entre eles e seus pacientes na sala de exame e, também, o tempo que o universo digital requer diariamente.

Os médicos que preferem o conceito de “paciente” veem o modelo de “consumidor” como ingênuo e incompleto. Eles lembram às pessoas todas as razões pelas quais a faculdade de medicina requer quatro anos e formação médica geral, uma década ou mais. Eles temem que os empresários de Silicon Valley vão convencer as pessoas de que o que eles mais precisam é de monitoramento contínuo de ECG e medição excessiva de outros processos fisiológicos, quando, na prática, as informações se mostram em nada mais úteis do que receber atualizações sobre o índice Dow Jones Average de um consultor financeiro a cada cinco minutos. Eles temem que colocar todos esses dados em registros de saúde eletrônicos vá distrair do mandato central de cuidar de pacientes. E como pacientes, o velho ditado - “Ninguém se importa o quanto você sabe, até saberem o quanto você se importa” - soa verdadeiro.
 
Nossas identidades como pacientes e como consumidores
Então, quem somos, pacientes ou consumidores? A realidade é que de vez em quando somos um ou o outro, mas a maior parte do tempo, somos ambos.

Aqui estão três exemplos reveladores:
 
1. Desejos complementares
Na maior parte de nossas vidas agimos como consumidores escolhendo de longas listas de médicos, utilizando qualquer critério que preferirmos. E nós queremos decidir se temos nossos problemas médicos abordados e nossas perguntas respondidas através de um e-mail seguro, uma fotografia digital ou uma consulta por vídeo.

Mas, se desenvolvermos uma doença grave ou enfrentarmos decisões de fim de vida, nós nos voltamos para os médicos que conhecemos e em quem confiamos para explicar a situação e serem honestos sobre o resultado provável. Nós ainda queremos tomar nossas próprias decisões sobre o que para nós é qualidade de vida, mas nós valorizamos os médicos que podem nos envolver em uma profunda e honesta conversa, cheia de carinho e compaixão - algo que computadores hoje não podem providenciar.
 
2. Pesando qualidade dos cuidados em relação ao custo
Como consumidores, estamos interessados no preço de tudo e queremos controlar quanto gastamos. Enfrentando custos dedutíveis cada vez mais elevados, queremos tomar as decisões sobre se tomamos medicamentos de referência ou genéricos e quão longe nós estamos dispostos a viajar para obter uma tomografia computadorizada de alta qualidade ao menor preço. Afinal, isso é o que fazemos quando compramos um bilhete de avião ou compramos um carro.

Mas quando precisamos de uma cirurgia importante ou um tratamento para uma condição potencialmente fatal como o câncer, vemos o mundo de forma diferente. O custo de repente já não é um fator importante a considerar. Rapidamente mudamos a nossa mentalidade de consumidor para paciente, querendo os melhores tratamentos e esperando que outro, seja o governo ou o seguro comercial, cubra os enormes custos que serão gerados.
 
3. Quando alta tecnologia, quando alta interatividade?
Quando temos problemas de rotina, como infecções na garganta ou dor nas costas, desejamos conveniência e a alta tecnologia é uma importante avenida. Procuramos informação em tempo real, facilmente acessível, sobre as nossas necessidades de saúde e queremos ser capazes de ir online e obter o teste e medicamentos que precisamos tão facilmente e intuitivamente como quando compramos e vendemos ações. E um número crescente de pessoas quer ler atentamente a literatura médica e decidir com seu médico o rigor com que sua pressão arterial ou glicose no sangue devem ser controladas. Durante esta parte de nossas vidas, o consumismo é rei.

Mas para as pessoas com múltiplas condições crônicas que tomam uma meia dúzia ou mais drogas, todo esse processo pode  ser esmagador. Eles buscam um médico que lhes transmita confiança, que coloca seus interesses em primeiro lugar. Sob essas circunstâncias, eles são mesmo muito pacientes e seguem com afinco as instruções de um especialista.

E, como resultado, ao longo de nossas vidas, nós acabamos sendo ambos.
 
O que somos, quando e por quê
O debate sobre consumidor versus paciente é importante e valoroso, pois ele irá conduzir médicos e hospitais a abraçar quer o atendimento personalizado quer a tecnologia. Esperemos que isso vá encorajar os legisladores a controlar essas ações de empresas farmacêuticas que ameaçam o bem-estar de ambos. E talvez o debate faça com que empresários se concentrem em investir em nova tecnologia que realmente vá melhorar a saúde das pessoas, não apenas gerar dados pensando nos dados. E o mais importante: ele tem o potencial para inspirar cada um de nós para amar os valores do passado enquanto exige as ferramentas do futuro.

*Robert Pearl é médico formado pela Escola de Medicina da Universidade de Yale, com residência em cirurgia plástica e reconstrutiva na Universidade de Stanford, onde ensina estratégia, liderança e tecnologia. É colunista da revista Forbes. Publicado com autorização.

Ensaio publicado na revista Diagnóstico n° 32.



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