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02/07/14
Entrevista: Os robôs não vão substituir o cirurgião
Para a médica Catherine Mohr, diretora de pesquisa da Intuitive Surgical, líder global em cirurgias assistidas, o futuro da robótica não exclui o expertise humano
Adalton dos Anjos


Catherine Mohr, ao lado do da vinci: Brasil é o maior comprador de tecnologia assistida para cirurgias na América Latina (Foto: Divulgação)

As interversões assistidas por robôs, que representam a segunda geração de cirurgias minimamente invasivas, enfrentam o seu maior dilema desde que foram criadas, há quase duas décadas: ganhar escala e, ao mesmo tempo, ter os efeitos adversos dessa expansão sob controle. Em 2013, cresceu o número de reclamações sobre mortes, lesões e problemas gerados pelo uso de robôs em cirurgias nos EUA, segundo o FDA. Foram 3.697 eventos adversos contra 1.595 no ano anterior. Todo ano, mais de dois milhões de procedimentos são realizados ao redor do mundo. No Brasil, 12 hospitais – entre eles Samaritano, Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz – utilizam esse tipo de equipamento. “Nossa tecnologia ajuda a tornar a performance das cirurgias mais segura, mais eficiente e muitas vezes com procedimentos mais efetivos”, defende a americana Catherine Mohr, diretora médica da Intuitive Surgical – líder em cirurgias robóticas no mundo. A companhia, com sede na Califórnia, na costa oeste americana, chegou a figurar no top 100 da revista Fortune entre as empresas que mais lucram no mundo. No último trimestre de 2013, contudo, a Intuitive registrou queda de 23% em sua receita. “Acreditamos que a cirurgia robótica continuará crescendo no Brasil e no mundo, assim como seus benefícios econômicos e médicos se tornarão mais evidentes”, aposta a executiva. O Da Vinci, principal produto da multinacional, é comercializado por valores entre US$ 1,5 milhão e US$ 3 milhões. Procedimentos com o uso da tecnologia, a exemplo de uma cirurgia de próstata, chegam a custar mais de R$ 25 mil no Brasil. “Operadoras de saúde têm percebido que o custo-benefício no pagamento de cirurgias assistidas por robôs é mais efetivo, já que a técnica promove redução dos índices de complicações, readmissões e no tempo de internação”, defende Catherine. Questionada sobre a futuro da tecnologia e o uso da inteligência artificial, a médica, que também é formada em engenharia mecânica pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), é lacônica. “O cirurgião está sempre no controle do Da Vinci”, sentencia. “Mesmo assim, é difícil dizer se no futuro teremos este tipo de recurso, como nos filmes”. De São Francisco, na Califórnia, onde vive, Catherine, concedeu a seguinte entrevista à Diagnóstico.

Revista Diagnóstico – As cirurgias robóticas ainda enfrentam preconceito por parte de médicos e pacientes?
Catherine Mohr – Ele já foi maior. Esse tipo de procedimento está se tornando mais comum, tanto para pacientes como para cirurgiões, que estão se conscientizando dos benefícios da cirurgia minimamente invasiva. A cirurgia “robótica”, aliás, deveria ser pensada estritamente como cirurgia assistida por robôs. Afinal, é o cirurgião que realiza a cirurgia através extensores mecânicos, que têm como principal função propiciar mais destreza à operação. O benefícios são enormes, como a redução de complicações, readmissões e o tempo de permanência em relação a cirurgias abertas. Existe um número crescente de publicações clínicas que demonstram de forma irrefutável os benefícios substanciais da técnica de cirurgia assistida pelo robô Da Vinci, em comparação a cirurgias abertas. Os próprios pacientes que já passaram pelo procedimento têm sido propagadores desse tipo de tecnologia.

Diagnóstico – No Brasil, os custos com cirurgias assistidas por robôs têm sido repassados, com raras exceções, integralmente para o consumidor final. Esta é uma tendência em outros sistemas de saúde privados? 
Catherine – Adicionar um novo procedimento de saúde na lista de serviços oferecidos pelas operadoras demanda um tempo considerável, independentemente do mercado ou país. No Brasil, alguns planos de saúde cobrem integralmente os custos dos procedimentos assistidos por robôs. Já outros custeiam uma porção, e o custo acaba sendo dividido com o paciente. O mesmo acontece para muitos tipos de laparoscopias. Ao redor do mundo, contudo, os sistemas de saúde estão evoluindo seus pensamentos sobre a cirurgia assistida por robôs. Em alguns países, ela está mais estabelecida. Operadoras de saúde têm percebido que o custo-benefício no pagamento de cirurgias assistidas por robôs é mais efetivo, já que a técnica promove redução dos índices de complicações, readmissões e no tempo de internação.

Diagnóstico – O mercado brasileiro detém 1/3 dos robôs em uso na América Latina, com 12 sistemas. Qual a expectativa de crescimento de vendas para os próximos dez anos?
Catherine – O Brasil é um dos top 6 no mercado global de compradores desse tipo de tecnologia. Na medida em que este crescimento continua, o Brasil melhora sua posição global. Por isto, esperamos oportunidades adicionais para o Sistema Cirúrgico da Vinci. Os pacientes e os hospitais do sistema público que desejam ter resultados similares ou melhores do que a cirurgia aberta, mas com menores complicações e um mais rápido retorno à vida normal, continuarão a conduzir o crescimento das opções de cirurgias minimamente invasivas.

Diagnóstico – O que China e Índia representam para o avanço da Intuitive no mundo?
Catherine – O rápido crescimento de economias como China e Índia – bem como o Brasil – representa oportunidades substanciais para qualquer companhia que busca uma penetração global. Na Intuitive, desenvolvemos estratégias para cada um destes mercados. Cada um destes players, entretanto, apresenta um conjunto único de desafios e oportunidades que exigem abordagem personalizada.

Diagnóstico – Os custos dos robôs (entre US$ 1,5 mi e US$ 3 mi) e das cirurgias são os maiores gargalos para o crescimento deste mercado. Como ganhar escala em um cenário tão adverso?
Catherine – No mundo repleto de sistemas de saúde que tentam reduzir os custos, enquanto aumentam a qualidade, acreditamos que a cirurgia com Da Vinci pode ajudar a alcançar este objetivo. O custo do tratamento cirúrgico para qualquer paciente inclui o equipamento na sala de cirurgia (onde os custos da cirurgia assistida por robôs são mais altos), além do pós-cirúrgico, complicações, readmissões e cuidados em longo prazo, cujos estudos têm mostrado que são menores para cirurgias assistidas por robôs, em comparação com a cirurgia aberta. Essas economias de custos tornam o Da Vinci rentável quando o sistema de utilização é otimizado.

Diagnóstico – Os nanobots continuam sendo a principal ameaça aos negócios da Intuitive? 
Catherine – Os nanobots, máquinas que são tão pequenas que não podem ser vistas a olho nu, são assuntos de pesquisas acadêmicas consideráveis, mas, ainda, não têm sido apresentadas com um alvo clínico claro ou aplicação na medicina. Para uma tecnologia ser usada em humanos, ela deve se mostrar segura e efetiva. A pesquisa da Intuitive está concentrada na área de mecanismos em larga escala que são mais prováveis de ter valor clínico em curto prazo. 

Diagnóstico – Os avanços na terapia celular também podem ser encarados como desafio competitivo para a robótica médica?
Catherine – Vemos muitas dessas novas tecnologias biológicas mais como sinérgicas com cirurgias robóticas do que competitivas. Os novos diagnósticos, para a imunoterapia baseada em células e medicina regenerativa, tecnologias biológicas no desenvolvimento atual, têm o potencial de algum dia melhorar os resultados de pacientes. A robótica é uma plataforma ideal de integração para muitas dessas tecnologias porque a implantação cirúrgica precisa e minimamente invasiva de novos materiais, como células terapêuticas para corrigir uma região do corpo, dará ao paciente o benefício integral da tecnologia biológica, sem grandes incisões.

Diagnóstico – Quais os maiores entraves enfrentados pela Intuitive na área de P&D?
Catherine – Podemos experimentar qualquer coisa que gostaríamos dentro do laboratório, mas existe uma diferença entre ser capaz de fazer algo no laboratório e a transferência de forma segura e efetiva para terapias clínicas. Alcançar esta transição é um dos maiores desafios de qualquer companhia de dispositivos médicos inovadores.

Diagnóstico – Depois de quase duas décadas de fundação, a Intuitive está perto de perder suas primeiras patentes. Quem serão esses novos competidores? 
Catherine – A Intuitive detém mais de 2,5 mil patentes americanas e internacionais. Apesar de cada uma destas patentes ter uma vida finita, continuamos a evoluir e ampliar nossa tecnologia e apresentar pedidos de patentes com regularidade. Os competidores potenciais estão emergindo em muitos mercados, mas eles não têm compartilhado um cronograma exato em seus lançamentos.

Diagnóstico – A queda da receita da Intuitive no quarto trimestre do ano passado poderá se repetir em 2014?
Catherine – Nossos funcionários estão profundamente comprometidos a aumentar o conhecimento e o sucesso dos programas de cirurgias assistidas por robôs. Com um foco contínuo na inovação e o crescimento dos mercados internacionais, acreditamos que o Da Vinci tem um futuro promissor.

Diagnóstico – Em 2013, cresceu o número de reclamações sobre mortes, lesões e problemas gerados pelo uso de robôs em cirurgias nos EUA, segundo a FDA. Foram 3.697 eventos adversos contra 1.595 no ano anterior. Poderia comentar?
Catherine – Existem dois fatores específicos para se ter em mente. O primeiro é que o grande número de procedimentos cirúrgicos sendo realizados a cada ano com o sistema cirúrgico Da Vinci cresceu substancialmente, portanto o índice de lesões e problemas segue este mesmo movimento. Mais de dois milhões de procedimentos foram realizados no mundo. O segundo, que é importante ser enfatizado, é que tão logo os incidentes são conhecidos pela companhia, eles são relatados. As lesões causadas por falhas de funcionamento do robô têm sido sempre comunicadas imediatamente. Apesar de existir um crescente número de reclamações em um ano, o índice de eventos adversos por cirurgia realizada tem caído constantemente. Além disso, devemos ter em mente que a cirurgia por si só tem riscos inerentes que devem ser sempre explicados e acordados pelos pacientes. Acreditamos que nossa tecnologia ajuda a tornar a performance das cirurgias mais segura, mais eficiente e muitas vezes com procedimentos mais efetivos, mas os riscos ainda se aplicam em cada caso e devem ser devidamente considerados pelo paciente e pelo seu médico.

Diagnóstico – Mesmo com as diversas vantagens do uso de robôs cirúrgicos – períodos de internação mais curtos, menos riscos de infecção hospitalar, mais precisão no tratamento, entre outros –, os hospitais brasileiros ainda não conseguem compensar o investimento na aquisição dos equipamentos e manutenção. Como é esta realidade nos EUA?
Catherine – O sistema de saúde brasileiro é muito diferente do americano, com considerações únicas. Na Intuitive, continuamos a tentar entender e discutir essas considerações no desenvolvimento de nossas estratégias de negócios. Realmente acreditamos que a cirurgia robótica cotinuará crescendo  no Brasil e no mundo, assim como seus benefícios econômicos e médicos se tornarão mais evidentes no sistema de saúde.

Diagnóstico – Na contramão das tendências tecnológicas, o Da Vinci, um dos mais famosos robôs cirúrgicos da Intuitive, é grande e de difícil transporte. A próxima geração do Da Vinci será menor, mais barata e com maior portabilidade?
Catherine – Enquanto a tecnologia avança, ela prepara o caminho para arquiteturas menores. Contudo, existem alguns requisitos de tamanho fundamentais e necessários para dar flexibilidade na configuração para alcançar qualquer parte da anatomia dos pacientes, então nós não antecipamos uma redução significativa do tamanho. Contudo, isto não significa que não podemos melhorar a maneabilidade dos sistemas. A última versão do sistema, o Da Vinci Xi, é autoalimentada e pode ser conduzida facilmente de uma sala cirúrgica para outra. Ninguém pode prever o futuro com certeza, mas não é irrealista esperar que o Da Vinci diminuirá e a funcionalidade aumentará, como acontece normalmente na maioria das tecnologias assistidas por computador.

Diagnóstico – Quando estes equipamentos serão usados em larga escala em cirurgias remotas? Quais os principais entraves para que este avanço ocorra? 
Catherine – É tecnicamente possível a performance de cirurgias remotas com sistemas como o Da Vinci, e, em alguns casos, elas têm sido realizadas para demonstrações. Contudo, os principais obstáculos para ampliar a adoção deste conceito são as infraestruturas de telecomunicações e os atrasos que poderiam interferir negativamente na execução da cirurgia. Também deve ser reconhecido que este tipo de cirurgia requer treinamentos intensivos de pessoal para preparar o paciente antes e dar suporte depois da operação e responder em qualquer emergência. O telemonitoramento é útil e já foi implantado. Ele permite que cirurgiões mais experientes, localizados em grandes distâncias da sala de cirurgia, guiem os menos experientes que estão realizando o procedimento. O orientador pode ver tudo o que acontece no ambiente e ao mesmo tempo, em uma tela ilustra sugestões e orientações anatômicas.

Diagnóstico – Como foi sua primeira vez operando com o Da Vinci?
Catherine – Minha primeira experiência com o Da Vinci na sala de cirurgia foi quando estava na faculdade de medicina. Foi a primeira vez que tinha uma cirurgia sob a minha responsabilidade e tive que realizá-la com a assistência de um robô. A cirurgia inédita que realizei foi de redução de estômago, indicada para tratar a obesidade mórbida. Isto nunca tinha sido feito desta forma em um paciente, somente algumas vezes no laboratório, e existe uma grande diferença entre o mundo real e as simulações. Este procedimento foi extremamente bem-sucedido e o paciente não poderia ter ficado mais feliz.

Diagnóstico –  É verdade que o uso deste equipamento torna a vida de mulheres cirurgiãs mais fácil?
Catherine – Existem benefícios ergonômicos no uso do Da Vinci para homens e mulheres. A laparoscopia é desgastante fisicamente e muitos dispositivos, como grampeadores, tem manípulos que são difíceis para ser manuseados por pessoas que têm mãos pequenas. A redução de tremor, a posição ergonômica do corpo, a redução da fadiga e os controles com menos força beneficiam todos os cirurgiões usando o dispositivo. Os cirurgiões habilidosos de muitas especialidades podem performar clinicamente excelentes procedimentos na maneira mais minimamente invasiva.

Diagnóstico – Um dia será possível o Da Vinci operar sozinho?
Catherine – O Da Vinci não é equipado ou programado para ter inteligência artificial. O cirurgião está sempre no controle. É difícil dizer, contudo, se no futuro teremos este tipo de recurso, como nos filmes. O julgamento e a tomada de decisão pelo profissional treinado não pode ser subestimado na promoção da segurança e nos efeitos dos resultados clínicos. Vamos manter o cirurgião “no laço” por muito tempo. 

*Entrevista publicada na edição 25 da revista Diagnóstico.



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