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10/04/14
Inteligência artificial na saúde: quem vence, Watson (IBM) ou Siri (Apple)?
Qual dessas novas tecnologias se provará como a mais poderosa em ajudar a melhorar a oferta dos serviços de saúde?
Robert Pearl


Disputa épica: Davi (Apple) e Golias (IBM) disputam quem terá a preferência do mercado de saúde por acesso de dados via voz (Imagem: Shutterstock)

Em cada força reside uma fraqueza e em cada fraqueza, uma força. Esta máxima tem se mantido fiel ao longo da história – desde os dias bíblicos até as batalhas dos tempos modernos. E ela se mantém tão verdadeira que na tecnologia da informação (TI) uma “corrida armamentista” está tocando a área de saúde hoje.

Malcolm Gladwell sugere em seu mais novo trabalho, “David and Golias”, que quando falhamos em reconhecer as forças e fraquezas de alternativas diferentes, arriscamos não ver as melhores soluções. Gladwell argumenta que tendemos a supervalorizar uma característica particular, como o tamanho de Golias, enquanto falhamos em reconhecer habilidades aparentemente menos poderosas, como a capacidade de Davi de usar o estilingue. Um ponto importante é que cada um detém uma vantagem tática, dependendo das condições de batalha.

Há muita discussão sobre como a tecnologia pode ajudar a resolver os problemas de saúde que as nações enfrentam. Uma solução proposta é a aplicação da “big data” (conjunto de dados que são muito variáveis e complexos para processamento com ferramentas de software de uso geral). Outra solução high-tech vem por meio do uso algorítmico que já está disponível na tecnologia móvel. Pense sobre estas duas soluções como o Watson e o Siri. Grande e forte versus o pequeno e ágil. Davi e Golias. O Watson da IBM tem capacidade de inteligência artificial vinculada a um computador do tamanho de uma caixa de pizza. Ele pode responder questões complexas em uma linguagem natural. O Siri da Apple contém um conjunto de algoritmos disponíveis em cada novo iPhone vendido e pode responder, via comando de voz, a um enorme volume de pedidos em uma ampla quantidade de tópicos.

Qual dessas tecnologias se provará como mais poderosa em ajudar a melhorar a oferta dos serviços de saúde?
Seria fácil dizer que o Watson é o vencedor. Afinal de contas, o computador Golias venceu o Gary Kasparov no xadrez e Ken Jennings, que recebeu US$ 2,5 milhões ao ganhar por 74 vezes o “Jeopardy!” (programa de TV de perguntas e respostas exibido pela emissora norte-americana CBS), além disso, ele pode passar por milhões de páginas de conteúdo a cada segundo.

Mas muito parecido com Davi, o oponente de Golias, o Siri (e seus irmãos baseados no Android) tem qualidades que não podemos obter do Watson. O Siri pode não ter o mesmo poder da solução da IBM, mas a aplicação é barata, de fácil uso e tem maior capacidade de mobilidade. Talvez, relativamente poucas tarefas na medicina clínica requerem a velocidade analítica e abrangência que o Watson oferece. Como na história bíblica, a vitória dependerá das condições de batalha.
Quando o Watson vencerá?

A força do Watson é sua habilidade de pesquisa em grandes bancos de dados e o rápido retorno de informações clínicas relevantes. Quando milhões de arquivos precisam ser pesquisados rapidamente, o Watson dominará porque a análise do big data favorece o tamanho e a velocidade de computação (juntamente com a inteligência artificial e a aprendizagem da máquina) em vez da mobilidade e do preço.

Hoje, o Watson pode encontrar respostas escondidas em milhões de páginas de arquivos médicos. Com o volume de informações médicas dobrando a cada cinco anos, o Watson já está sendo usado para vasculhar cerca de um milhão de novos estudos médicos publicados anualmente. Seu proponente argumenta que nenhum médico pode lidar com este volume de informações. Mais recentemente, a IBM iniciou uma parceria com o Memorial Sloan-Kettering, maior e mais antigo centro especializado no tratamento de câncer sediado em Nova Iorque, dando aos médicos acesso à capacidade do Watson de “esquadrinhar os dados médicos” e chegar a um plano de tratamento ideal.

Mas esta é apenas a ponta do iceberg.  O real e único valor do Watson será realizar a probabilidade diagnóstica ou o tratamento quando não existe uma resposta definitiva – um cálculo difícil de ser realizado pelo ser humano.

Como um exemplo, o Watson poderia ajudar a ampliar a capacidade de trabalho de médicos clínicos do departamento de emergência em situações ambíguas. Confrontado com um paciente que pode estar tendo um ataque cardíaco – mas cujos sintomas são incomuns – , o médico pode recorrer ao Watson para procurar pelos últimos milhares de pacientes cujas situações clínicas eram similares. O sistema da IBM pode encontrar e analisar arquivos médicos relevantes dos pacientes e providenciar a resposta.
Contudo, é raro hoje para os médicos se encontrar em circunstâncias ambíguas. A maior parte do tempo, eles podem descobrir o que está errado e qual tratamento é necessário. Por esta razão, o assistente Watson somente melhorará tratamentos e internações para um número limitado de pacientes.

Todavia, essa necessidade pode crescer no futuro, assim como nosso entendimento de doenças complexas evolui. O câncer, por exemplo, representa provavelmente centenas de doenças diferentes – cada uma com sua própria variação genética. A quantidade de dados envolvidos nestas variações excederá o “poder de computação” do cérebro humano. Nesta circunstância, o poder de informática do Watson se provará. Ele pode individualizar o cuidado para dois pacientes aparentemente com câncer de mama similares, mas cujos tumores têm anormalidades diferentes. 

O Siri pode competir?
Se o poder competitivo promove vantagens para o Watson, a facilidade do uso e a disponibilidade definem as forças do Siri. Médicos e pacientes não desejariam carregar uma máquina do tamanho de uma caixa de pizza. Mas a maioria terá um smartphone ou tablet. As opções de diagnóstico e o tratamento para a maioria dos pacientes e as condições podem facilmente se encaixar nos algoritmos do Siri. Quando os pacientes estão em tratamento, os erros médicos mais comuns são esquecer uma etapa. A memória do Siri é perfeita – fazendo dela um triunfo poderoso no mundo dos cuidados de saúde. 

Pense na central de avisos telefônicos, por exemplo. A maior parte é operada por enfermeiras que dão conselhos baseados em protocolos especificamente desenvolvidos por médicos. Em uma interação típica, uma enfermeira realiza uma série de perguntas aos pacientes que a permite determinar a maioria dos diagnósticos prováveis e a recomendação de um plano de ação. Uma enfermeira pode recomendar uma ida até a emergência, à farmácia ou simplesmente repouso. O Siri pode fornecer todas estas informações para a profissional. E ele pode também fazer que esta mesma informação esteja disponível imediatamente ao paciente. 

Em casos em que os pacientes são admitidos em emergências por ataques cardíacos, acidente vascular cerebral ou a possibilidade de sepsia, o Institute of Medicine definiu uma série de etapas essenciais que garantem os melhores resultados clínicos. O Siri poderia oferecer o tratamento médico com o melhor e mais atual plano para diagnósticos particulares. Ele poderia aconselhar farmacêuticos sobre se pacientes com um sangue mais fino precisam de uma dose maior ou menor e qual a quantidade do medicamento. Ele poderia oferecer aos indivíduos de comunidades carentes de medicamentos ao redor do mundo recomendações de tratamentos para centenas de condições médicas para que intervenções terapêuticas otimizadas sejam bem definidas. 

O maior gap em cuidados em saúde acontece quanto médicos e enfermeiras não seguem estas recomendações. Estes profissionais leem livros, jornais científicos, memorizam diagnósticos diferentes e aplicam o tratamento recomendado. Isto requer anos de treinamento e é fácil cometer erros devido ao número de doenças e medicamentos disponíveis. Para o Siri, analisar esta quantidade de informações e oferecer conselhos seria como uma brincadeira de criança. 

Watson e Siri é melhor que Watson X Siri
Se isto era uma competição, o vencedor seria determinado pelo panorama do terreno de batalha. Ou neste caso, o problema específico que necessita ser solucionado. Mas, melhor do que ver os dois como combatentes, médicos e pacientes se beneficiarão quando ambos estiverem do mesmo lado. Claro que Watson e Siri são somente os nomes que usamos para representar quais são, em última instância, as duas possibilidades de trabalhar com a informação no setor de saúde: a big data e o algoritmo.

No momento, as aplicações são usadas por número relativamente pequeno de médicos, mas a big data e a tecnologia móvel em breve serão centrais para a forma como os médicos oferecerão seus serviços. Quando o diagnóstico dos pacientes está relativamente claro e as opções de tratamento são facilmente definidas, os médicos vão querer que o Siri ou seus análogos na Android Store confirmem a recomendação e a garanta que eles não negligenciaram etapas importantes.

Mas quando existe ambiguidade, as capacidades do Watson permitirão que médicos e pacientes calculem as probabilidades do diagnóstico e da terapia, ou seja, ele participa da tomada de decisão de modo informado e compartilhado. 
Quando as duas ferramentas estiverem prontamente disponíveis para médicos, os pacientes terão o melhor resultado do tratamento médico possível. 

*Robert Pearl é médico formado pela Escola de Medicina da Universidade de Yale, com residência em cirurgia plástica e reconstrutiva na Universidade de Stanford, onde ensina estratégia, liderança e tecnologia. É colunista da revista Forbes.  

**Ensaio publicado na revista Diagnóstico n° 24.



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