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25/02/14
Utilização de robôs em cirurgias ainda é restrita no país
Alto investimento restringe tecnologia aos grandes hospitais. Até o final de 2013, Brasil teve apenas 12 exemplares -- um terço dos 36 vendidos à América Latina. Nos EUA, o número chegou a 1,8 mil
Valor Econômico

Desde 2008, quando adquiriu seu primeiro robô, as cirurgias com esse tipo de sistema tem se repetido com frequência cada vez maior no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. A instituição conta com dois sistemas robotizados e é uma das poucas a realizar esse tipo de procedimento. O número de robôs cirúrgicos vem crescendo no país, mas ainda é restrito. As informações são do Valor Econômico.

Segundo a Intuitive Surgical, empresa americana que fabrica os robôs do modelo Da Vinci, até o final de 2013 haviam 12 sistemas desse tipo no Brasil, contabilizando um terço dos 36 robôs vendidos para a América Latina. Nos Estados Unidos, o número chegou a cerca de 1,8 mil equipamentos.

Além do Sírio-Libanês, os hospitais Albert Einstein (com dois robôs), Oswaldo Cruz, A.C. Camargo e 9 de Julho (todos em São Paulo); Instituto Nacional do Câncer (Inca) e Hospital Samaritano (ambos no Rio); e o Hospital das Clínicas de Porto Alegre completam a lista de instituições que possuem robôs cirúrgicos. Esta semana, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) tornou-se o mais recente da lista.

Robôs são considerados a terceira geração cirúrgica, após as cirurgias abertas -- que exigem grandes cortes -- e as laparoscópicas, modalidade considerada minimamente invasiva. A tecnologia não pode ser aplicada a qualquer caso, mas já faz grande diferença em áreas como urologia, ginecologia, gastrocirurgia, operações de tórax, cabeça e pescoço, afirmam especialistas.

A principal característica é a precisão. Para Carlo Passerotti, médico e coordenador de cirurgia robótica do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o robô permite 7 graus de movimento, enquanto a laparoscopia só é possível 4 graus. Ou seja, a tecnologia permite que o cirurgião faça movimentos que antes eram impossíveis. Passerotti diz ainda que, através do 3D, o sistema também possibilita ampliar a imagem de 10 a 15 vezes.

Para os pacientes, as vantagens são: o período de internação mais curto, menor risco de infecção hospitalar, melhorias em relação à perda de sangue, redução da dose de medicamentos no pós-operatório e retorno mais rápido. 

Sérgio Arap, gerente do centro cirúrgico do Hospital Sírio-Libanês, explica que em casos de ressecção (retirada) de tumor da faringe, por exemplo, o tempo médio da cirurgia diminui de dez horas para uma hora e meia, o de internação cai de dez dias para um ou dois dias e o paciente volta a falar normalmente entre nove e dez dias, quando o prazo habitual é de um mês.

No Inca, cerca de 265 cirurgias robóticas já foram realizadas desde que o sistema entrou em funcionamento, em março de 2012. Luiz Antonio Santini, diretor-geral da unidade afirma que, em nenhum dos casos foi necessário fazer transfusão de sangue e, além disso, não foi registrado nenhum caso de infecção hospitalar. No caso das intervenções de cabeça e pescoço, o tempo de internação, que costumava ser de sete a dez dias, ficou em dois dias.

História - Embora ainda pareça uma novidade e tenha muito a evoluir, os robôs cirúrgicos não são recentes. e, como vários sistemas considerados inovadores, a aplicação tem origem militar. 

No final da década de 80, o Darpa, agência americana de tecnologias militares, iniciou um projeto para permitir que soldados na frente de batalha fossem operados a distância, por cirurgiões nos Estados Unidos ou em bases aliadas. Mesmo não chegando a esse ponto, o projeto deu o empurrão necessário para a criação dos robôs em funcionamento hoje.

Ao contrário do tema da desumanização recorrente na ficção científica, a utilização de robôs na medicina fazem um caminho contrário ao levar em conta as limitações físicas e emocionais, tanto de quem opera como de quem está sendo operado, reforçando a dimensão humana.

Segundo o médico Antônio Macedo, especialista em cirurgia robótica do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, no caso de tumores no reto, à medida que o cirurgião se aproxima da área afetada, também fica mais próximo dos nervos. Ele explica que uma simples tremida nas mãos pode lesionar o paciente e as consequências vão desde ficar impotente até passar o resto da vida com problemas para urinar. 

Já o robô analisa cerca de 1,5 mil vezes por segundo o movimento humano, corrigindo eventuais imperfeições. Chega-se tão perto que é possível ver os nervos, sem queimá-los. Cada corte tem décimos de milímetro. "É um trabalho de ourives", afirma Macedo, membro fundador da Clinical Robotic Surgery Association, organização criada em 2009, em Boston, para aperfeiçoar os procedimentos da cirurgia robótica.

No Inca, a tecnologia é muito usada para tratar casos de cabeça e pescoço, como câncer de língua e garganta -- tumores considerados de difícil acesso. Para chegar à área afetada, às vezes é necessário retirar partes da mandíbula ou outros ossos. O câncer é vencido, mas o paciente sai mutilado. Para tanto, o Inca tem realizado experiências com a criação de próteses através de impressoras 3D. É onde entram os robôs, que na maioria dos casos ajudam a retirar o câncer sem alterar a fisionomia do paciente.

Robôs também têm reflexos para quem maneja o bisturi e uma questão que interfere diretamente no sucesso de uma cirurgia, segundo os médicos, é o cansaço. Sendo que, às vezes, é preciso passar mais de dez horas em pé, com os braços levantados, se contorcendo para fazer os movimentos necessários para operar. Com a tecnologia, segundo Anuar Mitre, urologista do Sírio-Libanês, é possível trabalhar em uma posição muito mais confortável

Os sistemas é composto por três partes: o robô propriamente dito, o sistema de vídeo e o rack, onde o médico fica sentado segurando joysticks e pedais. E esse conforto está mudando o perfil dos cirurgiões, com muito mais mulheres assumindo as salas de cirurgia, segundo Macedo, do Einstein. 

O principal gargalo dos sistemas robóticos é o custo. O preço de aquisição de um robô vai de US$ 1,5 milhão a US$ 3 milhões. Há ainda outras despesas, como o treinamento de médicos, técnicos e enfermeiros - avaliado em US$ 6 mil a US$ 8 mil, não incluído o custo da viagem aos Estados Unidos - e a manutenção do sistema, que todo ano consome US$ 100 mil por robô.

O alto investimento restringe o uso dos robôs aos grandes hospitais. No Brasil, os planos de saúde cobrem as cirurgias laparoscópicas, mas não o uso do robô. A diferença precisa sair do bolso do doente. Esse valor, dizem os médicos, não é usado pelo hospital para amortizar o preço de aquisição do equipamento. Basicamente, o valor cobre o custo do material descartável e despesas relacionadas à cirurgia.

Os valores são tão altos que é necessário uma segurança reforçada. Na sala onde fica o Artis Zeego, armários são protegidos por senha e têm conexão direta com a área de suprimentos. É neles que ficam os "stents" (usados no exame) e outros tipos de material. Cada caixa custa entre R$ 12 e R$ 13 mil.

Segundo os médicos, a maior parte dos pacientes chega aos hospitais particulares bem informados e não se intimidam com a utilização dos robôs. E com a chance de voltar mais rapidamente à vida normal, eles não se incomodam em pagar a diferença de preço. No Sírio-Libanês, uma cirurgia de próstata por laparoscopia custa R$ 18 mil; R$ 26,5 mil com a ajuda do sistema robótico.

Na rede pública, onde os robôs são ainda raros, é preciso definir critérios para escolher quem vai passar pela cirurgia robótica. No Inca, que integra o Sistema Único de Saúde (SUS), a escolha depende do tipo de cirurgia, da experiência dos médicos na área e da contribuição que a operação pode representar em termos de conhecimento acumulado para a instituição. O custo adicional é absorvido pelo Ministério da Saúde.

Em São Paulo, o robô cirúrgico chegou à rede pública na quarta-feira. Nos próximos três anos, a Secretaria de Estado da Saúde pretende investir R$ 2 milhões no custeio de cirurgias robóticas para beneficiar os 1.070 pacientes do Icesp. O robô foi adquirido pelo Ministério da Saúde.

As informações são do Valor Econômico.



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